O avião pousou em Roma numa manhã clara, o sol dourando os telhados antigos da cidade. Leticia desceu ao lado de Enzo, agora seu marido, com o coração acelerado. Ainda parecia um sonho: a Grécia, o casamento na pequena igreja, o mar testemunhando seu “sim”. Mas agora era realidade, e a realidade os aguardava com intensidade.
No hall da casa da família, o reencontro foi explosivo. Sua tia e seu tio estavam à espera, e ao verem Leticia entrar de mãos dadas com Enzo, ambos ficaram em choque.
— Madonna mia! — exclamou a tia, levando as mãos ao rosto. — Leticia, o que você fez?
O tio, mais severo, avançou alguns passos.
— Casada? Você voltou casada? Com Enzo? — a voz dele era carregada de incredulidade.
Leticia respirou fundo, tentando manter a calma.
— Sim, tio. Eu e Enzo nos casamos na Grécia. Foi lindo, foi verdadeiro.
— Verdadeiro? — repetiu a tia, quase sem fôlego. — Você desaparece por semanas e volta dizendo que se casou? Sem família, sem ninguém?
Enzo, firme, segurou a mão de Leticia e falou com serenidade:
— E não foi uma decisão impensada. Foi escolha, foi destino, Sr. Vitali.
O tio balançou a cabeça, nervoso.
— Você não entende, rapaz. Ela tem uma vida, uma família, responsabilidades, tem a faculdade. Não pode simplesmente jogar tudo para o alto.
Leticia, com lágrimas nos olhos, respondeu:
— Tio, eu não joguei nada para o alto. Eu escolhi viver. Escolhi ser feliz. Pela primeira vez.
A tia, ainda abalada, aproximou-se e segurou o rosto da sobrinha.
— Bambina… você sabe o que está fazendo?
— Sei. — disse Leticia, firme. — Sei porque sinto. E nunca senti nada assim tia, seria muito importante ter a benção de vocês para mim.
O silêncio tomou conta por alguns instantes. O tio suspirou, derrotado, enquanto a tia enxugava discretamente uma lágrima. Enzo, com postura calma, acrescentou:
— Eu prometo cuidar dela. Prometo respeitar e honrar cada parte dessa escolha.
A tensão ainda pairava, mas algo na sinceridade dele suavizou o ambiente. A tia, finalmente, sorriu com tristeza e carinho.
— Então… que seja. Mas lembrem-se: casamento não é só paixão. É responsabilidade, é vida compartilhada.
Leticia abraçou a tia, emocionada. O tio, ainda relutante, apenas assentiu.
O salão da casa estava cheio de vozes ainda dando as felicitações ao jovem casal, quando Fabricio e Giulia chegaram. O ambiente ainda carregava a tensão do anúncio do casamento de Leticia e Enzo. Giulia, curiosa, percebeu os abraços e sussurros e perguntou:
— O que está acontecendo? Por que todos estão tão emocionados e estavam gritando?
A mãe de Leticia respirou fundo e respondeu com firmeza:
— Sua prima se casou. Leticia e Enzo se casaram na Grécia.
O silêncio foi imediato. Fabricio arregalou os olhos, incrédulo.
— Isso é um absurdo! — exclamou, a voz carregada de raiva. — Enzo nunca respeitou nenhuma mulher. Ele não sabe o que é compromisso.
Enzo, até então calmo, ergueu o olhar.
— Cuidado com suas palavras, Fabricio.
— Não, eu não vou me calar! — continuou Fabricio, avançando alguns passos. — Você acha que pode brincar com a vida dela? Leticia merece respeito, merece alguém que a veja além de uma aventura.
O clima ficou pesado. Os dois se encararam, os punhos cerrados, e por um instante parecia que iriam trocar socos. Foi então que Antônio, o tio de Leticia, se colocou entre eles, abrindo os braços.
— Basta! — disse em tom firme. — Não é assim que vamos resolver.
Fabricio respirava com dificuldade, o rosto vermelho de fúria. Depois de alguns segundos, abaixou a cabeça e murmurou:
— Me desculpe o Fabricio, Enzo. Ele sempre foi muito protetor com as meninas principalmente Leticia. Se para mim aceitar que ela se casou, imagine para alguem que tem como a irmã mais nova.
Enzo manteve o olhar firme, mas não respondeu. Guardou para si o ciúme que sentia da forma como Fabricio olhava para Leticia, preferindo não alimentar mais conflitos.
A tensão foi se dissipando aos poucos. Mais tarde, a família se reuniu para comemorar o casamento. A mesa foi posta com pratos típicos italianos, vinho e risadas que suavizaram o clima.
O jantar seguia animado, mas a tensão ainda pairava no ar. Claudia, a tia, aproveitou um momento de silêncio para perguntar:
— Então, meus queridos… aonde vão morar?
Enzo respondeu com firmeza, sem hesitar:
— No meu apartamento em Monza, num primeiro momento.
Fabricio, com veneno na voz, não perdeu a oportunidade de provocar:
— Aquele que era o seu… abatedouro?
A mesa inteira ficou constrangida. O comentário caiu como uma pedra. Leticia abaixou os olhos, sentindo o peso da malícia.
Enzo, porém, manteve a calma e respondeu com firmeza:
— Não, Fabricio. Na cobertura do Residenza San Carlo, até decidirmos melhor onde morar.
Giulia interveio, irritada com o tom do noivo:
— Fabricio, pare de ser infantil.
O restante do jantar transcorreu mais tranquilo, com conversas leves e risadas que tentavam apagar o desconforto inicial. Leticia, em certo momento, pediu licença.
— Vou ao quarto pegar algumas coisas minhas.
Enquanto ela se afastava, Roberto, o tio, olhou para Enzo e disse:
— Venha comigo. Precisamos conversar.
Os dois caminharam até o jardim iluminado por pequenas lanternas. O cheiro das flores se misturava ao ar fresco da noite. Antônio parou diante de uma oliveira e encarou Enzo com seriedade.
— Você sabe que mexeu com toda a estrutura da família, não é?
Enzo assentiu, sem desviar o olhar.
— Sei. Mas não foi uma decisão impensada. Eu amo Leticia.
Antônio suspirou, cruzando os braços.
— Fabricio é explosivo, mas sempre foi protetor com ela. Ele vê Leticia como uma irmã mais nova. Por isso reagiu daquela forma.
— Eu entendo. — disse Enzo, com voz firme. — Mas não gosto da maneira como ele a olha. Ainda assim, guardo isso para mim. O importante é que Leticia me escolheu.
Roberto observou o jovem piloto por alguns segundos, avaliando sua postura. Finalmente, sorriu de leve.
— Então prove que merece essa escolha. Cuide dela.
Enzo estendeu a mão, e Antônio apertou com firmeza. O pacto silencioso estava feito.
Naquela noite, apesar das tensões, a família começava a aceitar que Leticia e Enzo estavam unidos. E o futuro, embora incerto, parecia promissor.