Episódio 14 — Maisie

2257 Palavras
Eu estava tão apavorada que nem consegui processar direito o barulho do tiro. Só senti o impacto do corpo caindo perto de mim, o som seco do corpo batendo no chão ecoando nos meus ouvidos junto com a respiração presa na minha garganta. Um tremor tomou conta do meu corpo, como se o medo tivesse se instalado nos meus ossos e não quisesse mais sair. Eu tentava me manter de pé, mas minhas pernas pareciam prestes a ceder. Foi aí que senti os braços dele me envolvendo. Fortes, firmes, quentes... mas ao mesmo tempo tão acolhedores que me fizeram desmoronar por dentro. Me agarrar a ele foi automático. Eu não queria pensar, não queria lembrar do que acabou de acontecer. Eu só queria aquele abraço. E, de algum jeito que me dava raiva de admitir, foi naquele instante que me senti mais segura em dias. A voz dele, mesmo abafada pelos tiros que ainda ecoavam lá fora, me atingiu com força. “Você tá segura agora.” Ouvir aquilo fez uma lágrima escorrer sem que eu percebesse. Me mantive colada a ele por alguns segundos, como se ele fosse minha única âncora naquele inferno. O coração ainda disparado, os olhos ainda marejados, o corpo tremendo... mas o abraço dele me segurava. Então, no meio daquele caos, um nome veio como um soco no estômago: Tia Maria. Arregalei os olhos de imediato e me afastei um pouco dele, desesperada. — A minha tia... — sussurrei, a voz falha, a respiração cortada. — Quando encarei os olhos dele, me perdi. Havia um brilho ali... e eu não sei explicar o que era. Não era arrogância, nem alívio, nem raiva. Era algo mais profundo. Algo que mexeu comigo de um jeito estranho, me arrancando do pânico por alguns instantes. Foi só um segundo. Mas aquele segundo bastou pra me desestabilizar de outro jeito. — A minha tia... — repeti, sentindo o desespero crescer dentro de mim. — Calma, loirinha... Eu vou com você — ele disse, com aquela voz firme que parecia segurar o mundo no lugar. Mesmo sem entender por que ele estava me ajudando daquela forma, eu assenti. Meus olhos ainda estavam marejados, minha cabeça confusa, mas o aperto da mão dele na minha me deu forças pra sair dali. Fomos caminhando juntos, em silêncio, enquanto o som dos tiros ecoava mais distante, como um lembrete c***l de que nada estava resolvido ainda. As ruas estavam vazias, só o cheiro de pólvora e medo no ar. O chão coberto de sujeira, estilhaços e rastros de pânico. Ainda assim, eu sentia a mão dele quente e firme segurando a minha, me puxando com cuidado, como se tivesse medo de eu desabar no caminho. — Se tu cansar, fala — ele murmurou, me olhando rápido de lado. — Eu tô bem... Só... preciso ver ela — respondi, tentando controlar a respiração. Minhas pernas ainda estavam fracas, mas o Pantera me deu apoio com firmeza, sem me soltar por nenhum segundo. A cada passo que dávamos em direção ao barraco, meu coração pulsava mais alto. A lembrança da tia Maria caída, machucada, me deixava completamente abalada por dentro. Eu tinha visto tudo… o desgraçado do X9 não pensou duas vezes antes de bater nela para me levar. E só de lembrar do som do corpo dela caindo no chão, da forma como ela tentou me proteger, meu peito doía. Ele podia ter me levado de qualquer jeito… mas ele preferiu machucar quem mais me ajudou desde que eu pisei nesse lugar. Aquilo me corroía por dentro. — Anda, loirinha… falta pouco — ele murmurou baixo, segurando firme minha cintura. — Fica comigo aqui, tá? Assenti, com dificuldade. A sensação de estar perto dele, de saber que ele me tirou de lá, me trazia uma estranha segurança, mesmo em meio ao caos dos tiros que ainda ecoavam em algum ponto do morro. Chegando em casa, encontrei a tia Maria sentada no canto do colchão, com a mão no rosto. Ela ainda sangrava. Tinha uma expressão forte, mesmo com toda a dor que devia estar sentindo. Me aproximei rápido, largando o Pantera e me jogando aos pés dela. — Tia… — minha voz saiu trêmula, desesperada. — Me perdoa… me perdoa, por favor… — Você não tem culpa de nada, menina — ela falou com dificuldade, mas firme. — O importante é que você tá viva. — A senhora também… — eu