Capítulo 22 – O Muro Invisível

613 Palavras
O reencontro aconteceu dois dias depois na casa dos pais dele, em silêncio. Enzo entrou no quarto ainda com o cheiro da pista impregnado na pele, o troféu esquecido em algum canto da memória. Leticia estava deitada na cama de casal que nos últimos meses eles dividiram felizes pela chegada do bebe, pálida, os olhos vermelhos de tanto chorar. Ao lado dela, a cama vazia denunciava a ausência que jamais seria preenchida. Ele parou na porta, incapaz de dar um passo. O coração batia descompassado, mas não havia palavras, ele não sabia o que dizer. Não havia abraço. Apenas o peso de uma dor que os esmagava. Leticia virou o rosto lentamente, encarando-o com calma e olhar vazio. Não havia raiva, não havia acusação, não havia voz. Apenas um vazio profundo da dor de uma mãe que perdeu o filho. Enzo tentou se aproximar, mas cada passo parecia atravessar um abismo. Quando finalmente chegou perto, ela desviou o olhar e virou de costas para ele, como se não suportasse vê-lo. Ele quis dizer algo pedir perdão, prometer que estaria ali de agora em diante confessar que se sentia culpado por não ter estado ao lado dela naquele momento. Mas nada saiu. A garganta estava seca, a voz presa. O silêncio se tornou a única linguagem possível entre eles. Leticia acariciava a manta onde o bebê havia sido enrolado e repousado por alguns minutos da sua curta vida. O gesto era automático, como se ainda pudesse sentir o calor do filho ali. Enzo observava, impotente, desejando poder arrancar aquela dor dela, mas ao mesmo tempo mergulhado na sua própria dor. Não houve briga. Não houve acusações. Nenhum dos dois apontou o dedo para o outro e culpou. Mas também não houve apoio, não houve nada. Cada um se isolou em seu mundo e na sua dor, construindo muros invisíveis que os separavam naquele momento e talvez para sempre. Enzo se sentou numa cadeira ao lado da cama, curvado, as mãos cobrindo o rosto. Lágrimas escorriam silenciosas, mas ele não deixou que Leticia o visse. Ela, por sua vez, mantinha-se de costas para ele e os olhos fixos na parede lateral do quarto, como se buscasse as respostas em algum lugar. As horas passaram sem que trocassem uma palavra. O som dos passos no corredor da casa o choro contido de Dona Maria do lado de fora do quarto vendo o filho e sua nora daquela forma tão triste, onde tudo parecia distante e sem calor. Dentro daquele quarto, havia apenas dois corações partidos, incapazes de se tocar por que não sabiam como. Leticia pensava no filho, no breve instante em que o segurou, no olhar que ele lhe deu antes de partir. Esse olhar a perseguiria para sempre. Enzo pensava no mesmo instante, mas de forma diferente: imaginava o que teria sido se estivesse ali, se tivesse se afastado das corridas aquele ano, já que a gravidez dela era de risco, se tivesse segurado a mão dela, se ele tivesse ali. A culpa o corroía, mas não encontrava espaço para ser dita. O muro entre eles crescia, silencioso, feito de dor não compartilhada. Não era raiva, não era desamor. Era apenas a incapacidade de se apoiar um no outro, por não saber como fazer. Cada um carregava sua cruz sozinho, e esse isolamento era o começo do fim. Naquele quarto, não houve gritos, não houve discussões. Houve apenas silêncio, dor e distância. E esse silêncio, mais do que qualquer palavra, foi o que começou a destruir o que ainda restava entre eles. O amor estava ali, escondido, sufocado. Mas a dor era maior. E, sem perceber, eles começaram a se perder um do outro.
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