Uma Ameaça

1784 Palavras
Eu olho diretamente nos olhos dele. Esses olhos negros, tão negros quanto sua alma. Suas palavras cruéis ecoam em minha cabeça, a sentença não passa despercebida por mim. Meu senso de razão me pede para fugir, correr longe dele, desta casa, de sua família e ir para bem longe onde ele nem sequer possa olhar para mim, mas meu outro lado, aquele que não se deixa vencer, humilhar ou ameaçar, quer dar uma resposta. — Não. —O que você disse? Seu semblante muda para um sombrio, maligno e ameaçador, mas eu não vacilo. —O que você ouviu, Ares. Se eu ficar grávida ou não, eu irei embora e irei sem levar um centavo do seu dinheiro. — Você não vai! — Seu grito ressoa por toda a ampla sala de jantar junto com o golpe na mesa. —Eu vou sim. Pode ser que você seja meu marido, pode ser que a nossa união não tenha sido a mais correta, mas você não tem o direito sobre o meu corpo, muito menos tomar uma decisão que compete somente a mim. Você é tão c***l a ponto de matar seu próprio sangue? — o enfrento levantando-me — Tomara que eu não esteja grávida, tomara que eu nunca possa engravidar para que quando você morrer, seu legado e sua descendência morram com você. Você é um homem m*l e implacável que esconde sua natureza por trás de um terno elegante, mas lembre-se disso; eu também posso me esconder por trás deste rosto angelical. O ditado se aplica perfeitamente a você; "é melhor um demônio conhecido do que um anjo por conhecer". Não se confunda comigo. — sussurro com calma fingida. Sem me importar se isso será meu exílio, olho diretamente em seu rosto. Sinto que meu coração vai saltar do meu peito, inclusive acho que meus batimentos podem ser ouvidos. Por alguns segundos, penso em sair daqui e não comer, mas isso faria com que ele considerasse que eu tenho medo, e embora não seja mentira, é melhor não mostrar isso logo de cara. Ele já me viu assustada o suficiente quando me expulsou do nosso quarto ao acordar. Volto a me sentar sob seu olhar afiado. Não abaixo minha cabeça, percebo que a contenção de sua crueldade está prestes a explodir e vir à tona. Eu arrisquei, mas se eu quero sobreviver aqui, farei isso sempre com a minha voz alta. "Não suportei um ano inteiro para nada" — Chegue mais perto —ele me ordena. Franzo minha testa, até hesito em fazê-lo ou não, mas basta um olhar para os seus homens para eu me levantar e fazer isso. Não quero ser tocada por esses cães de terno. Eu me levanto com a cabeça erguida, sentindo a adrenalina percorrer meu sistema. Quando isso acontece, eu simplesmente não sou eu mesma, e temo o que acontecerá agora. Ele me olha atentamente, sua expressão me adverte de uma coisa; perigo. Mas eu não recuo, decido enfrentar minha ameaça com dignidade, porque, por mais que eu tenha me defendido, eu sei que cometi um erro e ele não vai deixar isso passar. Justo quando estou prestes a me aproximar, ele estende o braço e segura fortemente meu pulso, fazendo-me cerrar os dentes para evitar demonstrar dor diante dele. —Não me ameace novamente na frente dos meus homens ou de qualquer pessoa, Abigail, e você irá se arrepender, entendeu? Ele brada perto do meu rosto com raiva, ódio contido e vontade de me fazer chorar, mas eu não permito isso. — Você está me machucando. — E você acredita que isso me importa? — ele se aproxima ainda mais — Eu fiz uma pergunta, exijo uma resposta. — Ficou mais do que claro, Ares. Seus olhos escuros mostram a escuridão de sua alma. Por alguns segundos, ele analisa meu rosto com seu olhar e então solta sua agarra e recupera a compostura com as costas eretas. — Dito isso, você vai se sentar ao meu lado para tomar café da manhã em paz. Sinto que meus dentes vão quebrar a qualquer momento de tanto que eu os aperto para não chorar. Minhas pernas tremem, meu coração bate alto demais, mas não demonstro medo. Sento-me ao lado dele e com um leve tremor