Episódio 08 — Maisie

1615 Palavras
A minha vida inteira foi uma luta constante. Desde pequena, aprendi da pior forma que o mundo não era um lugar seguro. Vi minha mãe ser assassinada diante dos meus olhos e não pude fazer nada. Eu gritei, chorei, mas ninguém me ouviu. E quando tentei contar, quando tentei buscar algum tipo de ajuda, fui chamada de louca. "É coisa da sua cabeça", diziam. "Você precisa continuar tomando seus remédios." Com o tempo, aprendi a guardar tudo para mim. A dor. O medo. A revolta. Mas naquela noite… naquela maldita noite, quando meu próprio pai tentou me violar, algo dentro de mim quebrou. Eu não podia permitir. Não podia me tornar refém do próprio sangue. Foi o limite. O ponto final. As lágrimas ardiam em meus olhos enquanto eu respirava fundo e empurrava para longe as lembranças que insistiam em me assombrar. Eu precisava seguir em frente. Precisava me agarrar à única coisa boa que me restava. Assim que entrei na cozinha, o cheiro quente da comida caseira me envolveu, trazendo um conforto estranho. A tia Maria estava ali, me esperando com aquele sorriso gentil que, de alguma forma, conseguia acalmar o caos dentro de mim. Sobre a mesa, os pratos já estavam servidos. Ela não disse nada, apenas fez um gesto para que eu me sentasse. Engoli a seco, sentindo o peso dos últimos anos sobre mim. Me aproximei devagar, puxei a cadeira e me sentei. Tia Maria, sem fazer perguntas, apenas me serviu. E naquele instante, percebi que, pela primeira vez em muito tempo, eu não estava completamente sozinha. — Conseguiu descansar? — perguntou tia Maria, a voz carregada de ternura e preocupação. — Consegui sim, tia. — murmurei baixinho, observando enquanto ela terminava de me servir. — Fico feliz que tenha conseguido. E seus pés, como estão? — perguntou, lançando um olhar atento para mim. Suspirei, sentindo ainda o incômodo nas solas castigadas. A dor latejava, mas era algo suportável. — Ainda dói muito… mas vou ficar bem, com fé em Deus. — murmurei, tentando esboçar um sorriso fraco. Ela estendeu a mão e, com um gesto delicado, afastou uma mecha solta do meu cabelo, acariciando minha cabeça de leve. Aquele simples toque fez um nó se formar na minha garganta. — Vamos comer. — disse ela, puxando a cadeira e se sentando à mesa. Ela se serviu e começou a comer, e eu fiz o mesmo, tentando ignorar a pressão que parecia pesar sobre meu peito. O calor da comida caseira se espalhou pelo meu corpo, trazendo um conforto inesperado. Levantei os olhos para tia Maria e, num impulso sincero, deixei as palavras escaparem: — Obrigada… por tudo que a senhora tem feito por mim. Ela largou os talheres e segurou minha mão com firmeza, seus olhos refletindo uma compreensão que me desarmou por completo. — Não precisa agradecer, minha filha. Eu, como mulher, jamais permitiria que você ficasse na rua… e ainda traumatizada do jeito que estava. As palavras dela bateram fundo, e aquele nó na minha garganta se apertou ainda mais. Por tanto tempo eu me acostumei a ser desacreditada, a ser descartada, que ouvir aquilo… sentir aquela proteção sincera… era quase inacreditável. Abaixei a cabeça, apertando os lábios para conter as lágrimas que ameaçavam cair. Eu não queria chorar. Não queria demonstrar fraqueza. Mas, naquele momento, o que eu sentia não era fraqueza. Era um alívio silencioso. Continuamos sentadas, o silêncio pairando entre nós depois daquela conversa tão carregada de sentimentos. Assim que terminamos de comer, percebi que tia Maria parecia exausta. Os traços no rosto dela estavam ainda mais pesados, como se o dia tivesse lhe roubado todas as forças. Eu, por outro lado, havia dormido bastante durante a tarde e, apesar das dores nos pés, me sentia mais disposta. — Tia, deixa que eu arrumo tudo. A senhora já fez muito por mim hoje. Ela me olhou com certa hesitação, franzindo o cenho como se estivesse prestes a negar. Mas, após um breve suspiro, cedeu. — Está bem, minha filha. Mas se sentir dor, pare, viu? Assenti, tentando parecer mais firme do que realmente estava. Ela se retirou para o quarto, e eu comecei a organizar tudo. Mesmo sentindo os pés latejarem, me forcei a ignorar a dor. Minha mente precisava de distração, qualquer coisa que me impedisse de mergulhar nos pensamentos que me assombravam sempre que o silêncio tomava conta. Lavei os pratos, limpei a mesa, varri o chão. Fiz tudo no automático, focando apenas na ação de cada movimento, como se aquilo fosse capaz de manter as lembranças afastadas. Quando terminei, apaguei as luzes e segui para o quarto onde tia Maria havia me acomodado. Deitei-me na cama e fiquei ali, encarando o teto, o coração pesado com a avalanche de sentimentos que insistiam em