O sol mau tinha subido quando o território do Leste despertou com passos apressados, ordens secas e o som distante de camionetes ligando. Clara já tinha tudo planejado na sua cabeça desde a noite anterior. Um banho rápido, a mochila pequena com o básico e a intenção de ir direto para a cabana da avó, como fazia sempre que precisava respirar. Mas o cheiro de couro queimado e ferro afiado chegou antes que ela pudesse sequer chegar no portão dos fundos.
E então ela viu.
Dois lobos guerreiros vestidos de preto — armadura leve, ombros largos, armas de contenção nas costas. Soldados do Sul.
O estômago de Clara afundou e os seus instintos de loba rugiram em alerta.
— Clara Santos? — perguntou o mais alto, bloqueando a sua passagem.
Ela não respondeu. O coração dela martelava no peito, mas sua postura continuava firme. Mostrar medo era oferecer o pescoço.
A segunda guerreira chegou mais perto, com um sorriso torto que não alcançava os olhos.
— Ordens diretas do Alfa. Você está em confinamento, loba.
Clara congelou.
Confinamento?
Por quê? O que exatamente Paulo achava que ela tinha feito?
A resposta chegou em forma de perfume. Doce, caro, irritante.
Serena.
A loba platinada saiu detrás dos soldados como quem entra em um palco que lhe pertence. O cabelo claro balançava em ondas perfeitas, e os olhos azuis cintilavam maliciosamente.
— Acordou cedo, princesa da fronteira? — ela perguntou, inclinando a cabeça. — Ou só queria fugir antes que o Alfa descobrisse que você manchou o bolo sagrado da alcateia com wolfsbane?
Clara piscou devagar.
Então era isso.
— Você não tem noção nenhuma do que está falando, Sara — respondeu Clara, mantendo a voz baixa, controlada.
Sara deu uma risadinha debochada.
— E não é só isso. O Alfa ficou sabendo que você passou a noite fora, sabe-se lá fazendo o quê ou com quem… — ela arqueou uma sobrancelha, insuportavelmente satisfeita. — Você entende como isso soa? Uma fêmea solteira, desconhecida, manchando o território dele e sumindo até o amanhecer?
Os soldados deram um passo à frente, forçando Clara a recuar.
O peito dela queimava de indignação.
Ela sabia exatamente o que aquilo era.
Sara finalmente tinha conseguido uma desculpa perfeita para se livrar dela.
— Não tem nada para explicar — disse Sara, cruzando os braços. — O Alfa decidiu. Você está proibida de entrar ou sair da área residencial sem permissão. E até segunda ordem… está oficialmente confinada.
Clara sentiu o mundo se estreitar.
O rosto da avó apareceu em sua mente — doente, frágil, precisando dela.
E agora Paulo estava usando a força da alcateia inteira para trancá-la como uma criminosa?
Antes que ela pudesse reagir, uma voz atrás das árvores chamou seu nome:
— Clara! Clara, espera!
A amiga — a única amiga que Clara tinha no Leste — surgiu correndo, completamente sem fôlego. Ela se jogou entre Clara e os soldados, sem pensar duas vezes.
— Desculpem, senhores, mas eu preciso dela agora — disse, exagerando na voz tremida. — Minha febre voltou, eu tô com náusea, tontura… vocês sabem como é. Ela é minha cuidadora. Ela me acompanha. Sempre.
A guerreira do Sul revirou os olhos.
— Problema médico não cancela ordem de confinamento.
— Cancela sim — retrucou a amiga, apontando para o próprio crachá. — Eu sou paciente registrada. Ela é minha responsável direta. Podem checar os arquivos.
Clara não sabia se queria rir, chorar ou abraçar a amiga até quebrar suas costelas.
Sara, claramente contrariada, deu um passo à frente.
