— YOU KNOW MY MOTIVATION, GIVEN MY REPUTATION, PLEASE EXCUSE I DON'T MEAN TO BE RUDE...— Cantamos (lê-se: "berramos como cabras com dor de barriga") enquanto eu dirijo. Confesso que fiquei tentada a ir com o meu caro chefe. Mas, corria o risco da Rebeca estuprar o coitado do Ricardo sem ao menos dizer um "Oi, tudo bem?".
— BUT, TONIGHT I'M f*****g YOOOOU!! — Grito com as meninas e rimos juntas. São momentos assim que me fazem ter a certeza de que, conhecer elas, foi um presente de Deus. Elas passaram pelo que eu passei e conhecem a sensação de ser discriminada. O preconceito existia na minha própria família. Agradeço a Deus por ter me dado forças para estudar e ser o que sou hoje. Confiante, segura do meu corpo. Ou pelo menos fingir bem.
Por que eu uso essas roupas no trabalho? Por quê tenho alguns segredinhos que preciso esconder. Não por me arrepender, mas sim pela tentação de repetir o erro.
— Emmy? — A voz da Sofie me acorda dos devaneios e eu estaciono o carro ao lado da Range Rover preta. Respiro fundo antes de descer. Essa semana se basearia em me esconder no quarto e só sair para comer. Espero que a minha amigona do coração tenha colocado as roupas na mala e algum filtro solar, o sol parece estar fortíssimo, não estou afim de triplicar a quantidade de melanina que tenho no corpo.
— p**a que pariu. — Escuto e estranho. Rebeca não é de xingar baixinho, ela grita. Sofie já tinha descido do carro e deixado um papelzinho com as combinações das malas.
Me viro, amarrando meu cabelo em um coque e o solto no mesmo momento que vejo o quê ela tem nas mãos. Os fios caem nos meus olhos, mas eu não ligo.
Não acredito que Sofie fez isso.
Simplesmente me recuso a crer...
Vendo minha expressão Becca abre a minha mala e dá uma risada irônica.
Eu não consigo pronunciar uma palavra.
— Parece que a Sof planejou algo para nós três, Emily —Ela diz, pausadamente e respirando fundo.
As máscaras estavam lá.
Tudo estava lá.
Menos as minhas roupas comuns.
****
Depois de sair do estado de choque que entrei ao fitar a surpresinha da minha amiga, deixei Rebeca arrumando as coisas e estou à procura da Sofie. Ela precisa esclarecer o porquê disso tudo. Por quê ressuscitar as máscaras? Pensei que tínhamos desistido disso e deixado para trás.
Vocês devem estar achando que eu sou louca por está brigando por conta de algumas máscaras, certo?
Vou explicar.
Anos atrás, quando vim finalizar a minha Pós Graduação em Cálculo Diferencial e Integral, eu as conheci. Meu emocional ainda estava meio abalado por todas coisas que ouvia em casa por conta do meu peso e elas me acolheram de uma forma tão singela.
Rebeca com o seu jeito louco e otimista e Sofie fazendo eu me sentir segura ao seu lado.
Elas sabiam como era difícil lidar com a discriminação.
E me indicaram o quê?
Dança.
Não uma dança qualquer: Pole Dance e entre outras danças sensuais.
Essas aulas eram dinâmicas, nós usávamos máscaras para nos soltar mais. Com a identidade disfarçada podíamos ser e fazer o quê nos desse na telha. Ao longo da experiência, ganhávamos máscaras com cores e tecidos que se assemelhavam à nossa personalidade.
O meu? Uma mistura de Cetim com Veludo n***o e detalhes em renda vermelha. Representavam: Delicadeza. Mistério. Sensualidade.
Fazíamos apresentações para milionários, senadores e a nata da sociedade masculina que gostava de ver as três mascaradas balançarem o corpo de forma autêntica e que ninguém nunca viu.
Mas, como tudo tem sempre um fim, nós cansamos e nos focamos nas nossas verdadeiras carreiras.
Eu, encontrei a agência.
Sofie, abriu um escritório de Advocacia com uma colega.
Rebeca, administra e é chef do seu próprio restaurante o Nel Blue.
E sim, elas sabiam que eu tinha desenterrado a minha fantasia para fazer uma visitinha ao Samuel.
Abrir a porta do apartamento foi fácil, qualquer pessoa com o material certo, técnica e paciência consegue. Era só conciliar a folga da empregada e a hora que ele chegaria da tradicional "pelada" com os caras e pof! Tudo daria certo. E deu.
E no começo adorava vê-lo pagando a língua. Cada vez que ficava lá, sonhando acordado ou quando o Ricardo passava e zoava ele, mandando-o parar de ler livros de "mulherzinha".
Parecia magoado, mas no fundo, estava aprendendo a ter respeito e não se deixar levar por esteriótipos.
Saindo dos meus devaneios, avisto a Sofie tomando uma água de coco.
Ela joga a bomba e vai ficar na sombra, mas eu mereço!
Vou em sua direção e ela sorri, acenando.
— COMO VOCÊ FAZ ISSO? — Ela só sorri, balançando a cabeça de forma descontraída. — Por que trazer a tona as nossas máscaras? O combinado não era parar?
Que droga, ela só vai ficar ai só sorrindo?
— Senta aí. — Diz e, mesmo sem querer, obedeço. — Presta atenção. Notou que estamos interessadas, cada uma, nos homens daquela foto? O seu chefe você já conseguiu, mas... Olha, eu sei que é apaixonada por ele. Até porquê nenhuma de nós arrombaria uma porta se não fosse por uma loucura de amor. — Sofie riu e eu prendi meu sorriso. Mesmo querendo negar, eu sou louca pelo Samuel — Então, só vamos juntar o útil ao agradável, não é a toa que peguei a Seda com Renda Rosa Clara. — Ela pisca e eu dou risada.
— Inteligência. Perigo. Feminilidade. — Cito antes dela e nós duas sorrimos. Nossas máscaras dizem mais sobre nós do que tudo que fazemos.
Irônico não é?
Um vulto loiro se joga na cadeira, sorrindo e ofegante.
— Oi, Becca... — Falamos em uníssono.
Ela dá risada e bate na mesa.
Rebeca Jones sendo Rebeca Jones.
Escandalosa como sempre.
— Veludo Azul Escuro com detalhes em laranja e pequenas pedras de esmeralda. Sexualidade. Autenticidade. Atração. — Completa e joga a cabeça para trás. Fazendo a cara que sempre fazia quando dizia suas qualidades. Damos risada e nos fitamos. É, estamos de volta!
— Seja lá o quê estiver planejando, já estou dentro, Sof! — A animação de Rebeca era contagiante, sorri, balançando a cabeça.
— Obviamente também estou, diga seu plano, mestra! — Ela sorriu e começou a falar.
E o que eu tenho a dizer sobre esse plano é:
Segurem-se rapazes, nós estamos de volta e pegando fogo!