O cheiro de gasolina e sangue fresco impregnava o ar denso do galpão abandonado. Hideo mantinha a bota pesada pressionada contra o peito do homem caído, o olhar frio e implacável. Os seus homens, ao redor, finalizavam a limpeza: os traidores que haviam tentado roubar a carga agora jaziam inconscientes ou imóveis pelo chão.
As vezes ele se cansava de ter que lidar com aquilo, mas era um risco que ele sempre corria já que as pessoas que o roubavam não sabiam quem era o dono das mercadorias que estavam roubando. Hideo tinha os seus negócios a parte dos do seu pai, e ele não costumava usar o seu nome neles, o que acabava por atrair pessoas que pensavam que poderia tirar vantagens dele.
— Fale última vez. Quem está por trás disso? — rosnou Hideo, apertando ainda mais a pressão. O homem tinha os olhos arregalados enquanto tentava sair da posse de Hideo.
O homem gaguejou, suando frio, mas antes que pudesse terminar a frase, Jin se aproximou apressadamente, o telefone na mão.
— Chefe... você precisa ver isso.
Hideo olhou para Jin com irritação, pronto para lhe ordenar que esperasse, mas algo na expressão do seu fiel amigo o fez reconsiderar. Tirou o pé do peito do homem, caminhando até Jin. Nos últimos dias ele andava mais extresado que antes, e não saber a razão daquilo o estava deixando cada dia mais louco.
Assim que os seus olhos recaíram sobre a tela, o mundo pareceu parar.
Lá estava Sayuri.
Sorrindo.
Agarrada a outro homem, um desconhecido que a tocava como se fosse dono dela.
Hideo sentiu o sangue gelar nas veias. Um estalo surdo ecoou dentro dele, como o som de vidro a estilhaçar. O coração, antes gelado e indiferente, deu um salto doloroso no peito. Era como se seus olhos se recusassem a ver realmente o que acontecia naquelas fotos, o sorriso dela era como um soco em seu peito lhe roubando o ar.
O homem debaixo dos seus sapatos se contorceu, mas Hideo nem percebeu. Tudo o que via eram as fotos — Sayuri nos braços de outro. A suas mãos apertavam com tanta força o telefone de Jin que ele pensava que poderia o quebrar a qualquer momento.
— Quem é ele? — perguntou em voz baixa, perigosa. O seu maxilar trincando com tanta força que parecia que os seus dentes iriam partir ao meio.
Jin hesitou antes de responder:
— Matteo Ramiro. Mexicano. Herdeiro de um cartel poderoso.
As mãos de Hideo cerraram-se em punhos. Ele não sabia o que o enfurecia mais: o fato de Sayuri estar com outro homem ou o fato de que ela parecia… feliz.
“Depois daquele beijo...”
O pensamento atravessou a sua mente como uma adaga. Depois daquele momento que partilharam, Hideo vinha se sentindo diferente — mais alerta, mais vivo quando estava perto dela. Algo que não queria admitir, nem para si mesmo.
E agora...
Agora tudo era raiva. Dúvida. Ciúmes. Mas ele não queria aquele sentimento, ele deveria estar feliz por ela ter arrumado outra pessoa, o que significava que em breve estaria livre daquele compromisso odioso. Mas não era aquilo que o seu coração acreditava,e pensar que ele ficaria sem ela o fazia se sentir de alguma forma vazio.
— Que merda é essa? — vociferou, jogando o telemóvel para Jin, que o pegou no ar, assustado. Jin olha o telefone inteiro suspirando em alívio.
O homem caído gemeu algo, tentando aproveitar a distração de Hideo para fugir. Um erro fatal. Sem pensar, Hideo sacou a pistola e atirou uma vez, friamente, sem desviar o olhar do vazio à sua frente.
A raiva queimava sob a sua pele, misturada a um sentimento que ele se recusava a nomear. Sayuri deveria ser apenas uma peça no seu tabuleiro. Nada mais. Então por que aquele aperto no peito? Por que aquela dor latejante ao vê-la com outro?
— Quero informações sobre esse Matteo — disse em tom de ferro. — Onde ele mora, com quem fala, tudo.
Jin apenas assentiu, compreendendo o perigo no tom do chefe. Ele nunca o tinha visto daquela forma, e desconfiava que Hideo não era assim tão imune a Sayuri quanto ele pensava.
Hideo virou-se, a sombra de um homem dividido entre o controle que sempre exerceu sobre os seus sentimentos e a fúria caótica que ameaçava explodir. Não sabia ainda o que faria com Sayuri, mas de uma coisa tinha certeza:
Ela não escaparia das consequências.
— O que vai fazer? — Pergunta Jin correndo atrás dele.
— Não sei, talvez eu devesse incendiar a p***a da casa desse desgraçado! — Diz chutando a porta do carro com raiva.
— Pensei que você queria que ela o deixasse em paz. — Diz Jin escondendo o sorriso que ameaçava aparecer no seu rosto.
— Eu quero! Mas não desta forma. Ela está manchando o nome da minha família ao sair com esse cara por ai. — Responde entrando no carro e partindo.
Jin observa seu amigo fora de si e ri. Hideo poderia não perceber, mas ele percebia e sabia que aquela recusa dele não duraria muito. Com um suspiro ele retorna para dentro do galpão.
A cabeça de Hideo dava voltas e mais voltas. O seu coração apertado ao se lembrar das fotos que tinha visto. Ele precisava admitir que Sayuri ficava incrível com roupas de couro, mas não desejava que fosse por causa de outro homem. Enquanto o seu carro disparava pelas ruas da cidade o seu telefone toca.
— O que foi p***a! — Diz Chateado.
— Pelo que vejo você já sabe. — Diz o Haruki rindo. Aquilo apenas deixa Hideo ainda mais irritado.
— Não tenho tempo para suas brincadeiras pai, estou resolvendo algo. — Diz de forma ríspida.
— Tenha mais respeito Hideo, não foi assim que eu o criei! E não adianta ficar bravo com Sayuri, afinal, você deixou bem claro que não a queria. — E lá estava o seu pai esfregando sal em sua ferida sem nenhuma hesitação.
— Não quero ouvir os seus sermões agora pai, conversamos outra hora. — Diz ele desligando o telefone, a sua paciência estava curta e tudo o que ele queria era esquecer que tinha visto aquelas malditas fotos.