A confissão

1629 Palavras
A Confissão Daniela Marçal Xavier havia se retirado, deixando a porta do quarto entreaberta como um pedido de trégua. No chão, a tarefa do scrapbook prosseguia, mas o clima mudou. Olívia, satisfeita com o novo suprimento de glitter, estava concentrada em desenhar um alienígena em forma de coração, alheia à tensão. Eu e Marina estavam sentadas lado a lado. Marina parou de cortar uma foto, sentindo o peso do silêncio que eu colocava como distância. — Ele fez certo em me ligar. — Marina disse suavemente, referindo-se a Xavier. — Mas não vim somente trazer a torta, Dani. Eu vim falar sobre as últimas notícias. Eu vim por você, minha amiga. Como você está, de verdade? Solto um suspiro longo e dolorido, apoiando o rosto nas mãos. — Vazia. É o preço da vitória, eu acho. Eu venci o jogo, Marina, mas sinto que vendi a minha alma. Usei a história da minha mãe, usei a minha infância miserável, usei a Olívia... — Ela gesticulou para o álbum. — Eu transformei tudo que é sagrado na minha vida em munição. E o pior: eu fui boa nisso. - Isso que me doía mais. Marina colocou a mão no meu joelho, oferecendo um conforto silencioso. — Não confunda ser forte com ser fria. Você foi estratégica porque precisava se proteger. E a Olívia. Você fez o que era preciso para não ser engolida por aquela bruxa, mesmo que ela não tenha falado nada de fato com a imprensa. Todos conhecem as matriarcas e patriarcas dessas famílias de sangue azul. Jamais aquela mulher poderia ter a guarda da menina, nem ficar muito tempo com ela. Você salvou a sua permanência e a pequena Olívia. - Suspiro bem frustrada. — Mas a exposição... Deus, Marina. Eu nunca quis ser a manchete. É como se eu tivesse arrancado a pele e deixado todos tocarem a minha ferida. O que me destrói não é a dor em si, é o fato de que milhões de pessoas estão debatendo a dor da minha mãe, a minha. Virou um circo. Todos estão me julgando por ser pobre, vir de uma família sem herança e poder. Olho para Olívia, cuja cabeça estava inclinada sobre o desenho. — Eu morro de medo que a mídia continue remexendo, que desenterrem mais coisas. Não sobre mim, sobre... a minha mãe, e tem o Orlando. O nome do meu padrasto era quase sussurrado, carregado de medo. — Você acha que ele pode se manifestar? — Marina perguntou, a voz ficando séria. — Manifestar? Não. Ele é um covarde. Mas a notícia da minha ascensão, a história do meu pai violento, a exaltação da minha mãe enfermeira e lutadora... tudo isso chega nos ouvidos dele. Ele fingia bem gostar da minha mãe, mas ser exposto assim? Ele não fez nada de bom, somente engana uma mulher que merece coisa melhor, mas está tão cega com pouco que não vê. Ele a controla com um falso amor, mas será suficiente para ele ficar quieto? O ódio dele por mim pode respingar na minha mãe, era por tudo que eu não queria. Tanto que peguei a primeira oportunidade que me apareceu, justamente para não me meter mais na vida da minha mãe, em seu relacionamento e não ser... você sabe. As lágrimas surgiram nos meus olhos, mas as segurei. — Se ele se sentir provocado, se ele pensar que a minha mãe agora é um símbolo de força para a imprensa, ele pode surtar. Ele não vai me atacar, ele não pode me alcançar aqui. Mas ele pode fazer algo com a minha mãe. - Agarrei a mão de Marina. — É a única coisa que me tira o sono de verdade. Eu sou a Rainha da Resiliência para a imprensa, mas sou só uma filha com pavor de que o monstro volte para punir a mulher que me criou. Eu arrisquei a vida dela para ganhar um jogo de relações públicas, Marina. Marina apertou a minha mão com firmeza. — Ei. Você não arriscou a vida dela. Você a honrou em público, e isso te deu poder. Agora, vamos virar a chave para a proteção. — O que eu faço? - Não sabia o que fazer. - Primeiro, se acalme. Você tem os melhores seguranças do país. Vamos ligar para a sua mãe agora, sem alarde. Você não precisa falar sobre a coletiva, apenas que está com saudades. E vamos pedir ao Xavier para designar alguém para monitorar ela, e pode fazer discretamente. Ele tem recursos para isso. Use o poder que você ganhou para protegê-la. Você não é mais a menina assustada, Dani. Você é a mulher do CEO que acaba de vencer uma guerra. Olhei para a minha amiga, absorvendo a calma e a racionalidade. Respirei fundo, secando o rosto com a manga da blusa. O medo não sumiu, mas ficou menor, gerenciável. — Certo. Primeiro, mais uma fatia de torta de limão. Acho