Marcos Santiago
O vapor quente ainda preenchia o banheiro quando desliguei o chuveiro. Passei a toalha pelo rosto, deixando que a água escorresse pelos ombros largos antes de secar os braços e o peito. O espelho embaçado refletia um homem de trinta e oito anos, barba rala feita na noite anterior, cabelo castanho um pouco comprido e rebelde demais para quem passaria o dia de jaleco no Hospital Infantil Oncológico de São Paulo.
Enrolei a toalha na cintura, saí do box e caminhei até o quarto, sentindo o frio do piso contrastar com o calor que ainda emanava do meu corpo.
Vanessa dormia de lado, coberta até a cintura, o rosto perfeito — sempre impecável, mesmo sem maquiagem. Por um instante fiquei parado na beira da cama, observando a mulher com quem dividi anos de história. Ela era linda, isso ninguém podia negar. Mas a beleza não enchia mais os silêncios que tomaram conta do nosso casamento.
Meu "amigo" — esse i****a que vive me cutucando dentro da calça quando menos espero — resolveu dar sinal de vida. Quis me lembrar que fazia tempo que não tínhamos i********e. Mas bastou imaginar a cena: eu tentando me aproximar, ela inventando uma desculpa ou virando para o outro lado... O desejo foi embora tão rápido quanto veio. Suspirei, passei a mão pelos cabelos ainda úmidos e fui me vestir.
Vesti a cueca preta, calça social azul-escura, camisa clara de manga comprida. O jaleco branco estava pendurado no encosto da cadeira. Enquanto abotoava a camisa, olhei de novo para Vanessa. Linda, sim. Distante, ainda mais. Balancei a cabeça, calcei os sapatos e deixei o quarto em silêncio.
A porta do quarto de Cristal rangeu levemente quando empurrei. A luz fraca do abajur iluminava a bagunça de brinquedos e livros infantis pelo chão. Ela dormia encolhida no canto da cama, abraçada ao coelhinho de pelúcia.
— Ei, princesa... — chamei baixo, sentando na beirada. — Vamos acordar, a escola tá esperando.
Ela se mexeu, apertou o coelho contra o peito e reclamou com a voz ainda sonolenta:
— Mais cinco minutinhos, papai...
Sorri. Era impossível não sorrir quando ela fazia essa cara de birra doce. Passei a mão pelos cabelos castanhos da minha filha.
— Se a gente atrasar, vai perder a aula de artes. — fiz um drama, sabendo que era a matéria que ela mais amava.
Cristal abriu os olhos lentamente, semicerrados, mas com aquele brilho de criança que me lembrava todos os dias por que eu ainda insistia em manter de pé um casamento falido. Ela se sentou, esfregou os olhinhos e de repente me abraçou, enroscando os braços pequenos no meu pescoço.
— Bom dia, papai.
— Bom dia, meu amor. Vai lá tomar banho, tá atrasadinha.
Ela concordou com a cabeça, ainda meio zonza, e foi para o banheiro do quarto enquanto eu ajeitava a cama e recolhia dois livros de colorir do chão.
Desci as escadas sentindo o cheiro de café fresco vindo da cozinha. O sol começava a invadir a sala de estar pelas grandes janelas, iluminando os móveis claros e dando à mansão aquele ar acolhedor que contrastava com a frieza que reinava no andar de cima.
Sentei-me à cabeceira da mesa de jantar. Lurdes, a governanta, surgiu segundos depois com a xícara fumegante na mão e um sorriso simpático.
— Bom dia, doutor Marcos. Dormiu bem?
— Bom dia, Lurdes. Dormi, sim... na medida do possível. — agradeci, pegando a xícara.
Ela me serviu duas fatias de pão integral, como de costume, e ficou por perto como quem queria dizer algo. Eu já a conhecia bem demais para não perceber quando estava guardando assunto.
— Pode falar, Lurdes. Já vi que tem algo entalado.
Ela pigarreou, ajeitou o avental e disse:
— Na verdade, doutor, queria pedir uma coisa. Tenho uma sobrinha... a Sam. Uma boa menina, muito trabalhadeira. Acho que ela seria perfeita para ser a nova babá da Cristal.
Levantei o olhar, confuso.
— Nova babá? Não sabia que estávamos precisando de uma.
— Foi a dona Vanessa que pediu, ontem à noite. Disse que anda muito ocupada com os eventos da boutique e que quer alguém pra ajudar com a rotina da menina — explicou, meio sem graça.
Fiquei em silêncio por um momento, tentando entender por que Vanessa não comentou nada comigo. Não era novidade ela tomar decisões sem me consultar, mas ainda assim me incomodava.
— Ela comentou com você antes de falar comigo, é isso? — perguntei, tentando manter o tom neutro.
— Sim, senhor. Pediu que eu encontrasse alguém de confiança. Achei que a Sam cairia bem. Posso trazê-la hoje à tarde para uma entrevista?
Bebi um gole de café e assenti.
— Traga, sim. Quero conhecê-la primeiro.
Lurdes abriu um sorriso satisfeito.
— Obrigada, doutor. A Sam vai gostar dessa oportunidade.
Ela saiu para a cozinha e eu voltei a focar no café, pensando na surpresa que tinha acabado de receber.
Ouvi passos apressados descendo a escada e ergui os olhos para ver Cristal, já uniformizada, cabelos presos num r**o de cavalo meio torto e com a mochila nas costas. Apressada, ela correu até a mesa.
— Papai, rápido! Quero chegar cedo pra mostrar meu desenho pra professora!
Ri, levantando-me para ajeitar o laço que estava caindo do cabelo dela.
— Calma, mocinha. Primeiro, um gole de leite e umas torradas.
Ela obedeceu, comendo rápido demais, animada com a aula de artes. Assim que terminou, peguei a mochila e a guiei até a porta.
O motorista já aguardava no carro, mas insisti em levá-la pessoalmente. Para mim, aqueles minutos com ela eram preciosos.
O trânsito de São Paulo estava agitado como sempre, mas consegui chegar à escola sem atraso.
— Vai com Deus, filha. — falei, descendo para abrir a porta do carro.
Cristal me deu outro abraço apertado antes de correr até o portão, acenando para mim com aquele sorriso que me fazia esquecer todos os problemas.
Entrei no carro de novo, coloquei o cinto e pedi para o motorista seguir. O relógio no painel marcava 7h45. Ainda dava tempo de chegar ao hospital antes da primeira consulta.
Enquanto o carro avançava pela avenida movimentada, olhei pelo vidro e deixei a mente viajar por um instante. Não fazia ideia de que, naquele mesmo dia, a sobrinha de Lurdes atravessaria a porta da minha casa e mudaria tudo.