Episódio 17

561 Palavras
A produtora da entrevista chegou com uma pequena equipe, discreta, profissional e simpática. Elliot fez questão de organizar tudo com um canal de TV especializado em histórias humanas, para não transformar o momento em espetáculo. — A ideia é gravar em casa, com vocês em ambiente íntimo, mas sem expor a Ivy diretamente — explicou a jornalista, uma mulher de olhos gentis chamada Annalise. Camila assentiu, sentindo as mãos suadas. Ela passou horas pensando no que dizer. Em como contar sua história sem parecer uma vítima ou oportunista. Porque ela não era nenhuma das duas. Usava um vestido simples, bege claro, e o cabelo solto com ondas suaves. A maquiagem era leve, feita por uma profissional chamada por Elliot para "realçar o que você já tem", como ele disse sorrindo. No estúdio improvisado na sala, Camila se sentou sozinha no sofá. As luzes se acenderam. A câmera foi ajustada. E quando a primeira pergunta veio — "Quem é Camila Duarte?" — ela respirou fundo e começou: — Eu sou brasileira. Vim de um bairro simples em Belo Horizonte. Sou filha de uma professora e de um eletricista. Me formei em pedagogia e decidi vir para os Estados Unidos quando minha mãe morreu... porque não tinha mais nada que me prendesse lá. Só sonhos. Sua voz não tremia. Seus olhos sim, um pouco. — Trabalhei como babá em várias casas. Sofri preconceito, sim. Tive medo, muitas vezes. Mas sempre coloquei o bem-estar das crianças que cuidei acima de tudo. Inclusive da minha própria vida. — E como conheceu Elliot Lancaster? Ela sorriu, tímida. — Por uma entrevista de emprego. Mas eu conheci de verdade o homem que existe atrás daquele sobrenome só depois de ver como ele olhava pra filha dele. Aquilo me desarmou. Me fez... ficar. A entrevista durou pouco mais de trinta minutos. Ao final, Camila segurava a mão de Elliot, que entrou para os últimos minutos da gravação. — Eu não sei onde tudo isso vai dar. Mas eu sei o que sinto. E se ser julgada por amar essa família é o preço... então eu pago com orgulho. Quando as luzes se apagaram, houve um silêncio. Annalise sorriu. — Você vai mudar a narrativa, Camila. Com verdade. Mas a verdade, às vezes, não é suficiente. E Chelsea já sabia disso. Chelsea jogou o controle remoto no sofá. — i****a — murmurou, vendo o trecho da entrevista ao vivo. — Está se fazendo de santa, como se nunca tivesse escondido nada. Ela pegou o celular e ligou para Nicolas. — Já sabe o que fazer? — Já. Mas vai me custar. Eu ainda tenho um pouco de noção, Chelsea. — Então rasgue esse pouco e me escute. Você quer dinheiro? Quer fama? Ou quer ela de volta? Do outro lado da linha, Nicolas respirou fundo. — Ela tá envolvida com esse cara. Tem uma filha no meio disso. Eu... — Uma filha que não é dela. Você pode usar isso. — Eu não vou fazer isso com a criança. Chelsea sorriu, venenosa. — Claro que não. Mas com a Camila? Ah, com ela você vai. Ele ficou em silêncio por alguns segundos... e desligou. Chelsea riu baixo, satisfeita. Mas o que ela não sabia... é que Nicolas estava dividido. E quando homens quebrados se sentem rejeitados, o que sobra deles pode ser ainda mais perigoso do que ela imaginava.
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