Sair daquela casa era o que eu precisava naquele instante. O ar ali dentro parecia me sufocar, mas não era pelo ambiente… era por ela. Eu precisava me afastar, colocar distância, porque eu não sabia como reagir ao que tinha acabado de acontecer. Mas, no meio desse impulso de ir embora, veio aquela cena que queimou minha mente e me fez perder o controle: ela atravessando a rua, com aquele pedaço de pano cobrindo o corpo, sem se importar com nada, como se não tivesse noção do que aquilo despertava. Meu sangue ferveu. Não só pelo jeito que ela veio até mim, mas porque os marmanjos que estavam por perto não tiravam os olhos dela. Aquilo me deixou insano, a raiva subindo no mesmo ritmo que o calor no peito. Não foi o beijo que ela me deu que me deixou assim. Foi a audácia. O atrevimento de vir até mim daquele jeito, na frente de todo mundo, e simplesmente me beijar como se fosse a coisa mais natural do mundo. Foi nesse momento que eu perdi a paciência.
Segurei firme no braço dela e a levei de volta para dentro da casa, sem dar espaço para ela dizer nada. Assim que cruzei a porta, não aguentei mais segurar. Beijei. Beijei com todo o desejo que estava ardendo dentro de mim, sem freio, sem pensar. Por alguns segundos, ela foi minha, presa nos meus braços, tentando encontrar o ritmo no meu beijo. Eu percebi, mas não deixei. Não era sobre delicadeza. Nunca deixei mulher nenhuma — e muito menos p**a alguma — tocar na minha boca, mas com ela… eu quebrei minha própria regra. Quando nos afastamos, fiquei olhando nos olhos dela. Ela parecia meio perdida, mas se encaixou no meu peito, e eu a segurei ali, sentindo a respiração dela desacelerar. Passei calma pra ela, sem dizer muito, até soltar, num tom firme:
— Eu tô aqui pra você. — Senti que aquilo a fez relaxar, mesmo que por um momento. Mas eu não podia me dar ao luxo de ficar. — Tenho que ir. — cortei o silêncio que tinha se instalado entre nós.
— Por favor, fica… — a voz dela foi baixa, mas bateu fundo. Essa baixinha tá mexendo comigo de um jeito que eu não posso permitir.
— Tenho muita coisa pra resolver. — falei, me afastando antes que ela tivesse qualquer outra chance. Saí da casa sem olhar pra trás, mas, antes de sumir pelas ruas, virei o rosto de lado e encarei a porta. Olhei pros meus vapores que estavam mais adiante e deixei o recado claro: — Qualquer filho da p**a que se aproximar… pode meter bala. — minha voz saiu carregada de raiva.
Segui andando rápido pelas ruas, o passo acelerado, sentindo a tensão percorrer meu corpo até começar a me aproximar da boca.
— Gostoso? — a voz de Érica cortou o ar, carregada de provocação e malícia. Uma das putas que eu mais tenho oportunidade de comer… e que, por azar ou sorte, cruzava meu caminho justo agora, enquanto eu seguia rumo à boca.
— O que você quer, p***a? — rosnei, sentindo a raiva subir pelo corpo.
Ela sorriu, aquele sorriso atrevido que parecia feito pra bagunçar a cabeça de qualquer homem.
— Eu sei como você tá tenso… e eu queria você. — As palavras escorreram dos lábios dela como veneno doce, e, c*****o, eu senti o impacto direto no meu autocontrole.
Aquela frase foi como um gatilho. O sangue ferveu, os músculos tensionaram. Eu podia muito bem agarrar aquela vagabunda ali mesmo, prensar contra a parede mais próxima e acabar com a distância entre nós. Mas, ao mesmo tempo, algo em mim gritou para manter o foco. Eu sabia que ceder seria me afundar num buraco que eu mesmo cavei. Por isso, engoli seco e continuei andando, ignorando a risadinha dela que ecoava atrás de mim. Quanto mais me afastava, mais sentia a pulsação latejando nas têmporas. Quando cheguei na boca, não perdi tempo: tirei a chave da moto do bolso, montei, liguei o motor e parti em direção à minha fortaleza.
O vento no rosto ajudava um pouco a limpar os pensamentos. A imagem dela, a loirinha do d***o, queimava na minha mente. Cada detalhe… o jeito que mordeu o canto do lábio, o olhar de desafio. Aquela mulher era tentação pura, um perigo vestido de pele e curvas. Eu sabia que precisava me afastar, deixar o curso das coisas seguir sozinho, sem me meter. Se algo precisasse ser resolvido com ela, eu mandaria meu irmão. Eu, pessoalmente, não podia — e não devia — encarar a Maisie de novo tão cedo. Mas, p***a… só Deus sabia o quanto essa decisão ia me torturar.
Assim que encostei a moto em frente à minha fortaleza, meu irmão apareceu na porta da mansão. Ele estava com um fininho entre os dedos e um sorrisinho de canto, como se já estivesse adivinhando alguma merda.
— O que tá rolando? — perguntou, percebendo que eu não estava no meu estado normal.
— c*****o, Vicente, cala a boca e me erra. — desci da moto e segui direto para dentro. Meus vapores, espalhados ao redor da casa, não disseram uma palavra. Era regra: viram, fingem que não viram.
