Capítulo 02 – Sangue no Asfalto

978 Palavras
Marco O asfalto ainda estava quente quando eu cheguei. Não era só pelo sol do Rio — era pelo tipo de calor que fica depois do caos. Aquele que não vem do tempo, vem da pressa, do pânico e das sirenes. Uma viatura parada torta, fita amarela improvisada, dois curiosos fingindo que não estavam olhando, e um rastro escuro na pista… sangue misturado com poeira, como se a cidade tivesse cuspido mais uma vida e seguisse andando por cima. — Foi o quê? — perguntei, descendo do carro, a mão já procurando o rádio por instinto. Um dos PMs me encarou, a expressão fechada. — Moto. Fuga. O cara caiu… bateu a cabeça. Dizem que tava correndo porque devia. “Devia.” A palavra sempre vinha do mesmo jeito: pequena, comum, quase inocente. Mas carregava um mundo. Dívida no Rio não é boleto. Dívida é sentença. Eu me agachei perto da mancha no chão, não por curiosidade — por ódio. Porque eu conhecia esse tipo de cena. O tipo de cena que começa com cobrança “educada” e termina com alguém no chão e uma mãe gritando no portão. E eu pensei na minha mãe… e, pior, pensei na Valentina. Minha irmã tinha essa mania estúpida de fingir que dava conta. Ela segurava a casa com o orgulho nos dentes e a dor na garganta, como se pedir ajuda fosse crime. E eu deixava. Porque a farda me engolia. Porque o plantão nunca acabava. Porque eu sempre achava que “amanhã eu passo lá”. O “amanhã” nunca chegava do jeito certo. — Delegado quer você na delegacia. — um policial novo falou, apontando pro meu celular vibrando no bolso. — Diz que surgiu um nome. Nome. O tipo de palavra que faz o estômago travar. Eu levantei e fui pro canto, longe dos olhares, atendendo no segundo toque. — Marco. — minha voz saiu seca. — Recebemos uma informação. — a voz do delegado veio baixa, daquele jeito que significa “não repete isso em voz alta”. — Cobranças no teu setor. A mesma mão por trás de três casos… e um quarto que ainda não caiu no sistema. — Que mão? — Gael. Eu parei. Não era surpresa, mas confirmação. Aquele nome, um fantasma que não se expõe, já rondava meu trabalho. Não aparece em documentos, só na boca de quem tem medo e prefere o silêncio. — Dono do Alemão? — perguntei, mesmo sabendo. — É. E antes que você venha com bravata… — ele soltou um suspiro. — Eu sei que você tem motivos. Mas não entra sozinho. A frase bateu num lugar feio dentro de mim. Motivos. Minha mente voou para casa: o apartamento, Valentina dormindo pouco e nossa mãe nas recaídas. O ciclo nojento de promessa, queda e humilhação. Fechei os olhos. — Eu preciso saber qual é esse quarto caso. — falei, controlando a voz como quem segura um cachorro raivoso na coleira. — Ainda não tem nome. Só que é “família”. Dívida antiga. E… — ele hesitou. — O informante disse que tem uma garota no meio. Meu peito apertou. Garota. O mundo inteiro pareceu estreitar. — Que garota? — minha voz saiu mais dura do que eu queria. — Não sabemos ainda. Mas o informante disse que a cobrança subiu de nível. Quando sobe, Marco… não volta. Eu senti o sangue no asfalto virar coisa viva dentro de mim, como se aquela mancha agora tivesse nome e endereço. — Quem é o informante? — perguntei, já andando, a mão fechando em punho. — Te encontro no beco da Rua Dois, em quinze minutos. Vai sem viatura marcada. Eu desliguei e fiquei um segundo parado, encarando a rua como se ela fosse um inimigo. O rádio chiou. Alguém chamou meu nome. Eu nem respondi. Só fui. No caminho, eu tentei ligar pra Valentina. Chamou. Chamou de novo. Caixa postal. O mesmo frio subiu pela minha espinha. “Ela tá ocupada”, eu tentei me convencer. “Tá trabalhando”, “tá no ônibus”, “o celular acabou”, “ela não ouviu”. Mas meu instinto... Meu instinto não era otimista. Era treinado para reconhecer a tragédia iminente. O beco fedia a urina, óleo e medo. O informante, magro, encostado na parede, olhava em volta antes de falar, como se o ar escutasse. — É o Gael mesmo, polícia. — ele disse, rápido. — Tá cobrando pesado. E quando ele cobra… ninguém negocia. — Eu quero detalhe. — eu rosnei. O cara engoliu seco. — A dívida é de mulher viciada. A filha tá pagando. Não com dinheiro. Meu coração afundou. — Nome. — eu exigi, sentindo a garganta fechar. — Me dá o nome dela. Ele hesitou por um segundo que durou uma eternidade… e então soltou: — Valentina. O mundo ficou sem som. Só o meu próprio sangue batendo no ouvido, como um tambor de guerra. Eu dei um passo à frente, a mão tremendo não de medo — de fúria. — Onde ela tá? Ele arregalou os olhos, percebendo que tinha acendido um incêndio. — Eu… eu não sei. Só sei que levaram ela pro alto. Pra casa dele. Hoje. Hoje. Eu puxei o celular de novo e liguei outra vez, como se insistir pudesse trazer minha irmã de volta pro lugar seguro onde ela nunca esteve. Caixa postal. A raiva subiu tão forte que eu quase não respirei. Gael. Esse nome não era só alvo de operação agora. Virou pessoal. E eu jurei ali mesmo, com o cheiro de beco grudando na minha farda e o sangue no asfalto ainda queimando na minha memória: Eu vou até o fim. Nem que eu tenha que atravessar o inferno do Alemão com as próprias mãos. E, dessa vez, eu não vou chegar atrasado.
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