Laura Narrando
Dormir depois de um dia cabuloso é quase um prêmio. Viagem, bronca, Noah… tudo no mesmo corre. Só Deus mesmo. Não é qualquer uma que segura, não. Só quem tem sangue no olho, coração na guerra e amor demais no peito. E olha, meu coração tá como? Em pedaços. Sem lógica o que ele tá fazendo comigo. Eu não pedi pra ficar grávida, p***a. Foi na primeira transa, tá ligado?
Se eu soubesse que ia virar esse caos todo, tinha insistido na camisinha, mesmo ele falando aquele papinho de "com você é só no couro, lisa, sem capa".
E eu, i****a, rindo. Fui burra, me deixei levar pelo t***o, pela emoção de finalmente ter ele do meu lado, do jeito que eu sempre sonhei. Quando vi, já era. Esqueci meu nome, minha razão... e a p***a da camisinha.
Acordei com o corpo todo dolorido, tentando me ajeitar na cama com dificuldade. Quando abri o olho e vi quem tava parada ali me encarando, levei um susto.
— Que p***a cê tá fazendo aqui, doida? — perguntei assustada, levantando na direção dela.
— Tu sabe que comigo tu não precisa esconder nada, né? Nós é fechamento, p***a. Agora fala, é isso mesmo? — Júlia disse com os olhos brilhando, já se ajoelhando e beijando minha barriga.
— Levanta, maluca! Ele já sabe? — perguntei, balançando a cabeça em negativa e indo direto pro banheiro.
Grávida faz xixi como se tivesse uma torneira aberta, socorro. Estressante demais.
— Laura, tu precisa contar pra ele, amiga. Tu não fez esse bebê com o dedo, né? Eu, tu e ele sabemos muito bem como foi que esse cria foi feito — ela mandou, debochada. Eu não aguentei e comecei a rir.
— Tu tá impossível hoje. Mas real, pensei a mesma coisa quando ele me tratou daquele jeito. Como se eu fosse uma qualquer, uma mina que dá pra geral.Durante cinco anos, fui só dele. Nunca tive nem vontade de olhar pra outro. Tava focada na minha vida, no curso, em terminar a facul de Direito. Já não é fácil pra ninguém, imagina fechando TCC, prova da OAB e grávida! Não é pra qualquer uma, não. Mas olha? Não me arrependo de nada. Se for pra passar por tudo de novo, eu passo. Só que dessa vez mais esperta. Agora deixa eu tomar um banho, que tenho que ir no mercado, dar um rolê na minha quebrada. Tô grávida, não morta, p***a — falei. Júlia bateu palminha e ficou me zoando.
Fui pro banho, rapidão. Quando saí, enrolada na toalha, ela já tinha arrumado a cama e tava sentada igual patroa. Fui no closet, peguei uma roupa, voltei vestindo.
— Para aí, fica assim! — ela mandou, já com o celular na mão. Eu só de calcinha e sutiã, e ela clicando.
— Tu é s*******o, Júlia! — balancei a cabeça rindo, terminei de me arrumar. Meu celular vibrou, era notificação do i********:.
Fui olhar... Não acredito que ela postou, mano. AFF.
Ainda bem que só focou na barriga, porque se fosse de calcinha, aí sim o circo pegava fogo. E se o Noah visse então...
— Tu postou isso no Insta, sua louca? — perguntei.
Ela só riu e veio correndo me mostrar. E aí... meu coração deu aquele baque.
A legenda da foto? "Titia já ama!"
Nos comentários: Noah com dois olhinhos 👀 e uma carinha de interrogação 😕
Na hora, fiquei sem chão.
— Fica assim não, amiga. Ele te ama. Eu e o Théo somos a prova viva disso — ela disse me abraçando.— Tu sabia que ele ia pra Bahia? — perguntou.
— Não. — respondi, com o peito doendo.
— Deu tempo de vocês se ver? Ou dele te ver, pelo menos?
Falei pra ele não fazer isso, mas ele travou. Não sabia como te contar que quando tu chegasse ele já teria ido. Ele tava em guerra interna, Laura. Não sei o que tu fez com ele, mas o cara tá de quatro.
O cara dispensou uma patricinha, herdeira de morro, por tua causa.
Tu acha que o Noah faria isso por qualquer uma? Nunca! Tia Adrielle disse que ele surtou quando soube da gravidez. Ele tá errado, sim. Muito errado de sair sem te escutar. Mas tu também tinha que ter falado, amiga. Homem é lerdo. Cês transaram quantas vezes? Uma? Duas? Um final de semana inteiro? A ficha deles demora a cair que o trem pode pegar de primeira — ela falou, rindo e me abraçando de novo.
Eu suspirei fundo.
Tudo o que eu queria agora era que ele tivesse aqui... pra me ouvir. Pra me abraçar.
Mas o destino parece que tá testando a gente.
E dessa vez... eu não sei se ele vai aguentar.
— Vamo tomar café lá na tia Carmem, tô com mó vontade do bolo de chocolate dela — falei enquanto terminava de me arrumar, e Júlia só confirmou com a cabeça.
