CAPÍTULO 21 — O FILHO DO DONO
Narrador: Vicente
Mirella não disse quase nada durante o resto do caminho.
E aquilo estava começando a me incomodar pra c*****o.
A garota que, minutos antes, discutia comigo por causa de um atraso e me respondia como se não tivesse medo de ninguém agora estava quieta, olhando pela janela e apertando a alça da bolsa contra o peito.
Eu conhecia aquele tipo de silêncio. Não era timidez. Era desconfiança.
E, sinceramente, não gostei de perceber que era eu quem estava provocando aquilo.
— Tu vai ficar calada até chegar em casa? — perguntei, mantendo os olhos na rua.
— Estou olhando o caminho.
— Tu conhece a Rocinha melhor do que eu, p***a. Não precisa ficar olhando cada esquina.
Ela virou o rosto na minha direção.
— Você acabou de descobrir que eu moro lá. Não precisa fingir que me conhece.
A resposta veio seca.
Apertei o volante.
— c*****o, Mirella. Eu só fiz uma pergunta.
— E eu respondi.
Soltei o ar pelo nariz. Aquela mulher tinha um talento impressionante para encerrar qualquer conversa antes mesmo de ela começar.
Continuei dirigindo até a rua que ela havia indicado. Quando parei perto de sua casa, olhei ao redor com mais atenção.
O lugar era simples, muito diferente das residências espaçosas às quais eu estava acostumado. Havia roupas estendidas em algumas janelas, vizinhos conversando perto dos portões e crianças correndo para escapar das últimas gotas de chuva.
Nada daquilo era novidade para mim. Eu conhecia a comunidade, suas ruas e a maneira como as pessoas viviam.
Mas havia algo diferente em estar ali levando Mirella para casa.
Pela primeira vez, eu estava enxergando um pedaço da vida dela que não aparecia nos nossos encontros.
Ela soltou o cinto e pegou a bolsa.
— Obrigada pela carona.
— Já vai descer?
Mirella me olhou, confusa.
— Você queria que eu ficasse aqui dentro fazendo o quê?
— p***a, garota, tu não consegue conversar sem me dar uma resposta atravessada?
Ela quase sorriu, mas segurou a expressão.
— Consigo. Só estou cansada.
Aquela resposta me fez prestar atenção nela outra vez.
O rosto ainda demonstrava o desgaste do dia, e os ombros pareciam pesados sob a bolsa. Eu sabia que ela tinha trabalhado antes de ir à faculdade. Também sabia que precisava estudar depois de chegar em casa.
E, mesmo assim, tinha passado boa parte da sessão tentando me ensinar alguma coisa.
— Tu trabalha todo dia? — perguntei.
— Quase todos.
— E ainda consegue estudar?
— Preciso conseguir.
A maneira como ela disse aquilo não parecia uma reclamação. Era apenas um fato.
Fiquei alguns segundos sem responder.
Eu tinha responsabilidades também. Meu pai não me deixava esquecer disso. Mas minha realidade era completamente diferente. Eu nunca precisei calcular se teria dinheiro para pagar o transporte até a faculdade ou decidir entre comprar material de estudo e economizar para uma conta.
Mirella fazia tudo isso e ainda parecia determinada a não depender de ninguém.
— Tu não precisa fazer tudo sozinha — falei.
Ela me encarou imediatamente.
— Não começa.
Franzi a testa.
— Começar o quê?
— A falar como se soubesse do que eu preciso.
A resposta me atingiu de um jeito inesperado.
— Eu só estou tentando conversar contigo.
— Então conversa. Não tenta resolver minha vida.
Fiquei quieto.
Ela abriu a porta, mas antes de sair virou o rosto para mim.
— E, sobre o que aconteceu no carro… Eu não estou dizendo que você é uma pessoa r**m. Eu simplesmente não conheço você o suficiente para confiar.
Aquela frase me fez apertar o maxilar.
— Tu acha que eu sou uma ameaça?
Mirella demorou um pouco para responder.
