Capítulo 2

2070 Palavras
AMANDA ― Ei! Cê tá bem? ― ouviu uma voz feminina me chamar e, pouco depois, uma menina se abaixou ao meu lado, me ajudando a juntar minhas coisas que estavam espalhadas. As primeiras aulas foram como um pedacinho do paraíso, mas não demorou até que um desastre acontecesse e, quando eu estava saindo para meu terceiro periodo da manhã, um i****a trombou em mim e me deixou no chão, com todos os meus materiais espalhados sem sequer me ajudar. ― Um i****a me derrubou ― respondi, um pouco mau humorada, mas logo voltando meus olhos para a menina e sorrindo levemente, ela estava sendo bastante gentil. ― Obrigada pela ajuda, me chamo Amanda. ― Eu sou Lais, mas pode me chamar de Lay ― ela se apresentou, me entregando meus cadernos e me ajudando a levantar. Lay tinha cabelos loiros platinados e uma pele morena cor de café que entrava em contraste com seus cachos brancos, seus olhos eram castanhos e ela usava um vestidinho solto num tom de verde oliva que ficava muito bonito nela. ― Adorei seu cabelo ― comentei enquanto me levantava e ajeitava os cadernos e dois livros que havia pegado com o professor no braço ―, qual seu curso? ― Tô no primeiro período de veterinária, mas perdi as três primeiras aulas ― ela falou, claramente um pouco triste com sua primeira falta. ― E você? Qual o seu? ― Somos da mesma turma provavelmente! Mas eu cheguei a tempo das primeiras aulas ― respondi, rindo enquanto começamos a caminhar em direção a próxima sala. ― Sério? Que legal! Eu tava morrendo de medo de não conhecer ninguém, podemos ficar juntas na próxima aula? ― ela perguntou, sem olhar para mim, parecendo um pouco sem jeito em fazer aquele pedido. ― Claro! Eu também não conheço ninguém, vai ser ótimo! ― respondi, animada com, talvez, o início de uma boa amizade. Lay era uma garota esperta e bastante divertida, durante a manhã conversamos muito e ela me contou que morava numa república só para meninas perto da faculdade, que veio do nordeste para cursar o curso da sua vida ali. Assim como eu, ela parecia mais do que encantada com tudo, então, depois das aulas, fizemos um passeio por todo o campus e lanchamos juntas, sem parar de tagarelar por um minuto. Eu m*l notei o tempo passar e, quando nos demos conta, já eram quase duas da tarde. ― Poxa, a conversa tava tão boa! ― reclamei, rindo enquanto descia da banquetinha em que sentamos para lanchar. ― Mas eu tenho que ir, se eu perder o ônibus das duas eu só chego em casa depois das cinco! ― Tava boa mesmo! Mas amanhã a gente se vê de novo, não esquece do trabalho que o professor pediu para a semana que vem! ― Lay me lembrou, acenando enquanto terminava seu lanche, como morava perto dali, ela não estava com pressa. Corri em direção a saída do campus e antes que eu chegasse ao ponto de ônibus, vi, de longe, minha condução passando, já quase virando a esquina. ― Mas que d***a! ― murmurei batendo o pé no chão enquanto seguia em direção ao ponto. ― Agora só quatro e meia. Odiava quando aquele tipo de coisa acontecia. Sempre fui muito distraída e por isso, infelizmente eu conseguia fazer a proeza de perder o ônibus muitas vezes na vida, era péssimo. Sentei no banco e peguei meu celular, emburrada. Desbloqueei a tela e abri o contato do meu pai no Whats mandando uma mensagem para ele avisando que iria me atrasar porque tinha perdido o ônibus. Mas, antes que eu enviasse a mensagem, uma buzina me chamou atenção. Levantei os olhos e encontrei a picape preta que eu conhecia bem parada logo a minha frente. O vidro do banco do motorista abriu e, sorrindo para mim, Carlos deu uma batidinha na porta. ― Não vai me dizer que perdeu o ônibus de novo? ― ele perguntou, balançando a cabeça e abrindo a porta para mim. ― Vem, entra! Não pensei duas vezes e me