Vou em direção ao local onde a equipe estava, cumprimentando todos que passavam ao meu lado com um sorriso gentil, as pessoas aqui eram bem receptivas.
Eu ainda estava um pouco assustada, por conta do ocorrido com os repórteres na entrada do circuito e antes de ir encontrar os engenheiros, eu precisei dar uma parada no banheiro e jogar uma água gelada contra o meu rosto, gastei alguns minutos por lá, por ter que esperar as minhas mãos pararem de tremer.
Eu não sei se conseguiria colocar em palavras o quanto eu me sinto sufocada no meio daqueles homens, não consigo colocar em palavras o medo que eu senti por estar cercada apenas do s**o masculino, para todos os lados em que eu olhava. A situação ali não era apenas sobre só ter homens ao meu redor, porque convenhamos, com a profissão que eu escolhi seguir, isso é meio que o meu cotidiano, é a minha rotina. A questão era sobre estar fechada no meio deles, um lado meu estava apavorado com a ideia de algo acontecer comigo ali, e se todos eles inventassem de me assediar? E se eles passassem a mão no meu corpo? Eu nem conseguiria saber quem foi. E esse foi o meu maior receio, estando no meio de todas aquelas pessoas.
Nenhuma mulher nesse universo se sentiria confortável em uma situação como aquela, é impossível!
Eu ainda estava sentindo o meu corpo inteiro tenso, mas me obriguei a ir até o restante da equipe, já que isso era o meu trabalho e eu não poderia deixá-lo de lado por conta de uns repórteres inconvenientes.
Assim que chego no local, vejo os engenheiros próximos aos carros, conversando entre eles. Lauren está sentada em uma cadeira, olhando atentamente para o seu celular e o Tristán está apoiado em uma das paredes, encarando a pista com o olhar distante. Não vejo nenhum sinal do Tony por aqui, o que indica que ele deve estar dando uma voltinha por ai.
- Sophie! – Lauren fala eufórica, assim que me vê, levantando do seu lugar e caminhando até mim em passos rápidos. – Eu soube o que aconteceu na entrada do circuito, sinto muito! – ela me encara com compreensão e eu solto a respiração.
- Está tudo bem. – abro um sorriso sem mostrar os dentes.
A verdade é que eu não queria fazer muito alarde com esse ocorrido, já que se eu desse muita atenção para isso, toda a sensação r**m que eu senti estando naquela situação, viria contra mim com força.
O melhor era distrair a minha mente com outros assuntos e me esquecer daquilo, já que foi apenas uma situação r**m e daqui a pouco eu nem me lembrarei mais dela.
Tudo o que a gente dá atenção, ganha mais força. Se você age como se aquela coisa não te magoasse, automaticamente aquilo vai deixar de te magoar.
É bem simples e prático.
- Vou pedir para o Thomas melhorar a segurança lá na frente, para esse tipo de situação não se repetir. – ela me garante e eu concordo com a cabeça.
É, seria muito bom que na próxima vez, os seguranças estivessem ali para intervir. Na hora eu nem tive tempo de ficar irritada com eles, mas eu entendo a razão do Tristán ter puxado a orelha de um, já que se ele estivesse atento, eu sequer teria sido barrada daquela maneira. Os seguranças estão aqui para proteger a gente desse tipo de situação, para impedir que as coisas percam o controle daquela maneira e fiquem caóticas. Eu tive sorte do Tristán e o Tony aparecerem naquele momento, mas e se eles não tivessem aparecido? E se por algum descuido, eu tivesse sido machucada naquele furdunço? Poderia gerar um problema gigantesco, não apenas para mim, mas para toda equipe que está contando comigo na próxima temporada. Um piloto é um atleta e se o nosso corpo não estiver cem por cento, a nossa pilotagem não será boa.
As pessoas acham que só porque estamos sentados o tempo todo, esse esporte não exige esforço, mas só quem vive isso sabe do esforço físico e mental que é exigido, assim como todo o esporte. E nós precisamos estar cem por cento bem.
- Agradeço por isso.
Ela abre espaço para mim.
- Agora eu vou deixar você conhecer a máquina que vai dirigir. Ficarei ali no canto. – aponta para o mesmo lugar onde ela estava anteriormente.
- Tudo bem.
Assim que ela se afasta, eu começo a me aproximar de onde os engenheiros estavam, já sentindo as minhas mãos começarem a suar, por ter que puxar assunto com pessoas que visivelmente não foram com a minha cara.
Paro próxima a eles, vendo que um já mantinha os olhos fixos em mim, e analisando rapidamente, ele era o mais novo ali.
- Oi. – falei baixo, assim que parei próxima a eles.
O engenheiro que já estava me olhando, abriu um pequeno sorriso e ajeitou a sua coluna, esticando a mão suja de graxa para mim. A sujeira deve ter vindo do motor do carro, já que eles estavam mexendo em algo ali.
- Oi, Sophie. Meu nome é Edward.
Abro um pequeno sorriso e agarro a mão dele, dando um aperto sem pestanejar. Percebo que ele fica levemente surpreso com o meu comportamento, só não entendo o porquê disso.
- Prazer em te conhecer, Edward. – falo sincera e ele assente, soltando a minha mão.
Percebo que os seus olhos se desviam para os outros dois engenheiros presentes, esperando que eles me cumprimentassem.
- Você já falou com o mecânico chefe sobre esse problema? Porque temos que resolver isso. – o mais velho reclama para o outro.
- Não, mas pretendo falar. – o outro responde.
Ao me dar conta de que eles não estavam muito animados e muito menos dispostos a falar comigo, eu me aproximei de modo sutil e inclinei o meu corpo levemente para frente, tentando enxergar o que eles tanto olhavam no carro.