— Qual foi, irmão? O que deu em você? — ele insistiu, ainda com aquele sorrisinho de quem cutuca onça com vara curta.
Entrei sem olhar para ele.
— Não se mete na p***a da minha vida, já te falei. — Minha voz saiu ríspida, quase um rosnado. Subi as escadas com passos pesados, indo direto para o meu quarto.
Assim que fechei a porta, girei a chave. Precisava de um banho. Não era só sujeira grudada na pele — era peso, era raiva, era coisa que não se lavava fácil. Fui para o banheiro, arranquei a roupa e entrei no box. Girei o registro, deixando a água fria despencar no meu corpo. O impacto fez meus músculos enrijecerem, mas eu queria aquilo. Queria sentir cada gota levando embora os restos da madrugada que ainda grudavam em mim — sangue, suor, e todo o peso que veio junto. Fiquei ali, parado, trinta minutos sem pressa, como se pudesse drenar também os pensamentos que não me davam paz. Quando finalmente fechei o chuveiro, peguei a toalha e comecei a me secar devagar, sentindo cada fibra áspera raspando na pele. Escovei os dentes, me livrei do gosto amargo na boca e fui direto para a cama. Precisava dormir. Nem que fosse só algumas horas, eu precisava desligar.
Uma semana se passou desde aquela guerra sangrenta no morro. A tia da Maisie já voltou para casa. Está bem, continua na padaria como se nada tivesse acontecido. Eu não apareci mais lá. Evito. Qualquer contato com ela é um risco — pra mim e pra ela. Aquela garota mexeu comigo de um jeito que me tira do controle, e controle é tudo no meu mundo. Qualquer coisa que ela precisa, resolve com o Vicente. Eu mantive minha promessa: ainda quero matar aquele verme que diz ser pai dela. Um dia, vou achar esse desgraçado. Um dia, vou acertar cada conta que ele deixou pendurada.
Ouvi dizer que a loirinha arrumou uma amiga. Elas se dão bem, e isso é bom. Pelo menos ela tem alguém para conversar. Mas, mesmo assim, sempre tem algo — ou alguém — que eu coloco para manter os olhos nela. É como se, mesmo me afastando, eu não conseguisse soltar a corda. Meus negócios continuam, as negociações não param. Mas meus pensamentos? Não estão onde deveriam. Estão nela. Maldita loira dos olhos azuis.
— Qual foi, viado? — perguntou o Coringa assim que se aproximou, com aquele jeito debochado de sempre. — Olha o tanto de p**a que tem aqui no baile… e os investidores chegam em alguns minutos. — avisou, como se eu não tivesse reparado.
— c*****o, viado… tô com a cabeça cheia há dias. — falei sério, soltando o ar pesado, e ele só negou com a cabeça, rindo de leve.
— Relaxa, cara. Vai comer uma b****a que tu fica de boa. — disse, rindo mais alto.
— O que eu mais comi essa semana foi b****a, p***a… e nem assim os pensamentos passam. — respondi, seco, e ele caiu na risada como se fosse piada.
— Só curte o momento, irmão. — falou animado, me entregando um fininho. Peguei, acendi e puxei a primeira tragada enquanto virava um gole do whisky que tinha na mão. O amargo queimou na garganta, mas não apagou a raiva que estava aqui dentro.
— Que isso, gostoso… — ouvi a voz da Sam atrás de mim, arrastando as palavras do jeito provocante dela.
— O que você quer? — perguntei, sem paciência, e ela me respondeu com aquele sorriso de p**a que sabe exatamente como se vender.
— Uma rapidinha. — falou sem censura nenhuma, e o Coringa riu alto.
— Tu é muito vagabunda… por isso que eu nunca faço vocês gozar. — falei direto, e ela soltou uma gargalhada.
— O desejo de te dar é mais, você é um gostoso… e isso é ótimo. — rebateu com malícia, e não pude evitar um riso rápido.
— E aí… vamos? — perguntou, olhando nos meus olhos. Dei mais uma tragada no fininho, sentindo a fumaça preencher meus pulmões, e já ia subir com ela pro quartinho, quando a voz do meu irmão cortou meu pensamento.
— Melhor você nem querer ver nada. — disse, e no começo eu nem entendi onde ele queria chegar. Mas aí virei o rosto… e vi.
Alguém acabava de entrar na quadra. Pisquei duas vezes, achando que era algum pesadelo… mas não. Era real.
— Filha da p**a… — sussurrei entre os dentes, e a Sam me olhou, sem entender.
— Você não vai? — a Sam perguntou, mas eu nem respondi. Ela seguiu andando com a amiga pelo meio da galera, e mesmo de longe, percebi que a Maisie estava desconfortável. A amiga puxou ela pra dançar, tentando distrair, mas eu já estava no limite.
— Eu vou matar essa p***a… — rosnei, e o Vicente riu, mas não disse nada.
Foi então que percebi uns caras se aproximando dela. E aí, f**a-se tudo. Desci do camarote como um furacão, abrindo caminho no meio da multidão sem me importar com quem esbarrava. Quando cheguei perto, vi o susto nos olhos dela… mas ela se virou, me ignorando, com a expressão carregada de raiva.
A minha, no entanto, já estava transbordando. Sem pensar, agarrei o braço dela e puxei com força… mas a audácia dela foi maior: quando se soltou do meu aperto.