4. Primeiro embate com André

717 Palavras
Sarah ajeitou o blazer preto sobre os ombros e respirou fundo antes de descer do carro. O estacionamento do prédio onde funcionava o escritório de André estava movimentado naquele fim de tarde em Salt, com executivos entrando e saindo apressados. O vidro espelhado refletia o céu avermelhado e, por um momento, ela teve a estranha sensação de estar entrando num tribunal — mas naquele dia, o caso não era de um cliente. Era o seu. O elevador subiu lentamente até o oitavo andar. Enquanto observava os números se acendendo um a um, Sarah sentiu o coração bater mais rápido. Não era medo. Era indignação. Poucas horas antes, André havia telefonado dizendo, com uma frieza quase burocrática, que eles deveriam se encontrar para conversar “civilizadamente” sobre “os termos do divórcio”. Nem parecia o mesmo homem que outrora rasgava elogios à sua inteligência. Quando a porta do elevador se abriu, ela caminhou pelo corredor silencioso até a sala de reuniões. A secretária abriu a porta com um sorriso sem graça — claramente sabendo de toda a situação. André estava à mesa, de pé, com um molho de documentos na mão. O terno impecável, o olhar controlado. Quase um estranho. — Obrigado por vir — disse, puxando a cadeira para ela, como se ainda fosse um gesto de cavalheirismo. Sarah sentou-se, mantendo o queixo erguido. — Podemos ir direto ao ponto, André. Meu tempo também é valioso. Ele assentiu, mas manteve a expressão neutra enquanto se sentava no lado oposto da mesa. — Eu conversei com meu contador e com um consultor juridico… — começou, folheando alguns papéis — e chegamos a uma proposta razoável. Acho que é o melhor para todos, especialmente para o Henrique. O nome do filho pairou no ar como um lembrete doloroso. Sarah cruzou as mãos sobre o colo e permaneceu em silêncio. — A proposta é simples — continuou ele — você fica com a casa em Salt e o carro. Eu fico com o escritório e os investimentos vinculados a ele. Em troca, assumo integralmente o custeio da educação e da saúde do Henrique até os dezoito anos. Sem pensão mensal. Acredito que… — Sem pensão mensal? — interrompeu Sarah, arqueando as sobrancelhas. — Sendo que a pensão é um dever legal previsto no artigo 342 do Código de Família de Isis. Devo lembrar que a obrigação é irrenunciável? André cerrou os lábios. — Estou oferecendo algo melhor. Custos integrais de educação e saúde… — O que não cobre despesas alimentares básicas, vestuário, moradia, lazer, nem eventuais necessidades extraordinárias — emendou Sarah, com a voz firme. — Além disso, você se esquece de um detalhe: o escritório foi construído com base em trabalho intelectual conjunto. Eu posso provar cada contribuição. André apoiou os braços sobre a mesa, inclinando-se levemente para frente. Havia, nos olhos dele, um brilho de impaciência. — Sarah, você está magoada, eu entendo. Mas não precisa transformar isso numa guerra. Todos sabem que fui eu quem construiu esse escritório. Seu nome nem aparece nos contratos. Não vamos fingir que você era minha sócia. Sarah inclinou-se também, mas com elegância. — Não sou sócia formal, André. Sou coautora dos pareceres que te renderam os maiores honorários da sua carreira. Tenho rascunhos, e-mails, datas e registros. Se você quiser transformar isso numa batalha judicial, eu não apenas tenho legitimidade — tenho competência. Ele desviou o olhar por um instante, como se a firmeza dela o tivesse ferido. Depois respirou fundo e encostou-se na cadeira. — Então é assim… você vai me enfrentar? Sarah o fitou com serenidade, embora por dentro o coração ainda sangrasse. — Não, André. Eu não vou “te” enfrentar. Eu vou defender o que é justo. Por mim e pelo nosso filho. Um silêncio cortante se instalou na sala. Os dois permaneceram imóveis por alguns segundos até que André fechou a pasta, vencido. — Muito bem. Se é assim que você quer. Sarah levantou-se, pegou sua bolsa e caminhou até a porta. Antes de sair, virou o rosto apenas o suficiente para que ele ouvisse: — Eu queria um divórcio digno. Quem escolheu outra forma… foi você. E então saiu, com passos firmes, sentindo que, naquele momento, tinha retomado algo que havia perdido há muito tempo: o controle sobre a própria vida.
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