Novo Vizinho

1217 Palavras
Karen Ao chegar em frente a minha casa após um plantão extenuante de vinte e quatro horas, a exaustão se instala em cada fibra do meu ser. O que mais desejo, na verdade, é simplesmente descansar. Mas, como é habitual quando retorno para casa, a consciência se faz presente: tenho um filho de seis anos que anseia pela minha atenção após tantas horas longe. Com uma força que beira o sobre-humano, após tomar um banho para despertar e um prato de sopa quente, consegui forças suficientes para desabar no tapete da sala, um convite silencioso para as brincadeiras de Otávio. Seus olhinhos brilham com a expectativa, e, mesmo diante da minha própria exaustão, busco, dentro de mim, a energia necessária para compartilhar aquele momento com ele. Os contornos de um quebra-cabeça se espalham diante de nós, e eu, que m*l consigo manter os olhos abertos, tento focar na tarefa em mãos. O pequeno Otávio, com sua energia inesgotável, parece não entender a extensão da minha exaustão. Ele me mostra peça por peça, e com um sorriso forçado, mergulho na atividade, oferecendo o que me resta de paciência e atenção. O meu corpo clama por uma cama quentinha e uma noite de sono reparadora. Mas, ao mesmo tempo, percebo que esse momento, apesar do cansaço, é sagrado. Naquela noite, notei uma energia diferente em Otávio. A todo momento, ele fala entusiasmado sobre o novo vizinho, alguém que conheceu enquanto ele se divertia de bicicleta em frente de casa. Preocupa-me. É comum a interação de meus pais e, consequentemente, do meu filho, com as pessoas da vizinhança. No entanto, a menção de um novo vizinho acende um sinal de alerta, dispersando até mesmo meu cansaço latente. Após concluir o quebra-cabeça que, de certa forma, funcionou como uma distração para colocar Otávio para dormir, decidi procurar minha mãe para uma conversa. A inquietação cresce dentro de mim, impulsionada pela curiosidade e, claro, por uma ponta de preocupação. Encontro minha mãe na cozinha, um lugar que sempre foi cenário de confidências e conselhos. Ela percebe imediatamente que algo me preocupa e me convida a sentar. — Mãe, o que você sabe sobre o novo vizinho? Otávio não para de falar nele, e isso me deixou um pouco inquieta. Minha mãe, sempre sabia, estuda meu rosto antes de responder. — O conhecemos hoje. Ele se mudou para o 210 e parece ser um rapaz muito educado, e Otávio realmente gostou dele. Pode ser só uma nova amizade surgindo, principalmente porque o novo vizinho tem um labrador muito esperto. Apesar da explicação reconfortante de minha mãe, uma sombra persiste em minha mente. A ideia de um novo vizinho, especialmente um homem, intriga-me e ativa meu instinto protetor. No entanto, por ora, decidi confiar na experiência e discernimento de minha mãe. Afinal, a segurança e felicidade de Otávio são minhas prioridades absolutas. Nos dias seguintes, a empolgação de Otávio com o novo vizinho cresce de maneira espantosa, despertando, simultaneamente, uma crescente pontada de ciúmes em meu coração. Como é possível que esse recém-chegado tenha conquistado tão profundamente o meu filho em tão pouco tempo? A ideia é simplesmente inadmissível. À medida que Otávio compartilha suas aventuras com o vizinho, meu ciúme se torna mais pronunciado. Algo dentro de mim protesta, questionando como alguém poderia ganhar o afeto do meu filho tão rapidamente. Ele faz parte da nossa vizinhança há apenas alguns dias, e já parece ter se tornado o herói de Otávio. Decidi abordar minha mãe durante o jantar, após ter colocado Otávio para dormir um pouco mais cedo naquela noite. — Mãe, como esse novo vizinho conseguiu conquistar Otávio desse jeito? Ele está aqui há tão pouco tempo! Meu pai se envolve na discussão, tentando acalmar meus ânimos. — Karen, não vejo razão para tanto alarde. Eu mesmo conheci o novo vizinho, e ele parece ser uma pessoa de bem. É médico, mas, ao contrário de você, não tem uma rotina tão corrida por ser diretor do hospital. Ao ouvir a menção ao hospital, meus olhos se arregalaram. O maior hospital da cidade, um lugar que sempre foi meu objetivo profissional. A surpresa estampa meu rosto enquanto absorvo essa nova informação. O novo vizinho de quem tanto desconfio, é diretor do hospital que sempre esteve nos meus sonhos profissionais. A ironia do destino ecoa nas palavras do meu pai, e uma mistura de sentimentos contraditórios toma conta de mim. — O seu pai tem razão, filha — Mamãe complementa — Você sabe que ele nunca se enganou sobre o caráter das pessoas. Bart também é adorável, não é mesmo, Átila? A confirmação da minha mãe sobre as palavras do marido me atinge como um soco, me deixando momentaneamente atordoada com a nova informação. A miríade de sentimentos, antes dominado por ciúmes e surpresa, agora dá lugar a uma curiosidade latente. Ao encerrar o jantar, sinto a pressa de me recolher ao meu quarto, com a mente envolta em turbulência. A ansiedade me envolve, e minha primeira reação é pegar o telefone e ligar imediatamente para Camila. Preciso desabafar, compartilhar os pensamentos que me consomem. — Camila, você não vai acreditar no que aconteceu hoje. Tem um novo vizinho aqui, e... — Ah, não, Karen! De novo esse vizinho? O que você vai reclamar dessa vez? — Camila me interrompe, e consigo imaginar seus olhos revirando neste exato instante. — Cala a boca e me escuta! — Não aguento mais ouvir sobre esse vizinho, amiga — Camila resmunga, adotando um tom manhoso. — Você é minha melhor amiga e vai ter que me ouvir falar dele até quando eu quiser falar — respondo, um tanto arrogante — Descobri algo novo sobre ele. — Hum... Parece interessante. Conta! — O tom de voz da minha amiga fofoqueira mudou completamente agora. — Papai acaba de me dizer que ele é o diretor do Hospital Central! O mesmo hospital que sempre sonhei em trabalhar. — Nossa, muito interessante — concorda Camila, e sei que tenho sua total atenção — Precisamos descobrir se esse vizinho é bonito, agora que já sabemos que ele é um ótimo partido. — Estou atordoada, amiga, completamente sem rumo. O que você acha que devo fazer? — Não vai fazer nada! Esqueceu que desistiu dos homens há exatos seis anos atrás? — Camila me repreende — Eu sim, tenho planos para amanhã. Irei visitar a minha querida amiga e, casualmente, conhecer o seu novo vizinho. — Camila! — é minha vez de protestar — Eu não estou falando nesse sentido. Estou pensando se minhas chances de conseguir meu sonhado emprego de enfermeira no Hospital Central aumentaram, agora que meus pais são amigos do diretor. — As suas, eu não sei. As minhas, eu mesma vou providenciar um belo aumento amanhã. Camila, como sempre, pensando apenas na sua vida amorosa. — Imagino que o fato de que não estarei em casa amanhã deve frustrar os seus planos — falo com sarcasmo. — Está enganada, querida amiga. Irei visitar o meu afilhado e conhecer o seu novo amigo. Não consigo conter a risada diante da audácia de Camila em criar uma situação com o único intuito de conhecer um possível pretendente. — Não sei o que faço com você, amiga. — Você não sabe, mas algo me diz que o seu novo vizinho vai saber.
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