levantei, correndo para o carro e entrando, me ajeitando no banco e batendo a porta. A aparição dele com certeza era uma mão na roda, apesar de suspeita, afinal, aquela definitivamente não era a área dele. Inspirei profundamente e me ajeitei no carro, que tinha sempre o cheiro característico de menta e estava sempre geladinho, ao contrário do clima lá fora. ― Como foi o primeiro dia, pequena? ― ele perguntou, deixando um beijinho em meus cabelos, um costume que ele nunca perdeu, mesmo quando nós dois já não somos mais criancinhas. Me virei para ele e enquanto o moreno dava a partida, o observei com as sobrancelhas franzidas. A pele morena dele sempre foi muito bonita, ele todo era bonito na verdade. Alto, ombros largos, corpo forte e braços que davam facilmente dois dos meus. Cabelos bem baixinhos e uma barba rala e bem desenhada no rosto, tinha um piercing no septo e algumas tatuagens que ele quase nunca mostrava, mas que eu lembrava de quando ele havia feito, afinal, meu pai tinha ficado muito puto. ― Tá fazendo o que aqui? ― perguntei, unindo as sobrancelhas e o encarando desconfiada. Carlos deu de ombros, sem desviar os olhos da estrada, mas ele claramente estava tentando fingir normalidade. ― Tava só passando e te vi ― respondeu ele, apoiando a mão direita em meu ombro. ― Como foi seu primeiro dia? ― Hum, sei ― respondi, revirando os olhos, mas logo deixei as suspeitas de lado. ― Foi incrível! As matérias são ótimas e eu até fiz uma amiga, a única coisa que não foi tão legal foi quando um louco esbarrou em mim e derrubou minhas coisas no chão, e ele nem parou para me ajudar. Carlos parou o carro no sinal vermelho e me olhou com um grande sorriso, eu sentia as vezes que ele ficava mais animado que eu com as coisas. ― Sabe que eu tava doido pra te encontrar pra saber como foi esse seu primeiro dia ― comentou ele, voltando a dirigir. ― Mas fiquei preocupado também… Por isso passei por aqui para saber se você já tinha ido pra casa, aqui ninguém te conhece e eu fiquei com medo de você se perder. ― Que nada eu sei andar no Rio, sou criança mais não ― respondi, revirando os olhos e me encostando no banco, apoiando minha cabeça em seu ombro. ― Mas obrigada por vir me buscar. ― Por nada pequena ― ele respondeu rindo baixinho e continuando a dirigir. CARLOS Não me surpreendi quando encontrei ela sentadinha no banco do ponto de ônibus com uma cara emburrada eu imaginei que isso iria acontecer. Amanda sempre foi muito voada, sempre se esquecia muito fácil das coisas e, por isso, decidi dar uma passada na porta da universidade para ver se ela ainda estaria ali naquela hora. Mesmo querendo negar, eu me preocupava pra c*****o com aquela menina desde sempre, desde quando a gente era só dois pedacinhos de gente correndo pelas ruas do Vidigal. Eu sabia que não era só uma amizade pra mim, Amanda representava muito mais em minha vida do que mulher alguma representou, mas também sabia que não era homem pra ela. Enquanto a ouvia tagarelar sobre a faculdade e sobre como seu primeiro dia foi incrível, eu percebia, de novo, o grande abismo que nos separava. Moravamos no mesmo lugar, mas, graças a Deus ela não se meteu no mesmo caminho que eu, era uma menina que procurava um futuro bom e o que eu menos queria era atrapalhar aquela jornada que ela tinha que fazer sozinha. Mas cuidar dela às vezes não faria m*l, não é? O caminho até o Vidigal nunca foi tão rápido, mas eu sabia que só estava sentindo isso por que queria arrumar uma desculpa para ficar um pouco mais com ela, com meu amor proibido, a única menina que eu não podia nem sonhar em ter, mas que eu queria tanto. Desacelerei o carro na entrada do morro e abaixei o vidro colocando a mão para fora e dando uma batida na mão do meu parça Tiago, que estava na