— Sabe, Júlia… se teu irmão fosse só um pouco menos cabeça dura, talvez isso tudo nem tivesse virado essa bagunça. Não entra na minha cabeça como é que um cara que ficou anos sendo fiel a uma mulher que tava do outro lado do oceano agora age como se eu tivesse feito alguma merda. p***a, isso machuca, sabia? — falei já com a voz embargada, mas firme. — Não vou me humilhar. Vou explicar uma vez só. Se quiser acreditar, que acredite. Se não quiser… f**a-se. Ele sabe onde me encontrar.
Saímos de casa, e a caminhada até a padaria foi daquele jeito...
Por onde eu passo é sempre o mesmo: os olhares, os cochichos.
Tô grávida, não fiz crime nenhum, não.
Mas já sabia o que viria.
No meio do caminho, quem cruza? As duas cobras. Vick e Verônica, sempre com deboche na ponta da língua.
— Olha aí o que o Noah não deu conta de fazer, um gringo fez rapidinho. Parabéns, princesa. Mas relaxa, quem vai dar o herdeiro mesmo é a Verônica. Se já não tiver no forninho, né filha — fala a Vick, rindo alto.
Passo reto. Se eu parar pra dar atenção pra cobra, perco a energia que tô guardando pro que importa. E hoje, sinceramente, tô com fome, não com paciência.
Chegamos na padaria, sentei, e Júlia foi buscar o que eu pedi: café, pão de queijo e o famoso bolo da tia Carmem que parecia estar me chamando pelo nome.
— Vamo alimentar essa solitária que mora em você, porque agora com o baby do lado vai comer o dobro. Tem que ficar forte pra pisar nas cobras, porque essas duas tão se armando faz tempo — falou se sentando do meu lado.
— E vocês deixaram essas cobras se criar por quê, hein? Que p***a virou essa comunidade depois que eu fui embora? — falei enquanto saboreava o bolo.
Antes que ela respondesse, os homens da minha vida chegaram. MK apareceu por trás, já puxando meu cabelo como sempre fazia.
— Bom saber que os filhos crescem e esquecem que têm pai.
Me levanto na hora, e logo Victor e Pedro gritam ao ver minha barriga.
— p**a que pariu!
Eu e Júlia caímos na risada, e o tio Joca veio sério, mas com o olhar de sempre, cheio de carinho.
— Preparados pra serem titios? — perguntei rindo, e eles só balançaram a cabeça, puxando cadeira e sentando com a gente.
— Só não tô curtindo essa ideia de virar avô assim de surpresa. E o pivete já tá com seis meses… e o pai? Nem aí, né — falou MK, e eu só dei de ombro. Não é falta de educação, é cansaço mesmo.
Toda vez que penso em falar sobre o Noah, meu coração aperta. Repassar aquela cena dói mais do que parto.
— Minha princesa… ele vai ter que te ouvir. Não criei filho pra fugir de responsabilidade não. E outra: ele nem podia cogitar em duvidar de você. Tu sempre foi firme com ele, sempre teve do lado dele mesmo quando ele errava contigo. Tão nessa jornada há tempo demais pra ele agir desse jeito. Tá errado, muito errado. Mas, filha, tenta ter um pouco de paciência com ele… essa missão de última hora mexeu com o psicológico dele. Conheço meu filho. Ele saiu m*l daqui — disse o tio Joca, passando a mão na minha barriga antes de me dar um beijo na testa.
E aí, como sempre, o Théo chega daquele jeito dele, gritando pra geral ouvir.
— Ahhh se a branquela tá aqui é porque vai ter baile esse final de semana! Acha que eu esqueci? Já que a gente não pôde ir pra tua formatura lá em Chicago, vamo fazer o baile dela aqui mesmo! Porque a nossa advogata merece!
Todo mundo parou pra ouvir ele, e eu levantei na hora, com o coração apertado e os olhos molhados, e abracei ele com força. Chorei.
Chorei porque era disso que eu precisava. De gente que me olhasse com carinho. Gente que acreditasse em mim... sem eu precisar implorar por isso.
— Meu irmão... que saudade de tu e da tua alegria.
Levanto sorrindo, e ele dá um pulo. Já tô até acostumada com esse povo se assustando comigo. Fazer o quê, né? Saí daqui com a barriga trincada, voltei com um barrigão de cinco meses. É de assustar mesmo.
— E ele foi, mesmo sabendo que tu tá grávida do filho dele? Isso tá errado, p***a!
Ele fala bolado, e eu só faço sinal com a mão pedindo silêncio. Já escutei coisa demais hoje. Eles seguem pra boca, e eu e Júlia vamos pro mercado. Fiz umas comprinhas, voltei pra casa enquanto ela foi pro plantão dela no postinho.
Chegando em casa, comecei a guardar tudo: umas coisas no armário, outras na geladeira. Tava nesse corre quando meu telefone toca. Olho o visor... é ele. Noah.
Minhas pernas tremem na hora. Vou até a sala, sento no sofá devagar, coração disparado, e atendo.
Ligação ON
— Amor? Tá aí?
Ele respira fundo, e eu fico muda. Só escuto a respiração dele do outro lado. E então... uma voz de mulher ao fundo.
Continua.....