Amanda tinha dezesseis anos e era homofóbica. Naquele fatídico dia, a garota sentia raiva de seu professor de português, o senhor Rodolfo, que lhe mandara defender o casamento de pessoas do mesmo s**o perante toda a turma num debate em sala de aula. O pior de tudo era que a sua antagonista, Sarah, era uma garota que “gostava de meninas” e por ela estava “tudo bem” fazer o papel inverso desta vez: agir como se fosse contra o casamento de homossexuais depois do discurso do professor:
— Quero que vocês tenham em mente o seguinte: não somos donos da verdade! Aquilo que você acredita não é um dogma, ou seja, uma verdade incontestável que deve ser seguida por todos. Devo ter empatia, que é entender o sentimento alheio e me colocar no lugar do próximo. Porque Fulano pensa assim? Porque Sicrano age de determinada maneira? É isso que desejo de vocês neste debate. Nesse momento, esqueçam suas convicções interiores e pessoais. Vocês devem agir como verdadeiros advogados do d***o!
Aquelas palavras podiam ser muito belas para alguns, entretanto não convenciam Amanda. A garota era egocêntrica e o que interessava era o que ela achava. Os outros estavam errados.
No debate, sua colega iniciou dizendo coisas da bíblia, tipo que como o homem surgiu para ficar do lado da mulher, criada da costela dele para ser sua companheira, seu par. Não foi feita dos pés para se tornar inferior e nem foi feita da cabeça para ser superior. Homem e mulher para então procriarem e conquistarem o mundo! Amanda contra-argumentou dizendo que o amor de qualquer forma deve ser válido. No entanto, a falta de paciência da garota para tentar convencer fez com que a mesma se enrolasse toda com o lance da procriação das espécies, concordando com sua concorrente e por fim perdendo o debate. Pietra, a melhor amiga de Amanda, deu risadas da companheira se dando m*l. O olhar faiscante da garota voou a sala até sua amiga, enquanto pensava que aqueles argumentos de sua opositora já tinham sido ditos inúmeras vezes por sua mãe em suas conversas domésticas. Neste momento, Amanda gostaria de ter prestado um pouco mais de atenção ao que sua mãe dizia, entretanto achava aquilo tudo uma balela. Tolices contadas na igreja nos finais de semana para esvaziarem os bolsos de pessoas com pensamento fraco:
— Ah! Eu não defendo esta ideia de jeito nenhum. O que importa é o que eu acho. Não vou mudar de opinião...
Os demais colegas também deram risadas de Amanda perdendo completamente a linha, com exceção de Sarah, sua concorrente, que deu apenas um leve sorriso sem graça de canto de lábios. O sinal tocou e todos os alunos saíram desesperados enquanto o professor dizia alguns comentários inaudíveis em decorrência da algazarra do término daquela última aula de uma sexta-feira ensolarada.
A garota vivia apenas com sua mãe, Simone, na cidade de Campinas. Simone sempre dizia que o pai havia abandonado as duas e que morrera algum tempo depois em decorrência de algum vício ou doença que possuía. Amanda não se lembrava muito bem da história.
Todos os dias, religiosamente, a garota chegava em casa com a mesma cara amarrada de sempre, deitava-se no sofá e sacava o celular numa incrível velocidade típica de um pistoleiro de faroeste. Hoje não foi diferente e a mãe surgiu, como de costume também, pela porta da cozinha com a gritaria:
— Você não deveria ter limpado o seu quarto ontem? “Tá” fazendo o que aqui? Pode fazer o favor de subir e dar um jeito naquela bagunça agora!!!
— Ah mãe! Larga a mão de ser chata! Vai arrumar um namorado pra cuidar da vida dele e larga do meu pé!
A discussão é interrompida com uma parada súbita da mãe. Ela desmaia e cai estatelada ao solo. A garota entra em desespero, sem saber o que aconteceu e muito menos o que fazer. Sai até a rua à procura do primeiro estranho gritando entre soluços e choros por ajuda...
*
Dez horas na recepção de um hospital. Amada não aguentava mais a espera desde que sua mãe fora internada, sem saber qualquer notícia. A garota, não resistindo mais, entrou de fininho pela ala dos pacientes, quando ninguém estava prestando atenção. Após caminhar por alguns instantes, aquele cheiro típico de hospitais ao qual a garota achara que já havia se acostumado tornou-se mais forte em suas narinas e lhe fez lembrar que ela simplesmente odiava hospitais. Ela continuou até se deparar com uma porta que não podia ser aberta por qualquer um, com uma espécie de tranca com sensor para prevenir a entrada de pessoas indesejadas naquele local. De repente, uma enfermeira surgiu apressada da porta contrária à que a garota havia vindo e passou um crachá que estava no seu bolso no mecanismo daquela porta que impedia a passagem de Amanda. A enfermeira entrou rapidamente e deixou a porta escancarada para fechar sozinha por um sistema automático. A garota aproveitou a oportunidade e se esgueirou até o novo corredor, este repleto de novos quartos e uma escada. O aviso da ala para os pacientes terminais – a UTI –, estava destacado. Ela não quis pensar nesta hipótese, porém seus instintos mandaram seguir por aquele caminho... E ela estava certa, apesar de neste único momento na vida ter desejado estar errada. Amanda flagrou sua mãe, bem abatida, conversando com o médico no instante que ele se pronunciava:
— ... a senhora está morrendo de câncer no ovário...