vigia naquele dia. ― E aí, cara! Achei que não ia voltar nunca ― Tiago reclamou colocando a cabeça ao lado da janela e vendo Amanda no banco do passageiro. ― E ai, Amandinha, teu pai contou pra todo mundo que hoje foi teu primeiro dia na faculdade, tu gostou? Minha mãe mandou eu te dar parabéns, todo mundo tá muito feliz por tu! ― Valeu, Tiago! Foi tudo muito legal, eu adorei! Diz a dona Maria que eu vou lá falar com ela ― ela respondeu, sempre muito simpática com todo mundo, de uma forma que até me deixava com um pouco de ciúmes. ― Oh, Carlos, o Farias tá te esperando com uns caras lá em cima, parece que teve um problema com uma galerinha que tentou fazer um arrastão nas casas lá de cima deu a maior treta ― Tiago continuou, me fazendo suspirar eu odiava quando aquilo acontecia. ― Esses moleques nunca aprendem, to chegando lá ― falei, então acelerei o carro de novo entrando no morro do Vidigal e seguindo em direção a casa de Amanda. ― Pode me deixar por aqui, eu subo, não quero te atrapalhar ― ela falou tirado o cinto e virando para mim, deixando um beijo na minha bochecha. ― Obrigada pela carona. ― Você sempre parece aquela menininha catarrenta de dez anos atrás ― falei, rindo e vendo a morena fechar a cara, emburrada. ― Não vai atrapalhar vou te levar em casa, teu pai deve tá te esperando. Mesmo contrariada, Amanda não insistiu, continuou sentada até eu para na frente da casa dela,mais silenciosa que antes e bocejando vez ou outra, provavelmente cansada do dia cheio de emoções que ela havia me contado. Parei o carro e destravei as portas segurando sua mão antes que ela saísse e brincando com seus dedos finos e delicados. ― Me fala a hora que tu vai sair de casa amanhã, eu te levo ― falei, já esperando que ela recusasse, mas pronto para insistir dessa vez. ― Carlos.. tu sabe que não é bom a gente… ― ela começou, mas eu fui mais rápido, sem deixar ela terminar. ― É só uma carona nada demais ― completei, olhando para Amanda e percebendo sua dúvida. ― Só quero te ajudar, não pode me deixar de fora desse momento importante, não somos mais amigos? Eu sabia que ela era sentimental e que, com toda certeza, aquele era um golpe baixo, mas às vezes eu jogava baixo pra conseguir o que eu queria e passar um tempinho com ela todos os dias já ajudava a acalmar meu coração. ― Tá bom, mas não vai pensando que isso vai ser todo dia ― Amanda respondeu me fazendo sorrir e abrindo a porta do carro antes que eu pudesse fazer alguma besteira. ― Eu saio sete e meia amanhã! Então ela bateu a porta e correu para sua casa. Vi seu pai na porta e acenei para ele que retribuiu com um aceno e um sorriso gritando um obrigada e entrando dentro da casa com sua filha ao lado, abraçando-a alegremente. Não fiquei ali muito tempo, tinha problema pra resolver e, com certeza, Farias tava puto lá em cima e eu tinha que evitar o m******e. Ser o braço direito do dono desse lugar não era nada fácil, além de não ser nada seguro, muita gente queria meu lugar e eu sabia que era um alvo. Mais um motivo para manter Amanda bem longe de mim. Se eu fosse realmente um cara legal, nem ia sustentar essa amizade, mas eu sou um p**a egoísta mesmo, não consigo ficar sem falar com ela por mais de uma semana. Continuei subindo e, quando cheguei na casa de Farias ele já tava me esperando na porta e a cara dele só confirmou minhas suspeitas. ― Que demora! Tiago não te passou o recado? ― perguntou, enquanto eu saia do carro. ― Passou ― confirmei ―, mas eu tava terminando um negócio. Mas vamo lá, esses moleques tem que aprender que as regras daqui valem pra todo mundo! |¥| Não esqueçam de deixar seus comentários e de me seguir no i********: e no t****k. INSTAGRAM: @autora_evy TIKTOK: @autoraevy
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