Episódio 6

1353 Palavras
— Arquiteto, a sala está pronta para receber o novo contador. Informa a minha secretária. — Os executivos chegarão em cerca de dois minutos. — Estarei aí em breve. — Entendido. Tive uma noite tensa. Tentei pedir um tempo para Camila, mas ela não entendeu nada e ficou histérica. Passo a mão no rosto, preocupado, e decido parar de pensar nisso. Ajeito o meu casaco e vou para a sala de reuniões. Eu achava que estava no controle da minha vida, achava que tinha conquistado o universo por ter dinheiro e a mulher dos meus sonhos. Mas dizem que você nunca sabe o que tem... Até que eu a encontra naquela m*aldita sala de conferências com um vestido azul apertado, com o cabelo solto e um olhar mais frio que gelo. Laura, a minha ex-noiva, estava parada na minha frente, cumprimentando os executivos. A mulher que eu arruinei, deixando-a com uma aparência ridíc*ula poucos dias antes do nosso casamento. O meu coração disparou quando a vi sentar. Nem as janelas escuras, nem as janelas do chão ao teto, nem os números do contrato multimilionário que estávamos prestes a assinar conseguiram me distrair. Porque lá estava ela. Ela parecia tão deslumbrante, linda e intocável. Eu era Arte Antonov, o arquiteto mais influente do país, uma mansão em cada capital europeia... e a minha língua paralisou com o que vi. — Bom dia a todos. Disse ela, com a voz firme e profissional. O meu olhar se fixava em cada movimento dela como um cachorro faminto. Aquele andar confiante, aqueles quadris que se moviam com elegância. O toque leve da maquiagem, o tom suave dos lábios, o blazer ajustado. Deus. Desde quando ela é tão bonita? — Laura Levoh, contadora designada para o projeto. É um prazer. Ela acrescentou, estendendo a mão, sem nem mesmo me olhar nos olhos. — Arquiteto Arte Antonov. Digo, quase sem palavras. — Prazer em conhecê-lo, Sr. Antonov. Ela diz. E nesse momento. Ali mesmo, ela me matou. Porque aquela mão, a mesma mão que um dia acariciou as minhas costas enquanto eu adormecia, agora era apenas um aperto de mão profissional. Rígido, frio, mais distante que a lua. — O prazer é meu. Consegui murmurar, sentindo o meu coração afundar dentro de mim. Ela, com os seus cabelos loiros como o sol, não sorriu para mim, não hesitou, não vacilou. Nem um m*aldito tremor nos seus lábios. Nem uma falha na voz. Como se ela nunca tivesse me amado. Como se ela nunca tivesse chorado antes. E eu, como um to*lo que recebeu carma, não conseguia parar de olhar para ela. Ao longo da apresentação dediquei-me a estudá-la. Como ela tomou notas. Como ela cruzou as pernas. Como ele m*al torcia o nariz quando algo não cabia no PowerPoint. Mas acima de tudo, como ele me evitava, como se eu não existisse. Ela não me olhou nem uma vez durante toda a reunião. Até que finalmente, quando todos começaram a se levantar, eu me aproximei. — Laura. Eu disse suavemente, como se o seu nome ainda fosse uma prece. Ela finalmente olhou para mim. Por apenas um segundo. — Sim? Deus. Essa frieza. Essa indiferença. Esse profissionalismo exato e medido, como uma espada bem afiada. — Podemos falar? Sozinhos. — Sobre o contrato? Você pode coordenar isso com o Sr. Romero. Discutiremos quaisquer preocupações fiscais na próxima reunião. — Não. Não é sobre o contrato. Ousei. Ela piscou. Como se ela sentisse pena de mim. — Então acho que não temos nada para conversar, Sr. Antonov. Senhor Antonov. Foi a isso que eu fui reduzido. E eu me senti como um estranho na sua boca. — Laura, por favor… Eu disse em voz baixa, rezando para que os outros não nos ouvissem. — Eu só quero… — Que? Ela interrompeu, sem levantar a voz, mas me encarando como um punhal. — Dizer o quanto você está feliz com Camila? Me dizer que você escolheu bem? A minha boca ficou seca. — EU... — Estou com pouco tempo. Se precisar de mais alguma coisa, por favor, me mande um e-mail. Diz ela, indo