GIULIA's POINT OF VIEW
QUATRO ANOS ATRÁS
Abro os olhos, sentindo eles doerem pela claridade, mas quando tento levar a mão até lá, noto que elas estão presas. Buscando me acostumar, a primeira coisa que faço é fechá-los novamente com força. Uma palpitação no peito assim que minha consciência volta aos poucos e eu me lembre o porquê de estar nessa situação; a rua deserta, duas pessoas me seguindo até um beco e, no fim, o breu.
Piscando lentamente me acostumei com o local, tentando mexer os pulsos mas é em vão. Quem quer que tenha amarrado aquilo tinha dado um bom nó.
─── Vejamos quem acordou... ─── Uma voz soa no ambiente. Noto que era uma espécie de balcão sujo e úmido, provavelmente em algum lugar distante porquê ao olhar pelas janelas altas, podia -se ver algumas árvores. Respiro fundo, encarando um homem de terno aproximando-se com um sorriso carregado no rosto. Imediatamente um arrepio me cobre. ─── Faz um bom tempo que estamos te esperando, sabe? A essa altura seu namorado deve estar louco..
─── Quem é você? O que você quer?
─── Eu? Sou um grande amigo. ─── Puxa uma cadeira, sentando-se na minha frente. ─── E o que eu quero é bem simples: ele. Por sorte encontramos a maneira mais fácil disso acontecer quando vimos você andando no meio da rua.
Balanço a cabeça em concordância, rindo. Molho os lábios, devolvendo o olhar ao me deparar com um sorriso confuso.
─── E essa foi a pior decisão que podiam ter tomado em anos. ─── digo, deitando a cabeça para o lado. ─── Você está tão ferrado quando ele nos achar…
─── Será que estou? ─── pergunta. O ar despreocupado não me abala. Na verdade, todos eles costumavam carregá-lo antes que o óbvio acontecesse. Era muito fácil não ter medo quando a situação estava temporariamente sob controle. ─── Enquanto procurava uma forma de achar o Rizzo, ouvi muito falar sobre você, Giulia. Principalmente na sua boca atrevida que nunca poupava esforços para responder a ninguém.
─── Sério? Fico feliz em ser lembrada de algum jeito também. ─── rio. ── É sempre bom ter o trabalho reconhecido.
O homem para por um instante, encarando-me parecendo estar amando tudo isso. Descruzando as pernas, ele leva a mão até a cintura, puxando um revólver sem muita pressa.
─── Entendo. Você acabou de me fazer pensar em uma brincadeira divertida. ─── Retira as munições, fazendo as balas caírem no chão e o som soa por todo o espaço. Pegando apenas uma de volta, ele eleva até o meu olhar, colocando novamente no revólver e girando-a até travar. ─── Você deve saber como essas coisas funcionam melhor que eu, então não me darei o trabalho de explicar, não é?
─── Vai em frente. ─── dou de ombros. ─── Eu não tenho medo de você.
Ele ri, assentindo. Aponta o objeto na minha direção, quase me fazendo recuar, porém o som do gatilho não é assustador a ponto de me fazer tremer. Essa não era a minha primeira vez em frente a um e provavelmente não seria a última.
─── Tudo bem, vamos melhorar um pouquinho as coisas, certo? Você é boa. ─── Murmurou, puxando a cadeira um pouco mais para perto de mim, apoiando os cotovelos nas pernas antes de pressionar o cano frio na minha bochecha. ─── Geralmente quando não temos nada a perder não há porque ter medo mesmo, sabia? Eu costumava senti-lo também…
Ele usa o bico para afastar alguns fios do meu cabelo, antes de descê-lo calmamente pelo meu rosto, pescoço, até que parasse na minha barriga e eu pudesse sentir meu mundo parando no mesmo lugar onde ele pressiona o revólver, no meu ventre.
─── Mas você... Você ainda assim continua sustentando essa marra achando que seu namorado… não, melhor: noivo, é a porr*a de um super homem que vai passar por aquelas portas e te salvar, não é? ─── Engulo em seco, odiando a sensação de medo que aos poucos vai me possuindo. ─── Aposto que ele ainda não sabe dessa novidade. Devo dar os parabéns ou as condolências?
─── Vai se fod- ─── Ofeguei. Daquela quando ouço o som do gatilho mais uma vez, porém o tiro também não vem.
Não posso conter a lágrima teimosa, o pavor daquela sensação quando penso na única coisa que, após Alessio, me dava um motivo real para continuar vivendo.
─── Percebi que não. ─── Ri. Apontando mais uma vez para minha cabeça. ─── Sempre pensei muito sobre como seria a mulher que ele protegia como a própria vida e o porquê de ser tão importante, mas olhando bem… até que você é bonita mesmo, Giulia. Seria um desperdício matar alguém com um rostinho tão lindo...
─── Quando ele nos achar você pode se considerar um homem morto. ─── Sinto meu rosto ardendo pelo tapa que recebo, rindo mesmo que não conseguisse mais segurar as lágrimas. ─── Vai ser bom ver alguém morrendo pra variar.
No mesmo instante seu telefone toca, fazendo-o sorrir para o visor e me mostrar quem era. Sinto minha garganta fechar, assim que ele atende a ligação, deixando-a no viva voz.
─── Onde ela está seu filho da put-
─── Eita, calma! É assim que você atende um velho amigo? ─── balança as sobrancelhas para mim. ─── Estamos bem não é, Giulia? Estávamos agora mesmo no meio de uma brincadeira e você nos interrompeu…
─── Eu vou te matar, 'tá me ouvindo? Eu vou fazer questão de tornar isso a pior experiência da sua vida, seu-
─── A pior? ─── gargalhou. ─── Você já fez isso quando matou o meu filho dois anos atrás, lembra? Acho que não, mas…
─── Você ainda tem coragem de chamar um imundo que compartilhava imagens e vídeos de menores na internet de filho? ─── Ouço meu noivo rir. Pelo som na ligação, tudo que posso assimilar é que agora ele devia estar dirigindo. ─── Pelo visto você deve ser tão podre quanto.
─── Não importa o que fosse, ele ainda era o MEU filho! ─── Pela primeira vez havia um tom de irritação soando que eu ainda não tinha visto. ─── Para você ele era um lixo, mas para mim ainda era o meu filho! Um dia você vai entender a porcaria que fez, Rizzo, e vai pagar na mesma moeda, escute o que estou te dizendo.
Sinto toda a cor do meu corpo sumir quando, na última frase, seu olhar para em mim e reconheço aquilo como uma ameaça. Na minha cabeça, eu só me perguntava como ele havia descoberto algo que eu não tinha contado para ninguém ainda.
A ligação se encerra antes mesmo que Alessio pudesse responder. Voltando a apontar a arma para mim, sua expressão em completa ira por incrível que pareça combinava com o sorriso perverso que tinha nos lábios.
─── Escute bem Giulia, não é nada pessoal, mas você sabe como as coisas funcionam no nosso mundo, não é? ─── diz. ─── Seu noivoo tirou a única pessoa que eu tinha no mundo e eu… eu poderia fazer o mesmo com ele agora, mas qual graça teria não? O que acha de darmos a notícia ao mesmo tempo?
─── Quando ele passar por aquelas portas não vai te dar tempo de dizer um A… ─── sussurro, rindo ao sentir mais um tapa ardido. ─── Você está tãaaao fodid*o. Vai ser ótimo te ver morrer de camarote.
─── Sua v********a… Acha mesmo que estou sozinho nessa? Ainda que ele me mate hoje, Giulia, ele ainda vai pagar e você também, ouviu? Esse bebê aí vai ser nosso maior trunfo.
No mesmo momento um estalo soa no ambiente, fazendo eu me assustar e o homem se levantar, ainda com a arma na minha direção. Tento conter o sorriso, mas não consigo. Meu namorado entra em passos largos e confiantes, não dando tempo de reação ou palavras quando ergue seu revólver e acerta um tiro em cheio na mão do homem, fazendo-o largar o seu objeto. Ainda assim ele não freia. Posso ouvir mais quatro disparos antes que o corpo caia na minha frente, já sem vida, porém a pausa que ele dá é apenas para carregar o pente de descarregá-lo novamente.
─── Seu filho da p**a! ─── Chutou o corpo, pouco se importando em sujar os sapatos quando se aproximou para verificar se ele realmente tinha morrido e então me encarar. Há uma vermelhidão nos seus olhos que só reconheço como sinal de choro e diferente da forma como ele olhava para aquele homem, existia uma preocupação quando ele procurou qualquer sinal de machucado em mim. ─── Você está bem? Desculpa pela demora, querida.
─── Estou… ─── sussurro. Uma epifania me atinge no mesmo instante que percebo a situação que estamos e o que tinha acabado de ouvir, fazendo uma lágrima teimosa cair do meu olho. ─── Obrigada por vir, obrigada!
─── Eu iria até o inferno por você, amor, não precisa agradecer. ─── Sua mão toca minha bochecha cuidadosamente, notando a vermelhidão que provavelmente estava ali e isso lhe causa um suspiro. ─── Ele ainda teve coragem de te bater. Eu devia ter feito pior, mas tudo que pensei desde quando saí de casa era só poder te tirar daqui...
Começo a rir, finalmente mexendo as mãos quando Alessio me solta, mas paro logo que sinto o lugar ardendo. Estava tão apertado que sabia que estava assado.
─── Vem, vamos pra casa passar uma pomada nisso daí.
─── Mas e o corpo?
─── Eu já mandei alguém vir limpar tudo e sumir com ele, relaxa. Consegue ficar de pé?
Concordo, porém mesmo assim ele me auxilia, passando o braço pela minha cintura e beijando minha testa carinhosamente antes de sorrir.
─── Estou tão aliviado por te ver bem.
─── E eu por poder te ver. ─── sussurro. ─── Pela primeira vez na vida eu tive medo de algo assim e não sabia bem como agir.
─── Ele não fez nada porque não era você quem ele queria, era a mim.─── suspira. ─── Desculpa por te colocar em algo assim.
Aquilo me faz rir de novo. Falando dessa forma, até parecia que ele tinha me colocado nessa vida quando, na verdade, nos conhecíamos desde pequenos justamente por isso. Nossos pais costumavam ser melhores amigos. Parceiros, para ser mais exata. Seu pai era o chefe da família mais influente do país e braço direito, porém a história da união entre as nossas famílias eram bem mais antigas que isso.
A família Rizzo era envolvida nas mais diferentes áreas de importação e exportação de produtos falsos, tráfico e entre outros. Envolvida também em algumas organizações criminosas, a influência que tinham faziam eles praticamente ter todo o poder aquisitivo e judiciário do país. Ou seja, não só amigos, mas também alguns bons inimigos.
─── Eu meio que já estou acostumada. ─── murmuro sorrindo fraco, ainda que daquela vez houvesse uma sensação amarga no fundo do meu peito. ─── Está tudo bem.
Tento afirmar para ele e para mim, mas não sabia até quando de fato estaria. Na realidade, a única coisa que sabia era que não teria um fim se eu não desse um basta, porque minha vida era um infinito de adrenalina desde os meus cinco anos de idade pelo o mesmo motivo. Ele era capaz de me salvar sempre que podia, mas e quando não pudesse? E quando houvesse mais uma pessoa entre nós?
Foi naquele momento que tomei minha decisão.
(...)
GIULIA's POINT OF VIEW
18:22
ATUALMENTE
O som dos meus saltos indo de encontro ao chão é tudo o que ecoa no estacionamento vazio enquanto caminho em direção ao meu carro, logo depois de sair do elevador da empresa. Por mais que estivesse sozinha, essa não é a sensação que tenho à medida em que avanço e consigo captar uma movimentação logo atrás.
Aperto minha bolsa entre os dedos, acelerando os passos ao tempo que praguejo por ter estacionado em uma vaga tão distante naquele lugar enorme. A sensação piora quando estou mais perto, porém quando olho para trás não há ninguém por lá, fazendo-me arrepiar.
Respiro fundo, tremendo sob o salto agulha quando paro, abrindo minha bolsa e finjo procurar a chave do carro. Quando estou perto o suficiente do automóvel, noto uma sombra passando atrás de mim rapidamente e meu sangue gela no mesmo minuto. Saco meu spray de pimenta em punho, pegando a pessoa desprovida, mas antes que eu o aperte dou de cara com dois olhos castanhos conhecidos brilhando para mim em divertimento.
Alessio sorri, levantando as mãos em rendição. As sobrancelhas erguidas demonstram um sorriso sarcástico, nos seus olhos não há um pingo de medo e surpresa quando finalmente nos encaramos em silêncio, após quatro anos.
Meu peito esvazia. Todo o pavor que estava sentindo indo embora, aos poucos, embora ainda pudesse jurar que minhas mãos tremiam. Acho que desde a última vez que fui pega, as coisas estavam assim. Eu deveria estar acostumada, mas tendo em vista como as coisas tinham mudado nos últimos quatro anos, eu simplesmente ficava apavorada com qualquer movimento estranho.
─── A polícia sabe que você anda por aí com um negócio desse na bolsa?
─── Óbvio que não. ─── murmuro, voltando a devolver o objeto para o local de antes, levando a mão para o peito.─── Você me assustou.
─── Queria ver se você ainda era boa em ouvir. ─── leva as mãos para os bolsos, escorando-se no carro atrás de mim. ─── O que você quer?
─── Quê?
─── Você não me arrastaria até o outro lado do país até sem querer, Giulia, então o que você quer? Não tenho tempo para gastar.
Rio baixinho, assentindo antes de desviar o olhar. Pelo visto ele ainda era o mesmo bruto de sempre, mas nunca perdia uma oportunidade de vir me ver. Quer dizer, não perdia..
─── Então por que veio? Sabe, você ainda tinha a opção de não cruzar o país todo.
─── Eu estava por perto, a negócios quando recebi os teus sinais. ─── olhou em volta, com os lábios franzidos. Talvez pensando em como eu tinha vindo parar aqui, de tantos lugares.
─── Quatro anos passaram, mas você não muda nunca... ─── Pego as chaves do meu carro, apontando para o mesmo a tempo de vê-lo fazer um sinal de desdém. ─── Eu preciso falar com você. É em particular..
─── Vamos conversar no meu carro então. Não confio em estacionamentos.
Olho em volta, vendo que não havia ninguém mas não discuto. Assinto, passando por ele em direção à saída da empresa, ouvindo suas passadas logo atrás.
─── Aliás, como conseguiu entrar aqui? Que eu me lembre tem uma segurança reforçada em todos os cantos do prédio…
─── E aqueles caras na porta eram para ser os seguranças, suponho? ─── seu tom irônico me faz rolar os olhos. ─── Péssimo lugar para uma pessoa como você.
─── Não sou eu quem cuido disso, Rizzo, eu sou só uma advogada. ─── resmungo, sentindo a brisa fria do lado de fora me atingir, ao tempo que reconhecia o carro estacionado do outro lado da rua e principalmente a pessoa que estava parada do lado de fora. ─── Bart, que bom ver você outra vez! Como tem estado?
Estendo minha mão para o motorista, sorrindo feliz ao vê-lo. Acho que ele era um dos funcionários mais antigos da família do meu ex noivo e eu o conhecia desde sempre.
─── Giulia, como você continua linda! Foram quatro anos sem te ver e ainda consegue ser a mesma. ─── Toca a minha mão, deixando um beijo cuidadoso nela. ─── Eu estou bem.
─── Acho que o tempo nos fez bem mesmo. ─── pisco um olho, ouvindo um pigarro atrás de mim e suspiro, virando-me para Alessio.
─── Giulia e eu temos alguns assuntos a tratar. Seria algum problema para você esperar aqui fora por alguns minutos?
─── Não, senhor.
Ele assente, mexendo na gola da camiseta ao tempo que se aproximava e colocava a mão no fim da minha coluna, me guiando até a porta que tinha acabado de ser aberta para mim.
─── Enquanto isso você pode se sentar naquela lanchonete e pedir algo para beber. Pode falar que foi por mim. Garanto que o café expresso de lá é maravilhoso. ─── Murmuro, batendo levemente nos seus ombros. ─── Você vai gostar.
─── Sim, senhora. Obrigado!
Dou-lhe um último sorriso, finalmente entrando no automóvel e logo Alessio se joga ao meu lado, batendo a porta. Suspiro, passando a mão pelos olhos enquanto em silêncio esperamos Bart se afastar.
Pego meu celular, abrindo o aplicativo de mensagens e por um instante repenso no que vou fazer, porém àquela altura já não tinha mais opções. Eu precisava mesmo disso.
─── Há um mês eu tenho recebido mensagens do tipo vindo de vários números diferentes. Entre ameaças, fotos minhas, da minha família saindo de vários lugares diferentes e gravações de áudio até mesmo na minha sala no escritório. ─── Estendo o aparelho para ele, vendo-o pegá-lo cuidadosamente para analisar uma das mensagens que eu tinha recebido. ─── Eu liguei para as operadoras e a informação que recebi foi que todos eles, sem exceção, tinham sidos destruídos minutos após serem comprados e que foram adquiridos em vários pontos do país, por isso os DDD's diferentes.
─── E o que eu tenho a ver com isso?
Rio fraquinho, virando a cabeça em direção à janela para conter as lágrimas. Sabia que não seria fácil, principalmente pelo fato de que anos atrás nosso término não fora nada fácil como parecia ter sido. Podia confessar que talvez tivesse sido o dia mais difícil da minha vida, mas havia valido a pena no instante que meu olhar se cruzou com o pequeno ser por quem eu tinha jurado proteger a todo custo. Eu não costumava ter medo de nada, nem de perder nada até ter o que perder.
─── Eu preciso da sua ajuda. ─── sussurro. ─── Estou apavorada e não sei mais o que fazer. Não consigo mais pisar os pés fora de casa sem temer por algo, porque a sensação que tenho é que sempre tem alguém atrás de mim prestes a fazer alguma coisa. Não sou mais aquela mulher destemida que costumava ser, Alessio, e eu sei que isso é só a vida cobrando ela por tudo que fez.
Quando sinto a primeira lágrima escorrer, rapidamente luto para limpá-la enquanto pegava o celular de volta. Realmente as vezes eu sentia falta daquela velha Giulia, mas ela não tinha medo de morrer como eu tinha agora.
Bem, ela também não tinha muito o que perder também, porque ela era apenas uma jovem sem mais nada. Ela não tinha uma criança para criar.
─── Por que não? Que eu me lembre você tinha dito que sabia se cuidar muito bem sozinha quando foi embora. ─── Joga na minha cara, puxando as mangas da camisa social para cima enquanto demonstrava tranquilidade.
O olhar de Alessio pousou em mim friamente e tudo que senti naquele instante foi um arrepio na espinha, odiando a forma como tudo nele transpirava desdém. Mas tudo bem, ele tinha razão. Eu merecia.
─── Você disse que eu só te metia em problemas e que a partir daquele momento eu não precisava mais te ajudar em nada Giulia, lembra? O que te faz pensar que eu faria algo agora já que tinha tanta certeza em suas palavras quatro anos atrás? Eu revirei cidades atrás de você. Movi mundos e fundos para te encontrar apesar de tudo que me disse, porém não tive nenhum rastro seu. Pelo menos não até agora. Quatro malditos anos desde que você jogou tudo na merd*a do lixo, mas então agora você vem, como se nada tivesse acontecido e pede por ajuda, achando mesmo que eu sou o cara*lho de um idiot*a que vai simplesmente te estender a mão?
Engulo em seco, soluçando ao pensar no inferno se situação que tinha me enfiado, porém ele não se abala. Nem por um segundo sequer ele reluta, apenas continua lá, focados em mim como suas duas pedras de gelo. Eu me encolhi mais, sentindo frio. Não pelo tempo lá fora ou aqui dentro, porque era ameno. Sim pela frieza do sei olhar.
Há um momento de silêncio. Um quando deixo minha atenção cair e eu percebo que não há mais opções ou escapatórias. Que, mesmo que eu tentasse, não podia fugir do meu destino porque isto era o que eu era desde o começo: alguém suja. Alguém que, por mais que tentasse dar outra vida à criança que me encarava como se fosse sua maior inspiração, eu sempre teria sangue em minhas mãos e meu passado sujo sempre voltaria para me assombrar.
Não havia escapatória.
─── Por que eu não estou pedindo por mim. ─── Resmungo entre dentes, jogando o aparelho no seu colo novamente já aberto na foto da criança sorridente que estampava minha tela inicial. Eu era completamente apaixonada por aquele sorriso, só Deus sabia. ─── Estou pedindo por ela. Pela sua filha, Alessio.