Capítulo 1 - Primeiro Impacto

1030 Palavras
O relógio marcava 07:12 quando Júlia Andrade entrou no prédio. Ela sempre chegava cedo. Não por obrigação. Por estratégia. O saguão ainda estava vazio, silencioso, limpo demais — como se o dia ainda não tivesse começado de verdade. Era ali que ela respirava melhor. Antes das vozes. Antes das cobranças. Antes das expectativas. Saltos firmes no mármore. Postura reta. Olhar atento. Júlia não passava despercebida… mas também não chamava atenção de propósito. Era o tipo de presença que se construía com o tempo. Ela passou o crachá, ignorando o segurança que apenas acenou com a cabeça. Já a conhecia. Todos ali começavam a conhecer. A garota que não atrasava. A garota que resolvia tudo. A garota que ninguém sabia exatamente até onde podia chegar. O elevador subiu em silêncio. 27º andar. O andar da diretoria. Ela não deveria estar ali. Ainda não. Mas estava. Porque alguém precisava organizar o caos — e Júlia era boa nisso. Muito boa. A sala ainda estava vazia quando ela entrou. Luz fria. Mesa impecável. Computadores desligados. Perfeito. Ela largou a bolsa, abriu a agenda digital e começou. E-mails. Reuniões. Ajustes de horários. Relatórios. Tudo no lugar. Sempre no lugar. Porque, se algo saísse do controle… ela sentiria. E não gostava disso. — Você chegou cedo de novo. Júlia não levantou o olhar. — Alguém precisa. — Ou você gosta disso. Agora ela olhou. Marina. Sorriso fácil. Café na mão. Sempre atrasada. — Eu gosto de não me atrasar — respondeu Júlia, seca, mas sem ser rude. Marina riu. — Você vai subir ainda mais rápido assim. Júlia não respondeu. Porque não era “se”. Era “quando”. O movimento começou a crescer por volta das oito. Passos mais rápidos. Vozes mais altas. Celulares tocando. O prédio acordava. E com ele… a pressão. — Júlia! Ela virou imediatamente. Carlos, gerente, expressão tensa. — O Pedro chegou mais cedo hoje. Um segundo. Só um. Mas foi o suficiente. Pedro Villaça. O nome não era novidade. Era… presença. Mesmo quando ele não estava. — E? — Júlia perguntou, calma. — E ele quer os relatórios do financeiro. Agora. — Já estão prontos. Carlos piscou, surpreso. — Claro que estão. Ela já estava andando. O corredor parecia mais longo naquele momento. Ou talvez fosse só a sensação. Porque, pela primeira vez… ela iria direto até ele. Sem intermediários. Sem filtros. Direto. A porta era de vidro escuro. Discreta. Mas imponente. Ela bateu uma vez. Sem hesitar. — Entra. A voz veio firme. Baixa. Controlada. Júlia abriu. O ar mudou. Foi a primeira coisa que ela percebeu. Não era o ambiente. Era ele. Pedro Villaça estava de costas, olhando pela janela. Terno escuro. Postura impecável. Mãos no bolso. Sem pressa. Ele não se virou imediatamente. Como se soubesse que ela estava ali… e escolhesse não reagir ainda. — Os relatórios, senhor — ela disse, profissional. Silêncio. Dois segundos. Três. E então ele se virou. O impacto não foi visual. Foi… presença. O olhar dele encontrou o dela sem esforço. Direto. Sem desviar. Sem suavizar. Como se estivesse avaliando. Não o trabalho. Ela. Júlia sustentou. Não abaixou. Não recuou. — Você não é o Carlos. A voz dele era calma. Mas não era uma observação. Era um teste. — Não. — Então por que você está aqui? Júlia deu um passo à frente, colocando os documentos sobre a mesa. Movimento firme. Sem pressa. — Porque os relatórios estão prontos. Silêncio. Ele olhou para os papéis. Depois… para ela. De novo. Mais atento agora. — Nome. — Júlia Andrade. Ele repetiu mentalmente. Dava pra perceber. — Você trabalha em qual setor? — Administrativo. Suporte direto à gerência. — E está entregando relatório financeiro. — Porque precisava ser feito. Sem justificativa longa. Sem defesa. Só fato. Um leve sorriso surgiu no canto da boca dele. Quase imperceptível. — Interessante. Júlia não reagiu. Mas sentiu. Algo ali tinha mudado. Pedro abriu o relatório. Folheou. Rápido. Olhos atentos. Precisos. — Você fez isso? — Sim. — Sozinha? — Sim. Ele fechou o arquivo. Seco. — Isso não é função sua. — Eu sei. Silêncio. — Então por que fez? Júlia sustentou o olhar. — Porque estava errado. O clima mudou. De novo. Agora não era só análise. Era interesse. Pedro se aproximou. Devagar. Sem pressa. Parou a poucos passos dela. Próximo o suficiente. Perto demais… para ser apenas profissional. — Você costuma ultrapassar limites assim? A pergunta era baixa. Mas carregada. Júlia sentiu. O peso. A intenção. Mas não recuou. — Eu costumo resolver problemas. Outro silêncio. Mais denso agora. Ele inclinou levemente a cabeça. Observando. Como se estivesse desmontando cada resposta dela. — E se eu disser que não gosto disso? Júlia respondeu sem hesitar: — Então eu paro. Pausa. — Depois de resolver. O sorriso voltou. Mais claro agora. Mais… perigoso. — Júlia Andrade… Ele disse o nome dela como se testasse o som. — Você sabe onde está se colocando? Ela sabia. Claro que sabia. Mas não demonstrou. — No meu trabalho. Ele deu um passo mais perto. Agora sim. Perto demais. — Não. A voz caiu um pouco. — Não é só isso. O ar ficou mais pesado. Mais lento. Mais… difícil. Júlia sentiu. O controle. Oscilar. Só um pouco. Mas suficiente. — Posso me retirar, senhor? Profissional. Segura. Mas não totalmente intacta. Ele demorou a responder. Como se estivesse decidindo. — Pode. Ela virou. Passos firmes. Controlados. Sem olhar para trás. Mas antes de sair— — Júlia. Ela parou. Não virou. — Da próxima vez… Pausa. — Continue ultrapassando limites. Silêncio. — Desde que valha a pena. Agora ela virou. Só um pouco. O suficiente para olhar. E o que encontrou… não era só autoridade. Era desafio. Júlia não respondeu. Mas algo dentro dela… respondeu. Ela saiu. Porta fechando atrás. Respiração presa. Coração acelerado. E pela primeira vez… não era o trabalho que estava fora do controle. Era ela. Lá dentro, Pedro ainda estava parado. Olhando para a porta. Pensando. — Interessante… — murmurou. Mas não era sobre o relatório. Era sobre ela. GANCHO FINAL E, naquele momento… sem que nenhum dos dois admitisse… algo tinha começado. E nenhum deles… estava preparado para parar.
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