HÃ? - Samuel Ferraz

1981 Palavras
Cheguei no restaurante mais cedo, só para ter um tempo a mais, cardápio e essas coisas. Fiquei um tempo distraído com as palavras difíceis que faria qualquer pessoa que desconhece línguas e é vegetariana pedir um bife m*l passado com uns temperos frescos. Precisava da Emily para me ajudar a dar uma ajeitadinha na agenda, sei que quando voltar de viagem vai ser uma loucura. Contratos e mais contratos para fechar, assinar e ler com atenção. E várias modelos para ver se meu corpo esquece oque é estar perto daquela deusa... Sei que é estranho mais estava com saudade da minha secretária gordinha e seus números complicados. Me acostumei a passar muito tempo ao seu lado, com ela me acalmando minutos antes de reuniões importantes, encantando os ricaços com seu modo eloquente de convencê-los que a nossa agência é sim, a melhor que eles podem conseguir. Meu pai iria amá-la. Solto o ar e volto a encarar aquele mix de palavras estranhas. Vou ficar com o tradicional mesmo, vinho tinto e uma massa. Já estava prestes a abaixar o cardápio quando ouço alguém coçar a garganta. Meu cenho franze e eu abaixo aquele dicionário disfarçado de cardápio. Arregalo meus olhos com a visão que tenho. Uma mulher em um vestido apertado nos lugares certos. O meu eu no passado a acharia gorda. Mas, não agora, eu mudei muito e ela é gostosa, muito gostosa. Quadris largos, s***s fartos... Sorriso bonito... Meu deus, ela é a Emily.  É o sorriso dela. — Emily, é você? — Meus olhos estão esbugalhados. Sei que é ridículo, mas, isso é estranho. Ela está linda! Os olhos livres daquele óculos, o cabelo solto em ondas largas, os lábios carnudos. Ela não estava nenhum pouco parecida com aquela mulher brega de antes. — O que aconteceu? Emily? — Questiono novamente, ela sorri e se senta como se não estivesse acontecendo nada. O seu tablet é posto à mesa, ela me encara, sem deixar de sorrir. — Só me vesti de forma diferente, minhas amigas doaram minhas roupas antigas para a caridade. — Dá de ombros e morde os lábios. Vou respirar... Samuel, isso é um sonho. — Mas, mudando de assunto... O senhor sabe que quando voltar teremos uma reunião com o editor-chefe da revista Luxus, certo? — Pergunta. E eu ainda estou tentando fazer a ficha cair. Essa é a minha secretária, a que se vestia como uma senhora de 80 anos da época medieval. Ela esconde esses atributos divinos a quanto tempo? Louvado seja Deus por exagerar nas proporções dela. — Sr. Ferraz? — Hã? — Estava perdido em algum canto da minha mente quando a voz dela me chamou atenção. O garçom nos serve um pouco de vinho branco e ela dá um gole, fechando os olhos e soltando um grunhido baixo. Encaro-a perplexo. Ela abre os olhos e sorri, limpando os cantos da boca com o guardanapo. — Sr. Ferraz, teremos uma reunião com o editor-chefe da revista Luxus, daqui a exatamente... — Olha para o calendário no iPad. - Cinco dias, creio que irá querer discutir os tópicos que iremos pôr em debate na reunião. — Balanço a cabeça, afirmando. Viro a minha taça em um só gole, o álcool queima minha garganta e me distrai do choque que é ver minha querida assistente vestida de forma diferente. Eu sou homem, cara. E estou frustrado por não lembrar de nada da noite passada. Solto o ar e vejo que Emily parece esperar uma resposta minha. Ela fez alguma outra pergunta? — Desculpe, estou um pouco distraído. — Ela entorta os lábios de forma simples e eu sinto que já vi isso em algum lugar. — Sr. Ferraz... — Já falamos sobre esses pronomes de tratamento, Emmy. Sou seu chefe e amigo. Pode me chamar de Sam. — Lembro, fazendo-a sorrir. Nossa comida chega e os olhos