Papa-léguas Narrando
Estou há 17 anos nesse ramo, tenho cumprido todas as minhas tarefas sem nenhum erro. Sou o melhor na minha área. Já perdemos muitos que iniciaram junto comigo, os que não morreram no projeto morreram com a substância no sangue. Comecei com 18 anos. Desde então a minha trajetória tem sido essa. Meu nome é Bryan Camargo, mais conhecido como Papa-léguas. Tenho 35 anos, 1,90 m de altura, sou galego estilo alemão, dos olhos azuis. Alemão da Alemanha, não cü azul, porque eu sou vermelhão. Tenho várias tatuagens pelo corpo. O meu rosto, pescoço, mãos e pés são lisos pra não chamar muita atenção, porque tem certos lugares que eu vou bem trajado de terno e gravata. Sou mula. É, sou a pessoa responsável por levar e trazer mercadoria dentro do corpo. Em 17 anos de profissão nunca fui pego. É porque manjo muito nessa pørra, ninguém nunca sequer desconfiou do pai aqui. Pra você que não sabe o que é mula: "mulas" são pessoas que transportam entorpecentes dentro do próprio corpo pra entregarem o material a traficantes de outro país. Eu sou cria do Rio. Meu trajeto é sempre o mesmo: Brasil, México, Colômbia e Estados Unidos.
Posso dizer que meu amor por Tayla foi à primeira vista nessa bagaça. Na verdade, depois do primeiro beijo. Que mulher é essa? Era só uma menina com o corpão, era um mulherão dona de si. E agora, com seus 25 anos, a mina é praticamente a cabeça de todas as missões. Eu fico orgulhoso pra caralhø de saber que minha pivetinha se tornou uma das melhores entre nós. Não é à toa que esses arrombados ficam tudo no encalço dela.
— QUE PØRRA É ESSA, MESMO? UMA EMBOSCADA? — eu esbravejo nervoso me abaixando assim que o cerco começa a se fechar.
— E agora? Como vamos sair dessa? — Tay olha pra ela que enrola o cabelo, coloca o boné, fecha o casaco e aponta pro jatinho. — Vamos vazar agora — ela fala baixo pra nenhum deles ouvir.
— Era pra ser uma porrø de uma missão tranquila, caralhø — eu falo bolado entrando no jatinho que já está levantando voo, e os desgraçados atiram na nossa direção, enchendo a lataria do jatinho de bala. — Sem sinal esse caralhø. Preciso avisar o Rajada que já estavam no nosso encalço. Porque nesse meio é assim: ou você faz a entrega ou você morre com a droga dentro de você ou com a bala na cabeça. Eles não aceitam traição e muito menos serem passados pra trás.
— Já viu que ela tá ferida? — Verruga fala. Tay levanta indo na direção do banheiro.
— Tay, Tay, está bem? — eu falo. Ela me olha, balança a cabeça negando e entra no banheiro. Apresso os passos. — Caralhø, amor — ela estava vomitando. — Você não pode colocar pra fora agora. Sustenta aí — ela me olha com ódio e volta a vomitar.
— E tem como? Não sei mais. Algo aqui dentro não está certo — Tayla fala se levantando. — Vou tentar. Preciso de um pouco de ar ou o meu bagulho. Tu trouxe? — ela fala. Eu balanço a cabeça dizendo que sim, já puxo da bolsa e entrego um pra ela, que já rasga o papel e coloca na boca. — Meu vício diário — ela respira fundo de olhos fechados.
Grilado sem saber o que realmente estava acontecendo, fico esperando ela sair do banheiro. Ela tira o boné da cabeça soltando o cabelo, passa um gloss nos lábios. Espaça ela passa na minha frente, senta na janela e eu sento segurando a mão dela.
— Calma, meu amor, vai dar certo — eu tento passar o máximo de segurança pra ela, mesmo não entendendo porque essa porrø deu errado logo hoje.
— Poxa, decisões. Nunca tinha acontecido nada assim — Tay fala encostando a cabeça no meu peito. Eu beijo o topo da cabeça dela.
— Espero que o Rajada tenha recebido a minha mensagem. Tenta dormir, meu amor — eu falo. Sinto a respiração dela mudar e ela só balança a cabeça.
O voo foi tranquilo, mas não consegui pregar o olho de jeito nenhum. Tentando saber onde foi que eu errei, onde tinha uma falha. Porque se fomos atacados no meio, a culpa é minha. Eu sou cabeça da missão. Olho pra Tayla já preocupado com o que vai acontecer quando chegarmos no Rio. Rajada não admite uma falha dessas. Vai sobrar pro meu rabø. Tô preocupado com a Tayla.
— CARALHØ — eu dou um grito assim que vejo que não estamos no Rio. — Você não fez isso, amor. Você não fez isso? — eu olho pra ela sem acreditar e sem entender porque que ela faria aquilo.
— Você vai me agradecer — Tay fala. Sem entender sobre o que ela tá falando, percebo que o avião está aterrissando. — Valeu aí, DDD — ela fala. Ainda tem a parte da frente do jatinho, pega a mochila e coloca nas costas.
— E aí, agora ela que dita as regras? — Vesgo fala todo engraçadinho. Ela praticamente empurra a gente passando na frente.
— Dá ousadia demais pra esses homens — Tay fala séria me olhando. — Temos traíra no nosso meio, tenho certeza. E agora é que eu vou saber, já que tem umas 10 horas, não é, meninos? — ela fala como se tivesse testando eles.
— Tu tá falando, né, patroa? — Verruga fala olhando pra trás. Escutamos um tiro e o Vesgo cai. — PORRØ, AQUI TAMBÉM? — ele grita. O meu telefone vibra. O cara que queria me esperar no aeroporto do Rio manda um vídeo mostrando a pista de pouso limpinha, só que aos arredores estava tudo cercado.
— ARMARAM PRA GENTE. ELES VÃO TENTAR NOS PEGAR A TODO CUSTO — eu falo jogando o telefone pra ela. — DDD, Verruga, ajuda o Vesgo.
— NÃO ADIANTA BRIGAR AGORA. TEMOS QUE TENTAR NOS SALVAR — DDD fala. Cada um com a arma na mão, começamos a atirar na direção de onde estavam vindo os tiros, tentando correr sem bater em nada por causa da substância que está nos nossos corpos.
— COMO É QUE ELE SAI ATIRANDO SEM SABER QUEM A GENTE É? — Tay fala brabona. Mas eu até entendo: aqui é rota de fuga, então os c***a fica ligado. — Acertaram o Verruga — ela fala atrás de um contêiner.
— Aguenta aí, porque nós temos que conseguir chegar em um lugar seguro — Vesgo fala abaixado amarrando a camisa na canela onde ele levou o primeiro tiro. Já ajuda o Verruga a se levantar. O braço dela começa a sangrar. Ela coloca a mão na barriga, com certeza o estômago deve estar doendo.
Continua...