— NÃO!!! Mãeeee! – interrompeu a garota entrando bruscamente na sala.
O médico olhou aquela situação e apenas concluiu:
— Bem, vocês tem muito o que conversar. Deixarei vocês a sós. Caso precisem de mim, dona Simone, peça para a enfermeira me chamar.
Nos próximos meses, mãe e filha ficaram juntas e tornaram-se uma, como se nada pudesse separá-las. A mãe partiu deste mundo numa fria tarde de outono, repleta de ventanias que pareciam que não acabariam mais. As últimas palavras da mãe, que ficaram marcadas na garota, foram sobre a revelação de que o pai ainda estava vivo:
— Procure seu pai. O nome dele é Alan e ele mora em São Paulo. Ele nunca te abandonou, eu que expulsei ele de casa por ter me traído.
Amanda ficou alguns dias com amigos da mãe para se recompor, contudo, a garota queria ir freneticamente em busca do pai. Na aula de informática, junto com sua amiga Pietra, entraram em todas as redes sociais possíveis para tentar encontrar parentes e conhecidos, porém nada acharam. A menina se lembrou que possui a senha da mãe de uma rede social mais acessível. Ela entrou e após um longo tempo de busca e alguns berros do professor mais tarde para sair daquele tipo de site, ela encontrou um tio muito distante que poderia saber o paradeiro de seu velho. A garota apenas teve tempo de enviar uma rápida mensagem antes que o professor colocasse a mesma para fora da sala por desobediência.
Alguns dias mais tarde, Amanda recebeu a resposta por um aplicativo em seu celular. Seu tio conhecia seu pai e tinha contato com alguns parentes. Ele não gostava de internet, mas o tio passou o endereço físico e incentivou que a garota fosse atrás dele.
Amanda e sua amiga Pietra pegaram o ônibus das dezoito horas e foram para São Paulo. Ao chegar na capital do Estado paulistano, se direcionaram para o local designado pelo endereço, graças ao programa de mapas de seu celular. Era um edifício bonito e o porteiro não permitiu a entrada das garotas. Pietra, apesar de seus dezessete anos, aparentava ser uma mulher já bem formada, que fazia inveja em muitas mais velhas que ela. A linda garota iniciou uma conversa mais sugestiva com o porteiro, despertando o interesse daquele senhor. Amanda aproveitou o descuido do homem para subir quando um casal acabara de chegar alguns minutos depois. A menina foi até o décimo segundo andar, tocou a campainha e seu coração foi a milhão. A porta finalmente se abriu. Um homem bonito, alto, cabelos escuros e aquele ar de ator norte-americano fez a garota estremecer e dizer gaguejando, torcendo para que ele não fosse seu pai:
— O-o se-senhor é o se-senhor A-alan?
— Não minha jovem. Alan está no banho, eu sou Luciano. O que desejas? – respondeu com uma voz grave que fez a garota tremer ainda mais. Todavia, Amanda se reergueu, deixou o rosto transparecer o rubor de suas bochechas e indagou:
— Sou a filha dele! E quem é você?
Antes que o homem pudesse responder, um outro senhor de cabelos levemente grisalhos, corpo até que atlético para sua idade, apenas de toalha, porém obviamente mais velho que o primeiro, aproximou-se e disse:
— Filha? Amanda? Entre! Este é um amigo do papai!
A garota já soube a verdade a partir daí. Do que se tratava a traição e todo o ódio que a mãe havia alimentado por todos esses anos dele. A garota correu para longe dali e foi ter com Pietra no local combinado, um barzinho da esquina. As duas resolveram embebedar-se, remédio para tudo desde então. A menina estava ensandecida de raiva pelo pai. Maldito seja ele. Trocar sua linda mãe por um outro homem? Não conseguia acreditar no que seus olhos viram. Seu pai era um homossexual!
Elas beberam a noite toda e quase fizeram coisas das quais elas poderiam se arrepender quando a sobriedade viesse a surgir. No dia seguinte, o pai a encontrou com certa dificuldade e tentou se explicar:
— Não vou mentir para você. Luciano é meu companheiro desde que me separei de sua mãe. Entretanto nunca abandonei vocês. Sempre enviei dinheiro para ela e olhava pelas redes sociais de meu companheiro as suas fotos. Fui um cara inseguro por muito tempo. Infeliz com o casamento e deixando sua mãe infeliz também. Talvez eu tenha agido de forma errada, mas eu toquei minha vida. Sua mãe deveria ter feito o mesmo com a vida dela também. Sinto muito pelo destino trágico que ela teve. O que importa agora é que ela te deu uma segunda chance. Ela está dando para gente uma segunda chance, aonde quer que ela estiver. No fim ela me disse que você viria. Venha morar comigo e conheça a vida pelos meus olhos. Prometo que não vai se arrepender.
A garota segurou a mão do pai firmemente, fitou seus olhos e respondeu:
— NÃO!
Nenhuma outra palavra foi dita. O pai ficou sem reação enquanto Amanda soltava sua mão. Ela atravessou a rua movimentada de carros, deu as mãos para Pietra e foram em direção ao horizonte. O mundo seria pouco para elas, em sua plena liberdade, se não fosse por uma fatalidade que interrompeu ali toda a sua história. Um carro desgovernado atingiu as duas meninas em cheio, momento este que Eduardo acordou repentinamente daquele sonho louco...