Capítulo 11 — A Distância de Um Segundo

967 Palavras
Júlia sabia que não estava mais no controle completo. E aquilo… incomodava. Desde o toque. Desde o olhar. Desde o momento em que ela não se afastou. Ela tentou trabalhar. Tentou. Mas o corpo lembrava antes da mente permitir esquecer. O pulso. O silêncio. A proximidade. E o pior… a forma como ele tinha percebido tudo. — Você está pior hoje — Marina disse, observando. Júlia não olhou. — Estou trabalhando. — Você está tentando não pensar. Silêncio. — Ele fez alguma coisa ontem? Júlia parou. Só um segundo. — Não. Marina inclinou a cabeça. — Então por que parece que fez? Júlia voltou a digitar. — Porque algumas coisas não precisam acontecer pra serem problema. Marina ficou em silêncio. — Isso não é bom. — Eu sei. O telefone tocou. Número interno. Júlia respirou fundo. Atendeu. — Júlia. — Sala de reunião. Agora. A voz dele. Mais firme que o normal. Ela desligou. — Ele de novo? — Marina perguntou. — Ele. — Todos dos dias serão assim? — Marina perguntou. — Não sei — Boa sorte. Júlia saiu. Sentindo uma irritação. O corredor parecia diferente. Mais silencioso. Mais fechado. Mais… carregado. Ela abriu a porta da sala dele. Pedro já estava lá. Mas dessa vez… não estava sozinho. Documentos espalhados. Tela ligada. Ambiente preparado. Profissional. Seguro. Ou pelo menos parecia. — Feche a porta. Júlia fechou. — Senta. Ela sentou. Pedro não. Ele continuou de pé. — Esse projeto precisa ser finalizado hoje. Júlia assentiu. — Eu já revisei— — Comigo. Direto. Silêncio. Ele puxou a cadeira ao lado dela. Sentou. Perto. Mais perto do que o necessário. Júlia sentiu. Mas não comentou. Eles começaram. Cláusulas. Valores. Ajustes. Trabalho. Mas não só. Porque, mesmo em silêncio… a presença dele ocupava espaço demais. — Aqui. Ele disse, apontando a tela. Júlia se inclinou levemente. Pedro também. Os ombros quase encostaram. Quase. Ela percebeu. Mas não se afastou. Erro. Talvez. — Essa cláusula — ele continuou — precisa ser mais firme. — Eu posso ajustar— — Não. Ele virou o rosto. Perto. Muito perto. — Assim. A mão dele veio. Por cima da dela. Guiando. Não segurando. Mas também não neutra. Júlia travou. O toque era leve. Mas consciente. O corpo respondeu na hora. Respiração curta. Pedro não tirou. Apenas manteve ali. Por um segundo a mais. — Viu? A voz dele saiu mais firme. Júlia não respondeu. Porque não estava focada na tela. Estava no contato. Ele percebeu. Claro que percebeu. A mão dele deslizou levemente. Agora não guiando. Sentindo. Júlia puxou a mão de volta. Devagar. — Eu consigo sozinha. Silêncio. Pedro a observou. — Eu sei. Mas não pareceu recuar. O ar mudou. Mais pesado. Mais lento. — Isso não é necessário. Júlia disse. — Não. Ele respondeu. Sem desviar. — Mas você não parou. Aquilo bateu. — Eu estava trabalhando. — Não naquele momento. Silêncio. Ele se aproximou um pouco mais. Agora não havia espaço neutro. — Você percebe quando acontece. — Isso não significa nada. Pedro inclinou levemente o rosto. — Significa escolha. O coração dela acelerou. — O senhor gosta disso. — Disso o quê? — De testar. Pedro não negou. — Eu gosto de saber até onde você vai. Silêncio. — E até onde eu vou? Ele demorou um segundo. — Mais do que você admite. Aquilo ficou. Pesado. Júlia respirou fundo. — Isso não muda nada. — Muda. Ele se inclinou. Agora perto demais. O suficiente para que ela sentisse a respiração dele. Quente. Próxima. Perigosa. Júlia não se mexeu. Não recuou. Erro. Ou escolha. Pedro observou. Cada detalhe. — Você continua. A voz dele mais baixa agora. — Mesmo sabendo. Silêncio. Júlia sustentou o olhar. — Eu não fujo. O canto da boca dele subiu. — Eu sei. Mais perto. Agora não havia espaço. Só tensão. O olhar dele desceu. Para a boca dela. Rápido. Mas não rápido o suficiente. Júlia percebeu. E, pela primeira vez… não desviou. O mundo pareceu parar. Silêncio. Respiração. Proximidade. Tudo lento. Pedro inclinou levemente o rosto. A distância… mínima. Um segundo. Só um. Era o que separava. Júlia sentiu. O corpo inteiro atento. Esperando. Ou resistindo. Ela não sabia. Pedro parou. Ali. Sem tocar. Sem fechar. Só… perto. — Agora você entende. A voz saiu baixa. Muito baixa. Júlia fechou os olhos por um segundo. Abriu. Ainda ali. Ainda perto. Ainda perigoso. — Isso é um erro. — Eu sei. Mas ele não se afastou. Silêncio. Mais um segundo. Mais um. E então— Júlia virou o rosto. Quebrou. A distância voltou. Pequena. Mas suficiente. Pedro recuou. Devagar. Sem pressa. Mas com algo diferente no olhar. Não era dúvida. Era certeza. — Você não recuou. A frase veio baixa. Júlia respirou fundo. — Eu recuei agora. — Depois. Silêncio. Aquilo ficou. Pesado. Irreversível. Ela levantou. — Eu preciso voltar. Pedro não impediu. — Precisa. Mas o tom dizia outra coisa. Júlia saiu. Passos firmes. Mas o corpo ainda reagindo. No corredor… ela parou. Um segundo. Respirou. Tentando reorganizar. Sem sucesso. Quando voltou, Marina levantou. — O que aconteceu? Júlia sentou. Silêncio. — Júlia. Ela demorou. Um segundo. Dois. — Nada. — Você não tá me enganando. Júlia virou para o computador. — Não foi nada… Pausa. — …mas quase foi. Marina congelou. — Quase o quê? Júlia olhou para a tela. Mas não via nada. — O que foi que ele fez? Marina perguntou. Júlia respirou fundo. — Quase nos beijamos... — O quê? Marina perguntou espantada. — Fale baixo… Pausa. — não dá mais pra voltar. GANCHO FINAL Naquela noite, a mensagem chegou. “Você virou o rosto.” Júlia leu. Respiração lenta. E então… outra mensagem. “Mas não antes de querer.” Ela travou. Porque dessa vez… não tinha como negar. Nem pra ele. Nem pra ela.
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