me atingir quando tudo ficava quieto demais. As horas se arrastavam, e o sono não vinha. Cada vez que fechava os olhos, as memórias voltavam como um filme sombrio que eu não queria assistir. De repente, um som cortou o silêncio da noite. Meu corpo inteiro congelou. Eram tiros. Muitos. O estampido seco ecoou pela casa, e meu peito se apertou em puro pânico. Meu instinto gritou mais alto, e antes que eu pudesse raciocinar, desci da cama e me enfiei embaixo dela, o coração martelando contra as costelas. O barulho dos disparos continuava, intenso, perto… muito perto. Minhas mãos tremiam, e eu sentia o suor frio escorrer pela nuca. A respiração ficou curta, errática, e por um instante eu voltei a ser aquela menina assustada, perdida, sem saber o que fazer para se proteger. Ouvi passos no corredor, e então a voz calma de tia Maria. — Minha filha? Engoli em seco, tentando encontrar minha voz. — Estou aqui. — respondi, ainda debaixo da cama, com a voz embargada. Os tiros ainda soavam do lado de fora, abafados, mas constantes. Ela se aproximou e abaixou um pouco o corpo para me ver. Seus olhos carregavam uma serenidade que me surpreendeu. — Não tenha medo, isso acontece por aqui sempre. É invasão. — disse ela, com um tom que me pareceu até natural demais para uma situação como aquela. — Mas é bom se precaver sempre. Nunca estamos livres de nada. As palavras dela me trouxeram um misto de conforto e realidade c***l. A violência fazia parte daquele lugar. O medo fazia parte da rotina. Mas eu? Eu nunca me acostumaria com isso, ou até poderia acostumar, tudo é apenas temporário. — Meu Deus, tia… — murmurei, sentindo o medo me dominar por completo. Meu corpo ainda tremia, e a respiração saía irregular. O som dos tiros continuava lá fora, cada disparo ecoando dentro de mim como um lembrete c***l de que eu não estava segura. Tia Maria, no entanto, permaneceu calma. Sem hesitar, estendeu a mão para mim. — Vem, minha filha, sai daí. — Sua voz era firme, mas carregava uma ternura que me fez confiar nela. Aos poucos, engatinhando para fora do esconderijo, segurei sua mão e me levantei. Meu coração ainda estava acelerado, e minhas pernas pareciam fracas, mas a presença dela me deu uma sensação de proteção. — Fique tranquila, geralmente acaba logo. — garantiu, como se aquilo fosse algo comum, corriqueiro. Mas eu não conseguia aceitar essa normalidade. Como alguém podia se acostumar com tiros cortando a madrugada? Meu estômago embrulhava só de imaginar. — Tia, me desculpe por ser um fardo para a senhora… — soltei de repente, minha voz embargada. Ela me olhou surpresa e, sem dizer nada, se sentou ao meu lado na cama, puxando minha mão entre as suas. — Você não é um fardo para mim, menina. Tire isso da sua cabeça. — O tom doce e ao mesmo tempo firme fez um nó se formar em minha garganta. Suspirei, sentindo um pequeno alívio em suas palavras, mas ainda assim, algo dentro de mim insistia em me fazer sentir um peso, como se eu estivesse apenas dando trabalho para ela. — Tia, assim que eu melhorar dos pés, eu prometo que farei de tudo para arrumar um emprego e ajudar a senhora. Não quero ser um peso. — falei com sinceridade, encarando-a. Ela sorriu, um sorriso cheio de compreensão. — Não se preocupe com isso agora. Primeiro, cuide da sua saúde. O resto se ajeita. Assenti, mas por dentro sabia que eu precisava encontrar uma forma de retribuir tudo que ela estava fazendo por mim. Não era justo estar na casa dela e não ajudar de alguma maneira. A madrugada seguiu lenta, o som dos tiros continuava esporádico lá fora. Mas, conforme as horas passavam, a intensidade foi diminuindo. Só quando o primeiro raio de sol cortou o horizonte é que o silêncio finalmente se instalou. O alívio foi imediato, como se o peso de uma ameaça invisível tivesse sido retirado do meu peito. Uma semana se passou desde aquela noite tensa. Os dias trouxeram um pouco mais de normalidade, e para minha felicidade, já estava bem melhor dos meus pés. Ainda sentia um leve incômodo ao caminhar, mas nada que me impedisse de me movimentar. O medo ainda pairava sobre mim. Sempre que ouvia um barulho mais alto, meu corpo enrijecia, meu coração disparava, e meu instinto me mandava procurar um lugar seguro. Mas eu estava tentando me acostumar, ou pelo menos, aprender a lidar com essa nova realidade. O que me deu um pouco de esperança foi conseguir um emprego. Com a ajuda da tia Maria, fui contratada como atendente em uma padaria do morro. Era algo simples, mas para mim, significava muito. Era minha chance de me manter ocupada, de recomeçar… de ter algo só meu. E eu agarraria essa oportunidade com todas as forças.
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