— Eu acho que não conheço você o suficiente para julgar o homem que você é. Conheço apenas o mundo que o cerca. E esse mundo já me fez sofrer demais.
Não consegui dizer nada.
Ela não estava me acusando de alguma coisa que eu tivesse feito diretamente. Não estava tentando me provocar nem me humilhar.
Estava apenas sendo sincera.
E, por algum motivo, aquilo doeu mais do que se ela tivesse me chamado de qualquer nome.
— Tá — respondi, por fim.
Mirella assentiu.
— Boa noite, Vicente.
— Boa noite.
Ela fechou a porta e caminhou até a entrada de casa.
Fiquei observando até ter certeza de que havia entrado em segurança. Só então voltei a olhar para a rua.
Eu deveria estar irritado.
Afinal, não gostava de ser tratado como alguém perigoso sem que a pessoa me conhecesse de verdade.
Mas, no fundo, sabia que Mirella não tinha obrigação de confiar em mim.
Eu é que ainda não entendia por que me incomodava tanto que ela não confiasse.
O celular tocou antes que eu conseguisse sair da rua.
Era meu pai.
Atendi pelo viva-voz.
— Fala, pai.
— Onde tu tá?
— Resolvi umas coisas na faculdade. Tô voltando.
— Que horas tu chega?
Olhei para o relógio do painel.
— Daqui a pouco.
Vitor ficou em silêncio por alguns segundos.
— Preciso falar contigo quando chegar. Tem uns assuntos que não podem esperar.
— Beleza.
— E não vem me dizer que está ocupado com a faculdade de novo. Eu sei que tu tem aula, mas também tem responsabilidades aqui.
Revirei os olhos.
— Pai, eu já falei que vou chegar.
— Então chega. Estou te esperando.
A ligação terminou.
Soltei um palavrão baixo e voltei a dirigir.
Eu amava meu pai, mas às vezes sentia que ele enxergava minha vida como uma lista de obrigações que eu precisava cumprir. Faculdade, responsabilidades na comunidade, reuniões, decisões. Tudo parecia ter um prazo, uma cobrança e uma consequência.
Eu sabia que ele queria me preparar para o futuro.
Só não sabia se queria o futuro que ele tinha planejado para mim.
Quando cheguei em casa, encontrei alguns homens conversando na área externa. Cumprimentei todos rapidamente e entrei.
Meu pai estava na sala, com o celular sobre a mesa e uma expressão séria.
— Até que enfim — comentou.
— Boa noite pra você também.
Ele ergueu os olhos.
— Onde tu estava?
— Já falei. Na faculdade.
— E por que demorou tanto para voltar?
Tirei a mochila do ombro e a deixei no sofá.
— Tive que dar uma carona para uma pessoa por causa da chuva.
Vitor me observou por alguns segundos.
— Uma pessoa?
— É, pai. Uma pessoa.
— Quem?
Soltei uma risada curta.
— Vai começar um interrogatório agora?
— Estou perguntando porque tu chegou com a cabeça longe. Te conheço, Vicente.
Passei a mão pelo cabelo.
O problema era justamente esse. Meu pai me conhecia bem demais, mas havia coisas que eu não estava disposto a explicar.
Principalmente porque eu mesmo ainda não sabia como explicar.
— É uma garota da faculdade — respondi.
Vitor ergueu uma sobrancelha.
— Ah, agora entendi.
— Não entendeu p***a nenhuma.
Ele riu discretamente.
— Tu está ficando irritado muito rápido. Isso costuma acontecer quando alguma coisa está incomodando.
— O que está me incomodando é chegar em casa e já ter alguém perguntando da minha vida.
Meu pai ficou sério.
— Eu pergunto porque me preocupo contigo. Não precisa transformar tudo numa guerra.
Aquelas palavras me fizeram respirar fundo.
Eu não queria discutir com ele naquela noite. Estava cansado, confuso e com a cabeça cheia demais.
— Depois a gente conversa, pai. Vou tomar um banho e comer alguma coisa.
