A peça essencial no raio-x

952 Palavras
A peça essencial no raio-x Xavier Lancaster O tornozelo de Daniela era um problema de gestão de risco, e eu não tolerava riscos. Depois de forçar o Dr. Costa a vir até o chalé — ignorando os meus argumentos de que um helicóptero de resgate particular era desnecessário para uma simples entorse —, eu me senti como um amador. O homem confirmou: entorse de grau dois. Mas a minha necessidade de garantia total exigia mais. — O meu protocolo de diligência exige um exame de imagem completo, Doutor. — Minha voz era gelada. — Não opero com suposições. A Sra. Marçal precisa de um Raio-X e, se necessário, uma Ressonância Magnética. Agora. O médico, um tipo alto e calmo, assentiu, claramente acostumado com clientes de alto nível. O problema não era ele; era a minha irritação crescente. Eu odiava ter que confiar em terceiros, e odiava o fato de que o corpo de Daniela era agora um fator que eu não podia controlar. Eu a peguei novamente no colo. O casimira do roupão que lhe tinha dado escorregava na minha pele. Ela pesava quase nada, e eu detestava a forma como ela se aninhava ao meu pescoço, transformando a minha responsabilidade numa proximidade forçada. (...) No hospital privado que eu praticamente comprei para o dia, a espera era zero, mas o nível de ameaça subiu. O Dr. Costa não estava focado no protocolo, estava focado em Daniela. Na sala de Raio-X, eu me posicionei como um sentinela. — Este tipo de entorse costuma acontecer com quem força demais o limite — disse o médico, com um sorriso, enquanto ajudava Daniela a posicionar o pé. — É corajosa, não é? Tentando a descida mais difícil no primeiro dia. Daniela riu, um som fácil e leve. — Eu estava irritada. A raiva me dá coragem burra, Doutor. — A raiva é um ótimo combustível, mas para o corpo, o *stress* é o pior inimigo. — Ele se inclinou, ajustando o roupão nela. — Tem que relaxar, Daniela. Se o seu CEO for como os meus pacientes de alto nível, está a exigir muito de si mesma. Eu senti o meu maxilar apertar. Ele a chamou de Daniela. E estava a insinuar que eu a estava a pressionar. A minha mão fechou-se num punho invisível. — Eu não exijo, Doutor. Eu espero excelência e segurança. — A minha voz cortou a sala. — O tornozelo dela é o foco. A psicologia do paciente não está na sua especialidade, a menos que haja uma fratura. O médico apenas sorriu, voltando-se para mim. — É claro, Sr. Lancaster. Mas a dor emocional e o stress atrasam a recuperação física. Não posso ter a minha paciente a regressar ao trabalho com a mente sobrecarregada, ou a sua "peça essencial" pode falhar novamente. Ele usou as minhas próprias palavras contra mim. Olhei para Daniela. Ela estava a mascarar um sorriso. Ela tinha a maldita vantagem. De volta à sala de espera privada, enquanto aguardávamos o relatório, o Dr. Costa aproveitou a minha distração no tablet para abordar a minha noiva. — Então, Daniela, esta estância é um lugar excelente para a reabilitação. Tem uma boa biblioteca? Você mencionou a leitura. — É pequena, mas estou a tentar que o Xavier me leia... — Se precisar de sugestões de leitura que a ajudem a relaxar e a manter a mente fora dos negócios, eu posso enviar-lhe uma lista de clássicos. Não se preocupe, eu só preciso do seu... Eu fechei o meu tablet com um som alto e seco que ecoou na sala. — Eu agradeço a sua dedicação profissional, Doutor. No entanto, os seus serviços terminam aqui. — Levantei-me, parando entre ele e Daniela, bloqueando a sua visão. A minha postura não era de cortesia, mas de posse. — Eu vou gerir a reabilitação, a medicação, a leitura e a paz de espírito da Sra. Marçal pessoalmente. Ela é minha responsabilidade. E, francamente, a minha agenda já está demasiado comprometida com a sua recuperação para permitir qualquer interrupção desnecessária. Olhei-o de cima a baixo. — Envie-me a fatura. E, por favor, envie o relatório apenas para o meu e-mail seguro. O Dr. Costa percebeu o recado. Havia uma leve diversão nos seus olhos quando ele se despediu, mas ele não tentou protestar. Assim que a porta se fechou, eu virei para Daniela. Ela estava a rir baixinho, a dor no tornozelo aparentemente esquecida pela diversão. — Foi um momento interessante, CEO. Você quase parecia um namorado ciumento. Que vergonha. Eu me inclinei, pousando as minhas mãos em ambos os lados do sofá. A minha respiração estava mais rápida do que deveria estar. — Não se gabe da sua influência, Marçal. Ele estava distraído. Ele estava a comprometer o seu foco na recuperação. — A minha voz era um rosnado baixo, mas eu não conseguia negar a verdade. Eu estava furioso, não com o risco, mas com a familiaridade dele. — Eu não vou permitir que qualquer fator externo sabote o meu investimento. Ela pousou a mão no meu braço. Não como um toque de "noiva de mentira", mas como uma mulher que estava a ler a minha alma. — O seu sistema não entrou em colapso por causa do tornozelo, Xavier. Entrou em colapso porque eu quase sorri para outro homem. Ela tinha me encurralado de novo. Eu me afastei abruptamente, senti o meu rosto aquecer. — Vou ligar para o chalé para que preparem o gelo. Não confunda gestão de ativos com sentimentos. Mas enquanto eu andava para a porta, eu sabia que o meu instinto não tinha sido de gestor, mas de predador. E eu precisava controlar esse predador antes que ele devorasse o meu contrato.
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