chorava baixinho. — Ele podia ter feito pior com a senhora… — Eu tô aqui. Isso é o que importa agora. Pantera se abaixou do nosso lado, analisando os ferimentos dela com um olhar sério. — A gente vai levar a senhora pro postinho, tá? — disse direto, com aquela voz grave que fazia qualquer um calar. — Isso aqui precisa ser cuidado agora. Ele a ajudou a se levantar, mesmo com a resistência dela. Eu fui do lado oposto, segurando sua outra mão. O caminho até o postinho parecia eterno, mas conseguimos chegar. O Pantera falava pouco, mas resolvia tudo com dois ou três olhares e ordens. Foi ele quem garantiu que alguém da saúde do morro atendesse a tia Maria assim que entramos, mesmo em meio ao caos da guerra lá fora. — Fica aqui com ela — ele se virou pra mim, já parecendo inquieto. — Ainda tem coisa rolando no morro, preciso voltar. Meu coração apertou ao ouvir aquilo. Eu sabia. Sabia que ele era o dono de tudo aquilo, que enquanto a gente estava ali, as coisas não tinham parado. Era só uma pausa… o inferno ainda tava em curso. — Vai ficar tudo bem, Pantera? — perguntei, mesmo sem saber se era certo chamá-lo assim. Ele me olhou com um meio sorriso, rápido e quase imperceptível, mas que me fez sentir mais calma. — Enquanto eu estiver em pé… ninguém vai tocar mais em você. Fica tranquila. E então ele se afastou. Aquele homem que eu ainda conhecia tão pouco… mas que, por algum motivo, já significava tanto. Eu fiquei ali, parada na porta do postinho da comunidade, assistindo ele se afastar com aquela postura firme, dono do mundo, como se nada o atingisse. Mas eu sabia... sabia que por trás daquele olhar duro tinha mais coisa. Ele tinha voltado pra me buscar, tinha me tirado das mãos de um monstro. E mesmo que ainda houvesse um abismo entre nós, algo dentro de mim gritava que eu podia confiar. — Maisie… — ouvi a voz da enfermeira chamando. — Pode entrar, já estamos cuidando da sua tia. Me virei, limpando as lágrimas com a mão suja de poeira. Caminhei até a maca onde a tia Maria estava deitada. A testa dela tinha um corte feio, o lábio estava rachado, e o olho começava a inchar, roxo. Meu peito apertava cada vez mais. — Ela vai ficar bem? — perguntei baixinho. A enfermeira assentiu. — Tá estável. Por pouco não foi pior. Ela tem sorte de ser forte… e de ter quem lute por ela. Assenti em silêncio. Me sentei ao lado da maca, segurando a mão dela com força, e mesmo que ela tivesse os olhos fechados, eu precisava falar. — Eu vi tudo… eu vi o que aquele desgraçado fez com a senhora. E juro… juro que ninguém vai fazer nada com a senhora. Eu nunca mais vou deixar ninguém encostar na senhora. Nunca mais. A mão dela apertou a minha, fraca, mas presente. Era a resposta que eu precisava. Me mantive ali por mais de uma hora, em silêncio, escutando os barulhos do lado de fora. A troca de tiros parecia ter diminuído, mas a tensão ainda cortava o ar como navalha. Ninguém dizia nada, mas todo mundo estava em alerta. Era o morro… a guerra não tinha hora pra acabar. Minha cabeça doía, não só pelas pancadas, mas por tudo. O medo. A culpa. A raiva. O Pantera. Ele parecia uma sombra poderosa entre o caos, alguém que surgia e mudava o rumo de tudo. E mesmo sem saber por quê, eu me sentia segura perto dele. Talvez fosse o jeito que ele me olhava… ou o fato de ter enfrentado o inferno pra me tirar de lá. Suspirei fundo, deitei a cabeça na beirada da maca e fechei os olhos por alguns minutos. Eu só queria um pouco de paz. Um pouco de silêncio por dentro. Mas a imagem do Pantera voltando pra guerra não saía da minha cabeça. Quando menos esperei, um dos vapores dele entrou no posto. O olhar era direto e firme, sem rodeios. — Aí loirinha? — perguntou. Levantei o olhar, assustada. — Sou eu. — O chefão mandou avisar que tá tudo sob controle. A Pedreira correu. Ele vai passar aqui mais tarde. Assenti com um nó na garganta. A guerra podia ter dado uma trégua… mas dentro de mim, o caos estava só começando. A noite chegou como um manto pesado, cobrindo o morro com um silêncio estranho, tenso demais pra ser natural. Do lado de fora, só se ouvia o ronco distante