dela cintilam para a massa a sua frente. Tenho vontade de sorrir, ela encara o prato com tanto afeto que até dá pena de comer. — Eu adoro massa, Sam. — O ênfase no "Sam" me faz rir, ela me olha, já começando a comer. Faço o mesmo, me deliciando com o spaghetti a carbonara. Ela faz uma cara de desdém. — O spaghetti do restaurante da Rebeca é bem melhor. Esse não tem amor, vontade. O diferencial é grande. — Enxugo minha boca em um guardanapo. — É como sexo com um cara egoísta. — diz, fito-a com atenção. — Pode ser bom, legal... Mas, nunca vai ser esplêndido e te fazer ver estrelas. — Sorri. Bato palmas, sorrindo. É um pensamento inteligente. Ergo a sobrancelha, maquinando uma pergunta não muito casual. — Muitos caras egoístas já passaram por sua cama, Srta. Wither? — Passando a língua no lábio inferior, ela me encara. Seu sorriso é largo e divertido. Ela balança a cabeça negativamente, rindo baixo. Eu precisava quebrar o gelo e sei o quanto bem-humorada Emmy é. — Não, mas, trabalho com um. — Piscou e se virou para pegar algo na bolsa. Quando voltou a me olhar, seus óculos novos chamaram minha atenção. A armação preta com alguns detalhes em vermelho. Acentuando a imensidão do seu olhar castanho... Nunca teria percebido o quão linda ela é. Suas mãos ágeis digitam rapidamente no iPad. Observo-a, ela levanta seu olhar e sorri. — Não sou egoísta, acredite. E sexo vai ser a última coisa que vai querer conversar comigo...— Meu sorriso convencido toma conta, cruzo os braços em cima da mesa, ela continua olhando para o aparelho, mas, ergue uma sobrancelha, repreendendo o sorriso. —Costumo ser muito bom nessa arte, como você é com números e pessoas, sabe? — Dou de ombros, ela sorri e meneia levemente a cabeça. — Sexo é prazer mútuo é você ter prazer em dar prazer para a pessoa que está dividindo aquele momento com você. É entrega e total rendição, Sr. Ferraz. — Seus olhos encontram os meus e ela faz um biquinho.— Acho que você que não vai querer discutir sobre isso comigo. — Ela pisca novamente e levanta o tablet, um planejamento aparece. — Primeiramente, iremos discutir com ele sobre os valores de cada foto, dependendo da modelo. Se for com a enjoad... Quer dizer, "delicada" Megan Wikie, cobraríamos mais. Até porque ela é um dos carros chefe da Big Models... — Faço um gesto com a mão, pedindo para ela prosseguir. A mudança de assunto é enorme, saímos de um quase debate sobre sexo para discutir detalhes de uma reunião. — Se ele se sentir impactado com os preços, mostramos os números das estatísticas da última venda da revista que nós fizemos e que obviamente, foi altíssimo... — Ela sorri.—Ele vai aceitar, acredite. Teremos um belo contrato estendido com essa revista em poucos minutos. — Sua empolgação é tão nítida, o prazer que ela sente em fazer isso é explícito. Ama o que faz, mesmo que tenha que trabalhar com um louco como eu. — Você está mais distraído que o normal... Aconteceu alguma coisa? — Perguntou e eu dei um sorriso singelo, a preocupação dela me comove. — Não é nada, só a noite que foi longa demais e eu bebi whisky caro... — Ela ri com a última frase, presenciou um dos deslizes e teve que me convencer que eu não era o Arqueiro e que a caneta não era uma flecha pegando fogo. Ainda rindo, ela começa a tossir, faço uma careta. Ela toma um gole de água, me olhando com os olhos um pouco esbugalhados. Eu não fiz nada, juro! — Samuel, sabe me dizer se nessa massa tinha cogumelo? Eu sou completamente alérgica a qualquer tipo...