Vergonha

994 Palavras
**Diana** Eu não sabia onde colocar a minha cara. Queria que o chão se abrisse e me engolisse de tanta vergonha. Eu queria poder saber de onde tinha vindo aquele rosnado, não era possível que tivesse sido eu. Só de lembrar os olhos arregalados da atendente, gemia de frustração. Queria muito que Dante tivesse desmentido o que Natália disse, mas, ao que parecia, ele não se importava muito com isso. Mas eu me importava, não queria que as pessoas pensassem coisas erradas de mim. Acompanhei-o em silêncio até um dos bancos na praça, admirando o local. — Me desculpe por antes, não sei o que deu em mim — digo com a cabeça baixa. — Não foi nada, e a Natália realmente precisa parar com isso, ou algum dia terá problemas com alguém — diz ele, sorrindo. — Acha que poderia explicar a ela? — pergunto, um pouco constrangida. — Não vou fazer isso — diz ele de forma determinada. — Por que não? — pergunto, chateada. — Em breve você saberá — diz ele, apenas. Suspiro, frustrada com aquilo, mas não podia fazer nada. Então, concentro-me no meu sorvete no colo. — Quando é seu aniversário, Diana? — pergunta ele após alguns minutos de silêncio. Olho nos seus olhos e encontro apenas curiosidade. — No fim de semana — digo, sorrindo. Não vejo a hora de ter o meu lobo. — Ainda não sente nada do seu lobo? — pergunta ele. Fico surpresa com aquilo, mas lembro que minutos atrás eu havia rosnado para ele. — Não, quer dizer, já consigo sentir alguns cheiros diferentes, mas nada demais — digo a ele, e cheiro a camisa que estava vestindo. Eu não sabia de quem era, mas gostava tanto do cheiro daquela camisa, me acalmava. Ouço Dante rir, e aquilo me pega de surpresa. — Do que está rindo? — pergunto, sem me preocupar em ser grosseira. Por algum motivo, agora que estava ao lado dele, não conseguia sentir o medo que me dominava nos outros dias. — Gosta do cheiro dela? — pergunta ele, apontando para a camisa que eu estava vestindo. Era uma camisa simples, não havia desenhos nem nada, era apenas uma camisa preta como qualquer outra. — De ontem para hoje, comecei a sentir os cheiros à minha volta, e não sei o que essa camisa tem, mas gosto do cheiro dela — digo, tentando não parecer louca. — É porque está perto da sua transformação — explica ele, com um olhar satisfeito. — Pode estar certo — digo, voltando a tomar o meu sorvete. Era bom fazer aquilo. Gostava da liberdade que estava adquirindo naquele lugar, era diferente de tudo o que eu já tinha vivido na minha vida, e devia aquele pequeno presente à Zara. Se não fosse por ela, eu ainda estaria na alcateia do alfa James, sofrendo nas mãos daquelas pessoas cruéis. Devoro o meu sorvete como louca, aquilo era tão bom. Quando termino, recosto-me contra o banco, satisfeita. Quando olho para Dante, percebo que nem ao menos havia oferecido para ele. As minhas bochechas coram violentamente ao pensar naquilo. — Por que está corando? — pergunta ele, tranquilo. — Eu esqueci de perguntar se você queria — digo, mostrando o pote vazio para ele. — Não se preocupe com isso, pode pagar-me um sorvete algum dia — diz ele, sorrindo. Olho para Dante fixamente, enquanto o vento muda, sinto um cheiro diferente vindo dele. Sem poder me conter, inclino-me na sua direção, desejando mais daquele cheiro que entrava nas minhas narinas. Eu não sabia o que era, só sabia que queria mais daquele cheiro. Esqueço-me do lugar e de quem estava ao meu lado. Naquele momento, agia apenas por instinto. Quando o meu nariz toca o pescoço de Dante, ronrono de prazer ao perceber que aquele cheiro gostoso vinha da pele dele. Era uma mistura amadeirada com um toque de baunilha, fazia a minha boca encher de água e me dava vontade de querer mais. O meu nariz desliza pelo seu pescoço, enquanto as minhas mãos seguram com força os seus ombros. Quando o vento muda, soprando no meu rosto, volto a mim. Arregalo os olhos ao ver que estava quase no colo de Dante. Ele tinha as mãos na minha cintura e um sorriso travesso no rosto. Tento soltar-me do seu aperto, mas as suas mãos mantêm-me no lugar. — Cheirou algo que goste? — pergunta ele, com a voz mais grave. — Eu não sei o que deu em mim, me desculpe — digo, morrendo de vergonha. — Está tudo bem — diz ele, soltando-me. — É o seu lobo. Eu não tinha mais coragem para olhar nos olhos dele. Se antes eu tinha me envergonhado, agora não sabia o que pensar sobre o que tinha feito. — Não fique assim, essas coisas acontecem — diz ele suavemente. — Que vergonha — digo, escondendo o rosto nas minhas mãos. — Vamos voltar? — pergunta ele. Eu apenas assinto e o acompanho em silêncio, precisava tentar manter o resto da dignidade que me restava. Quando chegamos à casa da matilha, eu entro correndo, deixando-o na porta. Sem perceber, acabo na porta do quarto de Zara, então bato e espero que ela me mande entrar. Quando entro, vejo os olhos dela se arregalarem ao ver o quanto o meu rosto estava vermelho. — O que houve, Diana? — pergunta, preocupada. Caminho até ela e sento-me na beira da sua cama. — Eu queria que um buraco me engolisse — digo, deixando-me cair de costas na cama dela. — Ainda não estou entendendo nada — diz ela, balançando a cabeça. Como explicar à minha melhor amiga que eu quase havia agarrado Dante no meio da praça porque ele cheirava bem? Parecia papo de gente louca. E talvez eu estivesse ficando louca mesmo, porque, apenas ao lembrar do quanto o cheiro dele era bom, o meu corpo inteiro se arrepiava. E não era um arrepio de medo.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR