A porta da mansão rangeu baixo quando eu entrei, as costas curvadas como se carregasse o peso de mil dias sem descanso. O vento frio da madrugada entrou junto comigo, espalhando pelas escadas um cheiro de hospital e de chuva. Eu tinha ficado longe até aquela hora e ninguém sabia o que eu tinha feito. No andar de cima, Abigail estava sentada na poltrona do corredor, meio encolhida num cobertor, enquanto Júnior observava o monitor cardíaco ao lado da cama do Lúcios. O barulho ritmado era tudo que preenchia aquele quarto — uma batida fraca, tão fraca que parecia zombar de quem ainda esperava um milagre. Quando cruzei a soleira, Júnior me olhou com um misto de piedade e preocupação. Ele se levantou devagar, passou as mãos pelos meus ombros tensos, mas não encontrou palavras. Não havia mais o

