Um ano depois.
Um ano se passou desde a minha chegada a esta residência. Todas as noites, antes de dormir, converso com Ares. Tenho consciência de que provavelmente ele nunca me ouça, já que desde a primeira vez que o vi, ele nunca mais abriu os olhos. O médico veio dias atrás para rever seu tratamento e seu diagnóstico não foi agradável. A senhora West, sua mãe, ficou muito nervosa. Senti pena dela, mas não me senti m*l por isso, porque desde o início eu sabia perfeitamente que é impossível que o estado dele melhore.
Tem sido meses bastante estranhos para mim. Não saí de casa e só conheci o núcleo familiar interno. Fico na biblioteca estudando. Não me permitiram voltar para a universidade, então faço aulas em casa, o que parece absurdo, mas pelo menos me distraio com algo.
De acordo com Arnold, o irmão mais novo de Ares, se eu fosse para a universidade, estaria propensa a ser infiel a seu irmão e manchar o sobrenome. A desculpa dele é que sou jovem e emocionalmente instável, necessitando de experiências como os jovens de hoje em dia, e provavelmente propensa a ter um romance oculto.
Se ele soubesse.
Essas desculpas absurdas foram suficientes para minha sogra, Fátima, proibir que eu fosse às aulas presenciais e tivesse que fazê-las aqui em vez de ir à universidade. Por um lado, eu a entendo, mas por outro parece injusto. Minha mãe me diz para aguentar o quanto puder e, aos poucos, impor meus direitos.
Algo que tem sido um pouco complicado desde o último mês com a presença de Arnold em casa. Ele chegou da Europa e decidiu ficar aqui em vez da casa de sua mãe ou de um hotel.
Mas não posso reclamar, não hoje. Estou estudando, em um ano serei uma profissional, tenho um conforto que ninguém tem, meus pais estão bem financeiramente graças ao dinheiro que é depositado nas suas contas todos os meses, e eu passo as noites conversando com alguém que não me ouve, mas pelo menos me ajuda a não perder a sanidade.
Sorrio ao lembrar que ontem à noite apliquei uma máscara hidratante em seu rosto. Ele estava bastante engraçado, na verdade. Tive um momento de spa antes de dormir e não pude resistir em colocar uma máscara nele também. Ri muito vendo-o com o rosto endurecido, usando uma máscara cor-de-rosa com brilhos; até tiramos uma foto para registrar o momento.
Depois me senti m*l por estar zombando de uma pessoa em estado vegetativo e meu bom humor desapareceu.
Por isso estou aqui na biblioteca desde o começo do dia, lendo um livro que me distraia de minha pequena travessura de ontem.
— Senhora Abi, estão te esperando na sala de estar. — diz Eliza entrando na sala.
— Aconteceu algo r**m?
— Não creio, mas querem falar algo importante com você, vamos.
Deixo o livro na mesa e me levanto do confortável sofá, seguindo-a. Desde a visita do médico, não tinha visto nenhum parente de Ares por aqui.
Chego à sala ampla, uma das muitas, e me aproximo para cumprimentar respeitosamente nada menos que sua avó. Sorrio e me sento ao seu lado. A senhora fica feliz em me ver, até mesmo me diz que estou mais bonita do que da última vez. Ela pergunta como vão os estudos e me pede para visitá-la um dia na Inglaterra.
— Pequena Abi, vim aqui para te pedir algo muito especial.
— Diga, por favor — sorrio nervosa — O que precisa de mim?
— Que você se torne mãe.
Abro os olhos bem arregalados ao ouvir seu pedido tão direto. Não sei o que dizer, meu pulso acelera com os nervos que sinto agora mesmo e ela nota. Ela segura minhas mãos e as acaricia, transmitindo calma para mim.
— Sei que é algo rápido, mas meu neto está muito m*l. Se ele morresse amanhã, não deixaria herdeiro, seu patrimônio passaria para seu irmão e você não teria nada, você quer isso? Você deixaria que tudo pelo qual Ares trabalhou durante tantos anos caísse nas mãos de seu irmão? Não me entenda m*l, mas Arnold sempre teve rancor de seu irmão, tanto que ele seria o mais feliz se seu irmão não estivesse mais entre nós.
Olho para ela sem acreditar no que me está pedindo, mas o mais difícil de processar é o fato de que sem um herdeiro, não há herança para mim, e isso é algo que nem ela nem minha sogra me disseram, será que elas tinham isso tudo planejado? Ou ela realmente está me pedindo isso para proteger os bens de seu neto? A relação deles era tão r**m assim?
Sinto que estão me escondendo algo. Não sei por que sinto a sensação de ser um fantoche agora.
Tenho tantas perguntas agora, mas não permitirei que isso aconteça.
— Preciso me deitar com ele? — Tenho pavor só de imaginar.
— Não é necessário, Abi. Será por inseminação artificial.
— Então eu farei.
A anciã fica feliz, sorri satisfeita. Celebra o fato de a inseminação artificial ser um sucesso. No meio da celebração, meu amável cunhado e sua esposa aparecem, minha sogra também se junta, e todos se sentam, curiosos com a inexplicável felicidade da avó Débora.
— Qual é o motivo da sua felicidade, avó?