Notei muito rapidamente que estava tendo um pequeno vazamento de óleo, coisa bem boba.
- Vazamento, huh? Ainda bem que é um problema muito simples de resolver, provavelmente é só um parafuso m*l apertado. Um motor novo desse não teria um problema mais grave. – falo tranquilamente, ainda com os olhos fixos no motor, encantada com o que estou vendo. – Não vejo a hora de ouvir o ronco desse motor. – comento sorridente e só então encaro as pessoas ao meu redor, percebendo que todos estavam olhando fixamente para mim, principalmente os dois engenheiros que me ignoraram.
- Você entende como um carro funciona internamente? – um deles questiona e eu ajeito a minha postura na mesma hora, engolindo em seco.
Eu sabia que tinham muitos engenheiros que não gostavam muito dos pilotos dando pitaco nessa parte mais técnica, já que essa não era a nossa área. E nesse momento, me xingo de todos os nomes existentes, ao me dar conta que eu falei demais, deveria ter ficado quietinha.
Solto uma risada sem graça.
- Entendo somente o básico, mas não precisa levar a minha opinião em consideração, com certeza vocês devem saber muito mais do que eu. – falo rapidamente, sentindo o olhar sério dos dois sobre mim.
O mais velho concorda com a cabeça e encara o outro.
- Traga uma chave para mim. – pede e o outro se afasta na mesma hora, indo atrás de uma chave.
A atenção de todos está sobre mim e nesse engenheiro, esperando pelo o que virá a seguir.
Só espero que ele não tente me humilhar aqui, porque se caso isso acontecer, eu terei que bater de frente com ele e o nosso ambiente de trabalho não vai ser mais tão amigável.
O outro volta com a chave e o entrega, ele se inclina sobre o carro e começa a buscar pelos parafusos, começando a apertar. Estico a minha cabeça para ver o que está rolando e me sinto aliviada na mesma hora, ao ver ele apertando um parafuso, fazendo com que o pequeno vazamento cessasse na mesma hora.
Pelo menos eu não estava errada em minha sugestão, isso já era um grande alívio.
Ele ajeita a postura e solta um longo suspiro, antes de me encarar seriamente. Nada em sua feição me indicava o que viria a seguir, eu estava totalmente a mercê da sua próxima ação.
Ele passa a chave para a mão esquerda e estica a direita em minha direção.
- Meu nome é André, é um prazer conhecer você, Sophie. – fala de modo educado e eu sinto um peso saindo das minhas costas na mesma hora. Um sorriso de alívio abre em meu rosto e eu agarro a mão dele na mesma hora.
- É um prazer conhecer você, André!
Ele abre um pequeno sorriso e solta a minha mão.
- Me desculpe pela maneira que eu agi, fiz alguns pré-julgamentos ao seu respeito, mas agora que eu vi a maneira como você buscou entender as máquinas, vejo que isso não é apenas um hobby para você, é uma paixão.
E se fosse só uma paixão? Ele continuaria ignorando a minha existência? Acho isso um pouco problemático, já que todos nós somos movidos por paixão e saber mais da teoria, não necessariamente vai te tornar mais merecedor do que os outros. Nem todo piloto está interessado em saber exatamente como um carro funciona, as vezes só o básico importa e isso não vai faze-lo ser menos capacitado do que quem sabe.
- Fico feliz que tenha mudado os seus pensamentos ao meu respeito. - falo educada.
Ele dá um t**a leve nas costas do outro engenheiro.
- Esse é o Devon.
O Devon abre um pequeno sorriso e estica a mão para mim, a pego na mesma hora.
- Prazer, Devon.
- Então me conte, como você sabia sobre o defeito do carro? – o André pergunta e todos eles me encaram com atenção, esperando pela minha resposta.
- Eu tenho um tio que é mecânico. Quando eu contei aos meus pais que tinha o sonho de me tornar uma pilota, eles não aprovaram muito e quiseram acreditar que era só uma vontade passageira, mas com o passar do tempo, eles foram vendo que era um sonho real e que eu não tinha vontade de abrir mão dele. Com essa conclusão, o meu pai propôs uma coisa, ainda na tentativa de me fazer desistir dessa ideia, ele propôs que eu passasse um mês trabalhando na oficina do meu tio e se depois desse mês, eu ainda quisesse ser uma pilota, nem ele e nem a minha mãe seriam um empecilho. Eles só não imaginavam que eu iria sair de lá ainda mais apaixonada por carros, meu tio me ensinou muito sobre como funciona um carro por dentro, me fez consertar vários deles.
- Que bacana, Sophie! O bom disso é que nós poderemos ter conversas muito abertas sobre o carro com você, além de ouvir as suas sugestões de melhorias. – Edward fala todo animado e fico feliz ao ver os outros dois concordando.
- Estamos abertos a todas as suas sugestões de melhorias. – André diz e eu assinto.
- Fico feliz por saber que vocês estão abertos a isso, na minha antiga equipe eu sempre tinha esse tipo de conversa com os engenheiros. – falo sorridente.
- Bem vinda a equipe, estamos animados para trabalhar com você! – Devon diz simpático e eu sinto o meu coração ficando quentinho. Era muito bom ser bem recebida em um ambiente, ainda mais quando se trata de trabalho.
Ouço uma bufada próxima da gente e não tenho surpresa alguma ao me virar e ver que era o Tristán.
- Será que nós podemos falar sobre os carros agora? – pergunta com um certo tédio, mantendo os seus braços cruzados.
Uma pena eu ser obrigada a ter ele na equipe, já que se ele não estivesse aqui, o clima ficaria cem por cento mais agradável.
Mas não dá para ganhar em todas e ter o ambiente perfeito, não é? Então terei que me contentar com a presença desse mala sem alça.