embora. Com licença... — Não estou feliz. Deixo escapar. Ela sustentou o meu olhar pela primeira vez em toda aquela m*aldita reunião. E naquele instante, vi algo nos seus olhos. E isso me assustou. O medo que os covardes sentem quando a realidade os atinge. — Sinto muito por isso. Ela respondeu. — Mas isso não tem mais nada a ver comigo. Ela deu um passo para trás, pronta para sair. — Você tem alguém? Perguntei porque sou idi*ota, porque sou masoquista, porque precisava saber. Ela sorriu para mim. O primeiro sorriso do dia inteiro. — Sim. Eu tenho tudo o que preciso. E ele foi embora. Ele me deixou parado no meio do meu império. Com o meu terno de grife, com meus prêmios, meus milhões e minha suposta mulher perfeita. E um vazio tão grande no meu peito que não sei se algum dia conseguirei preenchê-lo. Laura não é a mesma. Ela é diferente. É inalcançável. E eu... Eu me ajoelharia no meio desta sala só para ouvi-la dizer o meu nome com amor novamente. Mas é tarde demais. E não tenho ninguém para culpar além de mim mesmo. (...) Dias depois. Eu não conseguia dormir e não conseguia me concentrar. Eu tinha lido o mesmo relatório três vezes e ainda não tinha ideia do que ele dizia. Eu tinha uma reunião com investidores em menos de duas horas, mas minha mente ainda estava em outro lugar. Nela, na Laura. Dois dias se passaram desde a sua chegada. Já faz dois dias que ela fala comigo como se eu fosse um estranho. Como se o nosso relacionamento nunca tivesse existido. Como se eu não fosse o homem que ela estava prestes a amar para o resto da vida. Abri o navegador, sem pensar, procurando pelo nome dela. Laura Levoh. Nenhuma postagem recente. Nenhuma conta ativa. Nem i********:, nem f*******:, nem Twitter. Apenas algumas fotos antigas de grupos da faculdade e uma conta do LinkedIn que não era atualizada há mais de dois anos. Mais de dois anos. Exatamente o tempo desde aquele casamento que nunca aconteceu. Passei a mão no rosto. Eu a machuquei o suficiente para ela desaparecer do mundo? Como apagar completamente a sua presença digital? Isso me deixou com raiva, não dela, claro. De mim. Peguei o telefone. — Silvana. Eu disse, ligando diretamente para a minha secretária. — Em que área ficava o escritório da Srta. Levoh? — No oitavo andar, área financeira. Ela respondeu imediatamente. — Gostaria que eu lhe enviasse o e-mail com o local para quando você precisar assinar o contrato? — Não. Mude o seu escritório. — Desculpe? — Coloque-a no décimo oitavo andar, no escritório vazio em frente ao meu. — O senhor mesmo deixou claro que o décimo oitavo andar é exclusivo da presidência. Que não queria ninguém por perto. — Estou dizendo que a quero na frente do meu escritório, Silvana. Eu disse, baixando o tom, mas com firmeza. — Algum problema com isso? Houve um breve silêncio. Eu conseguia imaginá-la engolindo. — Não, senhor. Informarei o jovem que será seu assistente para se estabelecer aqui. — Jovem? — Sim. O seu assistente designado. Diego Corvalán. Ele tem vinte e oito anos. Ele fazia parte da equipe de vendas e foi recomendado para trabalhar diretamente com a contadora. Fiquei em silêncio por alguns segundos. — Não. Não quero nenhum assistente homem para a Srta. Levoh. Designe uma mulher. — Senhor? — Mova esse Corvalán para outro departamento. Finanças ou questões legais, não me importa. Procure uma secretária, com experiência. E seja discreta. — Entendido, senhor. Respondeu Silvana, com uma mistura de surpresa e medo na voz. Desliguei sem dizer mais nada. Eu me levantei da cadeira. Atravessei o escritório. Parei em frente à janela. Eu estava exagerando? Talvez. Mas não me importei. Laura não iria trabalhar dez andares longe de mim. Eu não ia andar por aí com um homem grudado na mesa. Isso não iria acontecer enquanto eu estivesse definhando por dentro. ‍
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