— Ônix fará uma inseminação! — Responde com alegria— Ela dará um filho para Ares!
Minha sogra ficou extremamente feliz. Ela aplaude com emoção, se aproxima de mim, agradece e parabeniza pela minha decisão. Por outro lado, meu cunhado parece hesitante e sua esposa também.
— Você acha que isso é uma boa ideia? — pergunta receoso.
—Tenho certeza de que ela vai engravidar e trará ao mundo o legítimo herdeiro do seu irmão, você vai ver.
Ela sentencia com muita segurança.
Não sei por que eu tenho a sensação de que meu cunhado não gosta de mim, sua avó não o suporta e sua mãe deve apenas tolerá-lo por ser seu filho.
Arnold me lança um olhar frio, mas com um sorriso nos lábios. Ele se levanta junto com sua esposa e ambos se despedem de nós dizendo que voltarão para o jantar.
Não baixo minha cabeça, não quero que ele pense que me intimida, mesmo que ele o faça.
— Com licença, estarei no meu quarto. Preciso falar com meu marido e informá-lo de que, possivelmente em um futuro próximo, ele se tornará pai.
Ambas as mulheres me olham com um grande sorriso e eu também lhes ofereço um, mas ao me afastar delas, eu paro de sorrir.
Estar grávida não estava nos meus planos, não quando estou determinada a me formar na universidade, mas terei que adiar meus estudos por algo maior. Nunca permitirei que meu cunhado fique com o que me pertence, não depois de suportar por um longo ano ser a esposa de um homem vegetal, morto em vida, que nunca mais abriu os olhos desde aquele dia. Eu deixei meu verdadeiro amor por isso, então seria t**o desistir após todo esse sacrifício.
Não fiquei completamente fechada para a ideia de ser mãe, porque era algo que eu imaginava que aconteceria. Todos nessa casa mencionaram isso de forma sutil, sussurrando sobre um herdeiro de Ares West. Muitas vezes ouvi os funcionários murmurando sobre isso, e embora todos me tratem bem e com respeito, detesto ouvi-los. Não pelo bebê que está em suas mentes, mas sim pelo fato de darem como certo que Ares e eu fazemos sexo. Estão loucos? Eu sei que o m****o pode reagir, já que tenho notado isso durante um longo ano de manhãs, mas nunca ousaria sequer tocá-lo.
Isso seria demais, até mesmo para alguém como eu que está casada por outros interesses.
Chego ao nosso quarto frio e desolado, fechando a porta atrás de mim. Caminho até ficar em pé em frente a ele, o olho de perto e ainda não consigo acreditar o quão bonito esse homem é, mas ao mesmo tempo, não consigo superar o fato de que, apesar de ter apenas trinta e seis anos, sua vida acabou tão cruelmente.
Ser um humano inerte deve ser o pior castigo do mundo. Investiguei sobre o caso dele e em todos os textos que li na biblioteca, afirmam que a maioria das pessoas em coma pode estar consciente do que acontece ao seu redor, outras não têm tanta "sorte", e se for o caso, o que Ares pensa quando me ouve falar sobre minhas bobagens?
Com certeza ele amaldiçoa cada vez que ouve minha voz, mas se eu tenho que suportar estar casada com ele, ele tem que me suportar. Parece justo, então estamos quites.
Com um sorriso nos lábios, começo a trocar de roupa para dormir.
[...]
Na semana seguinte tudo aconteceu muito rápido. Na segunda-feira de manhã, acordei bem cedo para ir à clínica a pedido da avó Débora. Após uma visita ao médico e o próprio médico se certificar de que sou uma jovem fértil e com boa ovulação, ele agenda a consulta. Foi na quarta-feira e eu voltei para casa, um pouco cansada de ter passado pelo processo de inseminação. Minha sogra me acompanhou e ela estava tão animada que, sem querer, eu também comecei a ter esperanças.
A sexta-feira chegou e agora estou em nosso quarto, em pé na frente dele.
— Ares... Quero que você saiba que me pediram para lhe dar um herdeiro. — respiro fundo e solto lentamente— Eu fiz uma inseminação artificial para poder conceber e pode ser que, em um futuro próximo, você se torne pai. Não tenho nada contra bebês, e eu sei que vou amar por ser parte de mim, mas quero que você saiba que será apenas por isso, porque, como eu já disse antes, eu não te amo, mas posso pelo menos suportar ser sua esposa e dormir ao seu lado à noite.
Dou um sorriso astuto, carente de graça. Eu não amo esse homem, mas aprendi a tolerar sua presença neste quarto. Se eu engravidar, seu bebê saberá que seu pai é um grande homem. Isso vou dizer, repetir o quanto ouvi falar bem dele antes de nos casarmos.
Guardarei meus comentários maldosos.
Meu coração para com uma reviravolta que me deixa sem fôlego. Sinto minhas pernas fraquejarem, um arrepio percorre minha espinha ao ver novamente aqueles olhos negros que pensei nunca mais ver.
Meu pulso acelera descontroladamente ao vê-lo mexer a mão e sinto o mundo desmoronar ao ouvi-lo murmurar palavras que não consigo entender. Ele acordou, agora ele acordou do coma.