de motos e alguns gritos abafados que vinham da parte mais baixa da comunidade. O cheiro de pólvora ainda impregnava o ar, misturado com o suor de quem sobreviveu. A tia Maria dormia, respirando com dificuldade, mas estável. A enfermeira havia me oferecido um colchão fino no canto da sala, mas meu corpo se recusava a deitar. Eu não conseguiria relaxar enquanto não soubesse que ele estava bem. Que o Pantera tinha voltado inteiro. E quando ouvi passos firmes no corredor, minha respiração travou por um segundo. A porta se abriu devagar. Era ele. Suado, com o rosto sujo de sangue — não dele, eu percebi — e a camisa preta manchada de terra e fúria. Mas os olhos… os olhos procuraram por mim assim que cruzou a porta. E quando me encontrou, aquele olhar duro amoleceu um pouco. — Como ela tá? — perguntou num tom baixo, vindo até mim. Me levantei devagar. — Dormindo. Estável… — engoli em seco. — Graças a você. Ele balançou a cabeça, como se não quisesse ouvir aquilo. Mas era verdade. — Você também tá inteira… isso já basta. — disse, parando perto de mim. O calor dele, mesmo sujo de guerra, me invadiu. — Você voltou. — soltei, quase num sussurro. Não era uma pergunta. Ele me encarou por alguns segundos, depois passou a mão pelo rosto e soltou um suspiro pesado. — A guerra não acabou. Só recuaram. Eu preciso voltar pro alto do morro. Ainda tem gente nossa lá. Mas antes de ir, queria te ver. Aquela frase mexeu comigo de um jeito que eu não esperava. Eu estava tremendo por dentro, cheia de medo, mas bastava ele me olhar assim pra eu me sentir em pé. — Eu vou ficar com ela. Pode ir, Pantera. — falei baixo, tentando parecer forte. Mas ele negou com a cabeça. — Você não vai ficar aqui. O posto vai fechar agora. Estão tirando os feridos mais graves, e o resto vai pra casa. Já mandei um dos meus preparar tua casa. Tu vai comigo. Eu te deixo lá. — E a tia? — Ela vai ser levada por uma ambulância pra UPA da Penha. Já avisei. Quando for seguro, trago ela de volta. — Mas eu não… — Maisie… — me interrompeu, com a voz rouca, firme. — Eu não tô pedindo. É pra tua segurança. Por um segundo, pensei em retrucar. Mas cedi. Talvez fosse o olhar dele, ou a forma como ele segurou meu braço com cuidado, me guiando pelo corredor escuro do posto. Lá fora, um carro esperava. Dois vapores armados estavam na frente. Ele abriu a porta de trás pra mim e me ajudou a entrar. No caminho até minha casa, ficamos em silêncio. Mas o silêncio dele não era vazio — era denso, cheio de pensamentos que ele não compartilhava. E o meu… o meu era cheio dele. Assim que chegamos, ele mesmo desceu, abriu o portão e me guiou até dentro. A casa estava do jeito que eu deixei… mas parecia diferente. Mais escura, mais fria… mais solitária. Talvez porque agora eu soubesse o quanto tudo poderia mudar em questão de minutos. — Tem comida na geladeira. Limparam tudo. A tia Neide que ficou responsável. — disse ele, soltando as chaves no balcão. — Vai tomar um banho, descansar. Tu precisa disso. Assenti devagar, ainda sentindo meu corpo pesado. — E você? — Eu vou voltar pro pico do morro. Ainda tem muito pra resolver. Fiquei parada, olhando ele ali, com aquele rosto marcado pela noite, pelos tiros, pelo peso de carregar um território inteiro nas costas. — Você vai voltar mesmo? — perguntei, sem conseguir esconder o medo. Ele veio até mim, parou a poucos centímetros e ergueu o queixo, me fazendo olhar direto nos olhos dele. — Vou. Porque se eu não for, meu povo morre. Mas eu volto… volto quando puder. E antes que eu dissesse qualquer coisa, ele levou a mão até meu rosto, afastando um fio de cabelo, o toque firme, mas suave. Depois se afastou, indo até a porta. — Tranca tudo. E não abre pra ninguém que não seja meu. — disse, antes de sair. Fiquei ali, parada no meio da sala, com o coração batendo tão forte que parecia ecoar pelos cômodos. Ele tinha voltado por mim… e agora estava indo de novo. Mas algo dentro de mim sabia: ele voltaria. Porque alguma coisa entre nós dois já tinha começado — mesmo que o mundo lá fora estivesse em ruínas.
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