que a minha mãe está dormindo há essa hora, ou em plantão. - Digo tentando me recompor. - Eu, vai dar tudo certo! Não se preocupa, está bem? - Sim, no final vai ficar tudo bem. O alívio era palpável. Ali, no chão, entre glitter e merengue, começava a transformar o trauma exposto em ação protetora. A máscara que cai e a intervenção salvadora "Orlando. O nome soava tão promissor na época em que ele se apresentou como o novo namorado da mamãe. Inicialmente, ele era o melhor dos homens, um poço de charme e cortesia que rapidamente conquistou a confiança de todos, especialmente a da minha querida mãe. Essa fachada perfeita, no entanto, era apenas uma máscara temporária. Com o passar do tempo, Orlando começou a mostrar a sua verdadeira face, uma face marcada pela manipulação e por um senso perigoso de autoridade sobre o ambiente doméstico. Ele traia a minha mãe na primeira oportunidade que surgia, eu vi, me calei pela sua ameaça. Não tinha certeza se minha mãe iria acreditar na minha palavra, ou no amor que ela encontrou nos braços do lobo. Meus dias que eu pensei que iriam ficar tranquilos, agora eram cercados pelo medo. Aquele homem me olhava com um olhar que me arrepiava. Já nem reclamava que ele procurasse mulher na rua, pois aquele olhar que ele me lançava, eu sabia que o seu foco mudou, e isso não era bom. A tensão atingiu seu pico na noite anterior à minha viagem para o Reino Unido, um marco em meu projeto profissional, e a minha fuga daquele ambiente que não era seguro para mim. Essa proximidade da partida, talvez, deu a Orlando uma falsa sensação de oportunidade e impunidade. Naquela noite, a máscara caiu completamente. Orlando, o homem em quem a família confiara, tentou me fazer m*l, violando brutalmente a confiança e a segurança de meu lar. Era para ser o meu último banho, antes da viagem, pois eu iria sair nas primeiras horas do dia, mas Orlando, tomando pela coragem vinda da bebida, ele tentou forçar a porta, ele tentou me ver nua e tentou me machucar, ele dizia que iria fazer eu nunca lhe esquecer. - Não! Sai daqui! - Eu gritava dentro do banheiro tomada pelo terror. - Você não vai embora ainda virgem, Daniela. Vou te mostrar o que um homem de verdade é capaz de fazer. - Eu podia imaginar a sua cara horrenda. As batidas na porta eram iguais às batidas do meu coração. Foi um momento de terror e vulnerabilidade extrema. No entanto, o destino foi bom comigo, agiu de forma decisiva. A minha mãe, que deveria estar em um longo plantão no hospital, sentiu que não daria tempo de me ver antes de partir. E retornou para casa mais cedo do que o previsto, tudo para passar a madrugada comigo. O barulho do carro o afastou, Orlando parecia um anjo falando com a minha mãe. Eu no banheiro tentava me recompor, minha mãe não fazia ideia do que aquele homem era capaz. Até hoje ela fala que Orlando é maravilhoso, que não se vê sem ele. Cada vez que eu tentou falar algo sobre ele, minha mãe nunca me escuta, parece que está sobre efeito de algo que não a deixa enxergar. Posso ouvir as risadas, as batidas na porta, se aquela porta fosse um centímetro mais fina, eu não sei se estaria agora lembrando de algo c***l e hediondo." - Daniela? Dani? - Abro só olhos com Xavier desesperado na minha frente. - O que foi? - Pergunto vendo que já era noite, que Olívia não estava no quarto. - Cadê as meninas? Xavier se senta na minha frente, ele estava aflito. - Você estava dormindo, as meninas saíram do quarto para te deixar descansar. O dia foi difícil. - Ele diz com aqueles olhos azuis escuros. - Eu estava vindo te chamar para jantar, mas no corredor eu ouvi seus gritos. Você estava gritando para alguém ir embora. - Engulo em seco. - Não sei se foi sonho, eu lembrança, mas você estava desesperada. - Me encolhi no tapete felpudo da Olívia. - Ei... - Ele me puxa para o seu colo. Não sei porque, não sei de onde, mas eu me sentia protegida naqueles braços que me apertavam. - Xavier, eu preciso proteger a minha mãe. - Digo entre os soluços, nem percebi que chorava igual criança. - Já cuidei disso antes mesmo de aceitar o meu pedido. - Olho para ele. - Não me pergunte o porquê, mas sim, sua mãe está segura. Amanhã vai poder falar com ela. - Me acalmou um pouco. - Dani... - Eu sabia o que ele queria me perguntar. - Depois, eu juro que conto depois... - Digo me agarrando a ele. Ele engole seco. - Eu vou cobrar... - Eu sei...
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