— Sua mão vai para a garganta e ela puxa o ar, é impressão minha ou ela está ficando pálida? — Não precisa confirmar, minha alergia está atacando... — Ela tenta puxar mais ar e falha, abaixando a cabeça. Eu estava parecendo uma estátua, sua mão abana - Pega a injeção de adrenalina na minha bolsa, aplica na minha coxa... — Diz, subindo o vestido, a coxa lisa e grossa fica a mostra. Fico lá, babando. — LOGO, SAMUEL! - Corro, mexendo na bolsa dela. Batom, papéis, celular, camisinha, bala de menta... Isso é a injeção! Mostrei e ela afirmou, tentando respirar. Senhor, me desculpe por ferir essa escultura que ela chama de coxa... Viro o rosto e afundo a agulha na sua pele, apertando e liberando o líquido. Ela soltou um grunhido de dor e abaixou a cabeça. Os fios castanhos esparramados pela mesa, alguns paparazzos fotografam, faço cara feia e ele se esvaem como fumaça. O celular dela vibra na mesa, a foto de uma mulher loira com um copo da Starbucks na mão aparece. "Rebeca". De onde elas saíram? De um editorial de modelos plus size? — Emily? — Chamo, passando a mão levemente em seu ombro. — Huuuuum? — A voz dela é alta e ativa. Meu cenho franze. — Seu telefon... — Atende, por favor. A epinefrina está fazendo efeito... — Dessa vez, ela sussurra. Puxo o telefone, atendendo-o. — Alô? — Quem é? Cadê a Emily? — Calma, eu sou o chefe dela... Samuel Ferraz. — Ah, tá. Avisa a ela que eu liguei, Ok? Tome cuidado ou eu posso te castrar em dois segundos e dar suas bolas para o meu pitbull. Tenha uma boa tarde, tchau. — E desliga na minha cara, olho incrédulo para o telefone. Que mulher doida! Minhas bolas não vão virar comida de cachorro! Escuto uma risada, rapidamente olho, Emily sorri. Seu rosto estava meio avermelhado e os lábios um pouco salientes. Sorrio, ainda bem que ela está melhor! — Ela te ameaçou, não foi? — Pergunta e eu afirmo. — Ela não têm nenhum pitbull e eu não vou deixar ela te castrar, pode respirar. — Ela ri, abanando a mão e tomando um pouco de água. Olha para o relógio. Ela parecia tão diferente e tão ela mesma. Acho que vou me arrepender do quê eu vou dizer... — Quer jantar mais tarde? — DROGA! Porque tenho que ser tão impulsivo? — Sem cogumelos, prometo! — Completo, fazendo-a dar uma risada alta. Ela levanta, sem tirar o sorriso lindo dos lábios... Lindos? Oque está acontecendo com você, Samuel? — Olha, se for uma boa lasanha, eu aceito! — Passa a mão no tecido do vestido, abaixando-o. Ela tem curvas que qualquer homem sonhar se perder. Balanço a cabeça, tentando espantar os pensamentos sujos e me controlar. — Uma boa conversa acompanhada com vinho vai ser bom para distrair. — Ajeita a bolsa e eu me levanto, deixando o dinheiro da conta na mesa. Ela sai na frente, andando e eu admiro a sua b***a. Meu Deus, isso que é b***a de verdade. Corro até ela, que manca um pouco por causa da injeção. Ela sorri. — Obrigado por ter salvo a minha vida. Se você não tivesse injetado a epinefrina, eu poderia ter sofrido um choque anafilático e morrido. — Menciona e eu me arrepio. Ela me belisca. — Outch! — reclamo, alisando meu braço. — Ah, você está muito distraído. Só fiz isso para você acordar e me dizer a hora que vai me buscar... E, rimou! — Balanço a cabeça, pensei que o retardado era o Ricardo. Ela ri e empurra a porta, saindo do restaurante. A brisa bate em seu cabelo, projetando o perfume de orquídeas para as minhas narinas. Fecho os olhos. Ela se vira e eu a encaro. — Ás 22:00hrs. — Ela digita em seu celular e me olha, rindo. — Porque tão tarde? — Ela sorri, se inclinando. É a minha vez de sorrir torto e fitá-la com intensidade. — Porque vou querer sim, debater alguns assuntos com você. — Pisco e ela se vai.  Acho que essa noite vai ser bem interessante.
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