— Vocês duas acham que são espertas…
Mas a amiga continuou, teatral como uma atriz profissional:
— Sem ela eu vou desmaiar no chão. Eu tô quase vomitando aqui, pelo amor da deusa. Vai querer explicar isso pro Alfa? Ele já tá de mau humor hoje.
Silêncio.
Os soldados se entreolharam.
Serena estreitou os olhos, irritada.
Mas ninguém ousou contrariar uma ordem médica. Mesmo que fosse um truque.
— Tragam ela de volta em no máximo duas horas — falou Sara, envenenando cada sílaba. — Se não… Caio vai buscá-la pessoalmente.
O tom dela deixou claro que aquilo não era uma metáfora.
A amiga segurou a mão de Clara e puxou-a para longe assim que recebeu sinal de permissão.
Apenas quando chegaram à camionete velha atrás do refeitório, Clara finalmente respirou fundo.
— Você salvou a minha vida — sussurrou ela.
— Relaxe — respondeu à amiga, entrando no carro. — Agora entra. Rápido.
O motor engasgou duas vezes antes de pegar. Clara olhou para trás e viu Sara enviando uma mensagem furiosa pelo rádio.
Tarde demais.
Elas estavam fora.
**
— Duas horas, Clara. Duas horas, senão ele te caça — disse a amiga, acelerando pela estrada estreita que levava ao norte. — Você precisa de um plano sólido.
— Eu já tenho — respondeu Clara, encarando a janela enquanto a floresta passava como borrões verde-escuros. — Se eu conseguir chegar até a fronteira do Norte, posso barganhar abrigo. Eles não gostam do Sul, isso joga a meu favor.
— E Kauã? — a amiga perguntou, torcendo o volante. — Ele vai enlouquecer quando descobrir que você saiu.
Clara fechou as mãos em punhos.
Kauã não era o perigo imediato.
O perigo real tinha olhos prateados e um faro absurdo.
E ele estava furioso.
**
O rádio de comunicação da amiga chiou.
Estática.
Depois, uma voz grave.
Autoritária.
Perigosamente calma.
— Clara… — Paulo.
O coração dela disparou.
— Volte para casa — disse ele, a voz baixa como trovão abafado. — Agora.
Clara desligou o rádio antes de pensar duas vezes.
A amiga arregalou os olhos.
— Você é completamente louca.
— Eu preciso sair do território dele — insistiu Clara. — Não posso ficar presa. Não posso.
O carro avançou, ganhando velocidade na estrada de terra.
A brisa fria da manhã batia no rosto de Clara como tapas despertadores.
Mas, no fundo, ela sabia.
Paulo já estava vindo.
**
A quilômetros dali, Paulo estava parado diante da torre de comunicação da alcateia, as mãos apoiadas no painel frio enquanto um soldado relatava:
— Alfa, o cheiro dela foi detectado no ponto de teletransporte. Parece que ela está indo para o Norte.
Paulo fechou os olhos.
Não de raiva.
Mas de algo pior.
Algo mais fundo.
Mais primitivo.
— Mobilize três equipes — ordenou ele, a voz sem vida. — Quero bloqueio em todas as rotas até a fronteira.
— Sim, Alfa.
Paulo respirou fundo, mas seu lobo estava inquieto, rondando dentro dele como uma tempestade presa em uma jaula.
A pequena loba realmente achou que podia fugir dele.
Uma risada breve escapou.
— Ela tem coragem… — murmurou.
Mas coragem não era suficiente para mantê-la viva.
Não com lobos farejadores seguindo o seu rastro.
Não com Kauã rondando o território.
E não com ele, Paulo, já tendo decidido que não a deixaria ir.
Ela é minha para lidar.
Minha para punir.
E minha para entender.
Ele caminhou até a saída da base, tirou a camisa, e deixou o seu lobo tomar o controle.
Em segundos, o Alfa do Sul — o mais forte, o mais temido, o mais rápido — estava na trilha dela.
A caçada tinha começado.
E, desta vez…
…Ela não teria para onde correr.