Vitor me observou por mais alguns segundos antes de assentir.
— Tudo bem. Mas amanhã precisamos conversar sobre suas responsabilidades.
— Eu sei.
Peguei a mochila e subi para o quarto.
Assim que fechei a porta, tirei a camiseta molhada que ainda usava por causa da chuva e fui direto para o banheiro.
A água quente ajudou a relaxar os músculos, mas não conseguiu afastar a imagem de Mirella sentada no banco do passageiro, olhando para mim como se estivesse tentando descobrir se devia ter medo.
Eu não queria que ela tivesse medo de mim.
Também não queria precisar provar alguma coisa para ela.
Mas, pela primeira vez em muito tempo, senti vontade de ser compreendido por alguém que não fazia parte do meu círculo.
E isso era uma merda.
Porque eu m*l conhecia aquela garota.
Depois do banho, vesti uma camiseta limpa e desci para comer. A cozinha estava quase vazia, e a casa parecia mais silenciosa do que de costume.
Peguei alguma coisa para comer e me sentei à mesa, mas m*l prestei atenção no prato.
Meu pai apareceu alguns minutos depois.
— Ainda pensando na garota?
Levantei os olhos imediatamente.
— Tu não tem mais nada pra fazer, não?
Ele soltou uma gargalhada.
— Tenho. Mas é divertido ver tu perdendo a paciência por causa de uma pergunta.
— Não estou perdendo a paciência por causa dela.
— Então é por causa de quem?
Olhei para ele.
— Pai, na moral…
Vitor ergueu as mãos, rendendo-se.
— Está bem. Não vou perguntar mais nada.
Agradeci mentalmente pelo silêncio e terminei de comer.
Quando subi novamente, resolvi conferir os exercícios que Mirella havia me passado. Abri o caderno e encontrei uma anotação dela no canto de uma página: Leia o enunciado com atenção antes de começar.
Sorri sozinho.
Até no papel aquela garota parecia estar me dando ordens.
Peguei o celular e abri nossa conversa.
A última mensagem ainda era a despedida dela.
Pensei em escrever alguma coisa. Perguntar se tinha chegado bem, talvez. Ou dizer que eu não tinha gostado de saber que ela me enxergava com desconfiança.
Mas nenhuma das opções parecia boa.
Não queria que ela achasse que eu estava cobrando explicações. Muito menos que confundisse minha curiosidade com uma tentativa de me aproximar à força.
Então deixei o celular de lado.
Eu precisava respeitar o espaço dela.
Era o mínimo.
No dia seguinte, saí de casa mais cedo do que o habitual.
Tinha uma reunião rápida para resolver antes de ir à faculdade e, depois, precisava passar na residência onde morava. Meu pai havia pedido que eu conferisse alguns documentos que estavam sobre a mesa do escritório.
Quando cheguei, a casa estava silenciosa.
Entrei, deixei as chaves no lugar de sempre e caminhei pelo corredor. Ouvi o som de um pano sendo torcido e passos vindos da área próxima à cozinha.
A funcionária responsável pela limpeza estava terminando o serviço.
Eu a via de vez em quando, mas raramente parava para conversar. Normalmente, saía cedo e voltava tarde, e a casa já estava organizada quando eu chegava.
Naquele momento, ela estava de costas, guardando alguns produtos.
Passei pelo corredor sem interrompê-la, concentrado no celular, e segui até o escritório.
Eu não fazia ideia de que a mulher que mantinha minha casa limpa era a mesma garota que, na tarde anterior, tinha me olhado nos olhos e dito que não confiava em mim.
Muito menos imaginava que Mirella conhecia cada canto daquela residência.
E que nossos caminhos já tinham se cruzado ali muito antes de eu descobrir onde ela morava.
Mensagem da autora: Minhas leitoras, deixem o bilhete lunar e comentem! 🌙❤️ Vicente quer que Mirella confie nele, mas nem imagina que ela está muito mais perto da vida dele do que pensa. O que vai acontecer quando esse segredo vier à tona? 🔥