— ANTES DA TEMPESTADE

1000 Palavras
O Norte despertou diferente no dia seguinte à marcação. Não era euforia. Era alinhamento. Os lobos se moviam com propósito claro, como se algo antigo tivesse sido reativado. Clara percebeu isso logo ao amanhecer, ao caminhar pelos corredores de pedra da fortaleza. Os olhares que recebia não eram curiosos nem avaliadores. Eram respeitosos. Alguns carregavam emoção contida. Outros, alívio. Ela não era mais uma loba acolhida. Era sangue do Norte. Vitor a acompanhava em silêncio. Não precisava explicar nada. Apenas estar ali já preenchia um espaço que Clara nunca soubera que estava vazio. Ele apontava lugares, contava fragmentos, pequenas histórias do cotidiano antigo. Não falava do sequestro. Não falava da perda. Ainda não. Clara sentia tudo se encaixar aos poucos. O cheiro das ervas que cresciam no pátio interno. A forma como o vento batia na muralha leste. A disposição das casas mais antigas. Tudo despertava ecos silenciosos. Paulo observava à distância. Não por desconfiança, mas por respeito. Sabia que aquele reencontro não precisava dele no centro. Ainda assim, sentia o peso do que vinha. A união deles não era apenas simbólica. Agora era estratégica. A confirmação chegou antes do meio-dia. Kauã havia reunido forças nas fronteiras do antigo Leste. Não mais em pequenos grupos. Era um exército. Guerreiros marcados à força. Jovens lobos manipulados. Mercenários sobrenaturais atraídos por promessas de poder e território. Ele não atacaria o Norte primeiro. Atacaria o Sul. Paulo soube imediatamente o motivo. Era um desafio direto. Um convite à guerra total. O conselho foi convocado. Alfas do Norte, Betas experientes, estrategistas antigos e líderes de clãs menores se reuniram no salão principal. Clara sentou-se ao lado de Paulo, não atrás, não à frente. Ao lado. Vitor tomou a palavra. Disse que o ataque ao Sul era inevitável. Disse que Kauã precisava quebrar Paulo para enfraquecer a aliança antes que ela se consolidasse. Disse que recuar não era uma opção. Paulo concordou. Disse que o Sul estava preparado, mas que a presença do Norte mudaria o curso da batalha. Disse que não subestimaria Kauã novamente. Clara pediu a palavra. Disse que Kauã não buscava apenas poder. Buscava posse. Disse que enquanto acreditasse que ainda podia alcançá-la, continuaria avançando sem medir consequências. Disse que ela não seria o prêmio da guerra. Seria a linha final. Kauã estava obcecado por Clara, ele sabia que se a tivesse ao seu lado seu poder aumentaria. Houve silêncio. Depois, assentimentos. O plano foi traçado com precisão. O Norte avançaria pelo flanco leste, cortando rotas de suprimentos. O Sul sustentaria a linha principal. Clara ficaria no centro, coordenando cura, comunicação e defesa energética. Não por fragilidade, mas por alcance. Paulo não gostou da ideia. Clara não cedeu. Ela não era mais alguém a ser protegida à margem. Era Luna Alfa. Clara agora tinha uma força fora do comum. Antes da partida, Clara procurou Claudio. O jovem aprendiz. Ele estava no pátio de treino, repetindo movimentos com intensidade excessiva. Quando a viu, parou imediatamente. Ela disse que ele ficaria no Norte durante a batalha. Ele reagiu com indignação. Disse que podia lutar. Disse que estava pronto. Clara foi direta. Disse que ele era necessário ali. Disse que nem toda guerra se vence no campo de batalha. Disse que alguém precisava manter a estrutura viva caso tudo desse errado. Claudio entendeu. Não gostou, mas entendeu. Ela colocou a mão no ombro dele e disse que confiava nele. Aquilo foi suficiente para ele se conformar e se sentir especial. A marcha começou ao entardecer. O céu estava pesado, coberto por nuvens densas. O cheiro de chuva misturava-se ao de ferro e terra revolvida. Clara sentia a loba alerta, forte e focada. Paulo caminhava à frente, postura firme, olhar fixo. Não havia máscara. Não havia disfarce. Apenas liderança clara. Quando alcançaram a fronteira do Sul, os primeiros sinais de destruição já estavam lá. Árvores queimadas. Postos avançados destruídos. Marcas de garras profundas demais para serem naturais. Kauã havia chegado primeiro. O ataque veio ao amanhecer. Não houve aviso. O chão tremeu quando a primeira linha inimiga avançou. Uivos rasgaram o ar. Clara ativou as runas de proteção enquanto os feridos começaram a chegar. Trabalhou sem parar. Mãos firmes. Mente clara. Corpo obediente. Ela sentia Paulo em combate mesmo sem vê-lo. O vínculo transmitia tensão, foco e fúria controlada. Horas se passaram. O campo se encheu de sangue. O Norte avançou conforme planejado. O Sul sustentou. Mas Kauã não estava na linha de frente. Clara sentiu quando ele se aproximou. O ar mudou. O instinto gritou. Ela se virou a tempo de vê-lo emergir entre a fumaça e o caos. Os olhos dele estavam diferentes. Não havia apenas obsessão. Havia desespero. Ele a chamou pelo nome antigo. Disse que tudo aquilo era por ela. Disse que se ela tivesse ficado, nada disso teria acontecido. Clara respondeu com calma. Disse que ele nunca quis parceria. Quis controle. Ele avançou. A luta foi brutal. Clara não recuou. A loba assumiu parcialmente. Força, velocidade, precisão. Kauã era poderoso, mas instável. Cada golpe carregava emoção demais. Paulo chegou quando Kauã tentou atingi-la pelas costas. O confronto entre os dois Alfas foi curto e decisivo. Kauã caiu. Não morto. Derrotado. Paulo não o matou. Disse que o poder que ele buscava não merecia esse fim. O exército do Leste se desfez sem liderança. A guerra terminou ali. O silêncio depois da batalha foi estranho. Clara sentou-se no chão, exausta. Paulo ajoelhou-se diante dela, tocando sua testa com a dele. O vínculo pulsava estável. Ele perguntou se eles estava bem, se havia se machucado, seu olhos se encontraram e ali dizia tudo, eles ficaram assim por um tempo sem disser nada, mas dizendo tudo. Eles venceram. Mas sabiam que o verdadeiro desafio começava agora. Reconstruir. Unificar. Curar. Clara olhou para o horizonte. Não via mais fuga. Não via mais medo. Via futuro. E pela primeira vez, ele parecia possível. Eles agora iam recomeçar. Novas expectativas, novas histórias, novos recomeço e agora como tinha que ser, juntos com seu amor e sua família.
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