Luna
O salão era amplo, moderno e cheirava a poder.
Paredes de vidro revelavam a vista da cidade iluminada, enquanto o som do jazz instrumental preenchia os espaços entre os risos falsos e os brindes milionários. Tudo naquele lugar exalava elegância... exceto o caos dentro de mim.
Eu estava de volta. Dois anos depois.
Não mais como babá.
Não mais ingênua.
Não mais apaixonada.
Meu salto ecoou firme no mármore enquanto caminhava entre os convidados, com uma taça de champanhe na mão e o vestido vinho abraçando minhas curvas com a mesma ousadia que eu neguei por tanto tempo. O decote profundo e a f***a lateral não eram à toa — eu sabia que ele estaria aqui. E sabia que me ver assim o destruiria.
Damien Blackthorne.
Meu ex-chefe. Meu ex-amor. Meu carrasco emocional.
Ele me dispensou como quem se livra de uma obrigação, depois de me fazer sentir como se o céu morasse entre seus braços.
Levantei o olhar e então o vi.
Imponente, em um terno preto sob medida, como um predador esperando a próxima presa. Ele não sorria — nunca sorria — mas seus olhos... aqueles olhos cinzentos percorreram meu corpo como se cada centímetro do tecido que me cobria fosse uma afronta.
E era.
Meu corpo respondeu, traidor, com um arrepio que subiu pela espinha.
Droga. Ainda o queria. Ainda sentia. Ainda doía.
Mas eu era outra mulher agora.
Ele não me destruiria de novo.
Damien se aproximou. Alto. Másculo. O cheiro amadeirado familiar me envolveu como um sussurro c***l de memórias quentes. O silêncio entre nós durou apenas segundos — mas carregava dois anos de ausência.
— Luna? — Sua voz soou rouca, hesitante, como se a boca não tivesse certeza se merecia pronunciar meu nome.
Sorri. Um sorriso ensaiado, elegante... e afiado.
— Senhor Blackthorne. — Dei um gole demorado na taça. — Acha mesmo que eu não viria?
Ele me analisou com o olhar de quem deseja e teme ao mesmo tempo. Um músculo em sua mandíbula se contraiu.
— Você está diferente.
— Estou viva. — Respondi. — Coisa que não acontecia quando trabalhava para você.
— Eu nunca quis te machucar.
— Mas conseguiu.
Silêncio.
Ele tentou se aproximar mais, como se o calor entre nossos corpos fosse um ímã invisível. Minha pele fervia. Meu coração batia rápido. E ainda assim, mantive o queixo erguido.
— O que você está fazendo aqui? — ele perguntou. A pergunta saiu mais baixa, mais grave, mais possessiva.
— Represento o novo projeto educacional da creche bilingue ligada à fundação da sua empresa. Ironias do destino, não? A babá virou coordenadora. E agora... nós dois trabalhamos juntos.
Os olhos dele brilharam com algo entre surpresa e provocação.
— Isso muda tudo.
— Eu sei.
Ele se aproximou ainda mais. Seus lábios quase tocaram minha orelha.
— Você me odeia?
Fechei os olhos por um segundo. A respiração dele quente contra minha pele, o cheiro, a voz... era tortura.
— Não. — sussurrei. — Eu apenas não amo mais você. E isso é pior, não é.
Ele recuou ligeiramente. Havia um incêndio silencioso em seus olhos, e eu sabia: ele me queria.
Com a mesma fome de antes.
Com mais dor, mais desespero, mais culpa.
Ele segurou meu pulso, firme, mas sem machucar.
— Você não pode simplesmente aparecer assim. Toda mulher aqui desapareceu quando você entrou.
— Que pena, Damien. Mas eu não vim para agradar seu ego.
Puxei minha mão de volta, sem disfarçar o arrepio que ele deixara em mim.
— Boa noite, senhor Blackthorne.
Virei as costas e caminhei em direção à varanda. Precisava de ar.
Precisava... fugir de mim.
Mas não deu tempo.
A porta de vidro se abriu atrás de mim com força. Ele me seguiu. Me encurralou com o corpo. A noite fria não foi suficiente para apagar o calor que se acumulava entre nós.
— Luna... — A voz dele falhou. Pela primeira vez, ele parecia vulnerável. — Eu não parei de pensar em você.
— Você pensava em mim quando me mandou embora? — rebati. — Quando disse que a sua filha precisava de limites e não de amor? Quando jogou tudo fora como se eu fosse... descartável?
O peito dele subiu e desceu com força.
— Eu estava destruído. Tentei me proteger. E acabei te ferindo.
— Não estou aqui por você, Damien. Estou aqui por mim. — Pausei, engolindo as palavras que ardiam na garganta. — Mas isso não significa que eu tenha esquecido o que sentimos.
Ele se aproximou mais. Encostou a mão na minha cintura nua, sob a f***a do vestido. Meu corpo queimou.
— Diga que ainda sente. — sussurrou.
Fechei os olhos. Maldita química. Maldito toque.
— Não diga isso... — murmurei.
Mas era tarde demais.
A boca dele encontrou a minha com urgência. Beijo carregado de frustração, saudade e raiva. Um beijo que arrombou as portas da minha resistência. Minha língua reconheceu a dele como um velho amante. Meus dedos agarraram seus cabelos como se dois anos de dor precisassem de redenção.
Ele me ergueu pela cintura, encostando-me contra a parede de vidro. As mãos dele exploraram minhas coxas expostas. Eu arqueei o corpo, gemendo entre beijos ofegantes.
— Você é um inferno — sussurrei contra seus lábios.
— E você... minha maldição favorita — respondeu, mordendo meu lábio inferior com possessividade.
Mas eu não podia me render. Não ainda.
Empurrei seu peito com firmeza, ofegante, com os lábios ainda inchados de desejo.
— Não me beije como se ainda fosse dono de mim, Damien. Você me perdeu.
— Então me deixe provar que posso te reconquistar. — Seu tom era uma súplica rouca.
Balancei a cabeça, recuando dois passos.
— Prove, então. Mas não com palavras. Com atitudes.
E me afastei, deixando-o ali, com o desejo latejando nos olhos e a respiração irregular.
Era o começo do jogo.
E desta vez, eu tinha as regras.