nas mãos, começo a comer ignorando seu intenso olhar. Tudo permanece em silêncio, só se ouve o som dos talheres no prato. Às vezes, sinto que estou sufocando, que estou me afogando no meio de um espaço tão aberto, mas sei que são meus medos me traindo. Eu termino de levar a última garfada à boca, mastigo, engulo e bebo o suco de laranja. — Terminei, posso me retirar ou você tem mais algo a dizer? — Você pode ir, e não esqueça das minhas palavras. Sem olhá-lo nos olhos, eu me levanto do meu lugar. Saio da sala de jantar sentindo o peso de seu olhar em meus ombros, mas não mostro uma aparência abatida. Chego às escadas que levam ao andar de cima e justamente neste momento, encontro a senhora Eliza. Ela, ao me ver, me lança um olhar de pena. Com certeza ela ouviu o grito e testemunhou tudo. — Vamos colocar gelo nesse pulso. —Pode ser no meu quarto? — pergunto baixinho— Não quero que ele me veja chorar. Meus lábios tremem, e sinto uma ardência nos meus olhos. — Espere lá, irei logo. Ela sorri docemente antes de ir para a cozinha. Subo as escadas quase correndo e quando chego ao meu quarto, vou em direção às janelas e as abro para respirar um pouco de ar fresco. Saio para a varanda e sento em uma das cadeiras estofadas, olhando para o jardim enquanto acaricio com a minha outra mão meu pulso machucado.Eu não faço barulho, apenas deixo minhas lágrimas rolarem pelas minhas bochechas até caírem no meu peito. Respiro fundo, procurando uma maneira de me acalmar e não desmoronar. "Eu preciso ser forte" Só de imaginar que talvez esteja grávida e que ele vai me obrigar a abortar, isso me apavora. Em minha mente, eu imploro a Deus para que isso nunca aconteça. Eu sei que os médicos disseram que eu era fértil, que estava tudo bem, mas neste momento, agora eu desejo ter um ventre seco, danificado e que nunca gere um filho daquele homem impiedoso e c***l. A Sra. Eliza entra e, sem dizer uma palavra, coloca uma bolsa de gelo em meu pulso. Ela fica em silêncio enquanto eu apenas respiro fundo e deixo minhas lágrimas expressarem tudo o que sinto agora. — Você foi muito corajosa lá fora… — Sua voz materna me tira de meus pensamentos. — Eu acho que minha coragem é mais imprudência, mas se essa 'imprudência' impedir que ele me machuque, sempre serei 'imprudente' com ele. —O Sr. Ares não é mau, — finalmente viro para olhá-la com uma sobrancelha levantada. — Ele é apenas um homem ferido pelo passado, Sra. Abi ... Estou certa de que se você soubesse a verdade, entenderia um pouco o motivo de sua atitude. — Você vai me dizer?  — pergunto curiosa. Ela n**a imediatamente. — Não cabe a mim revelar segredos alheios. Um dia, seu esposo sentirá a necessidade de contar a verdade, e aí você decidirá se o justifica ou não. Eu franzo meus lábios. — Eu acredito que se ele soubesse os meus, ele também me justificaria ... mas confessar coisas um ao outro está a anos-luz de acontecer. Então, por enquanto, só resta suportar as consequências das minhas decisões e sobreviver a elas. Pego a bolsa de gelo em minha mão e continuo a esfregá-la para aliviar o desconforto. A Sra. Eliza se levanta e me diz que ela estará cumprindo seus deveres, mas se eu precisar de algo, não hesite em procurá-la. Será que ela pode me dar dinheiro para salvar a empresa? Tomara que pelo menos pudesse me tornar estéril simplesmente estalando os dedos. Eu preciso ver minha mãe, contar a ela o que aconteceu. Procuro meu celular e envio-lhe uma mensagem avisando que irei para casa. Enquanto espero pela resposta dela, vou tomar um banho para relaxar um pouco e tirar seu toque da minha pele. Em frente ao espelho, eu penteio meu cabelo. Aliso minha saia um pouco e ajeito minha blusa. Estou usando um conjunto de saia e blusa na cor lilás. É simples, mas elegante. A blusa tem ombros bufantes e decote em forma de coração, mas não vulgar. O comprimento da blusa vai até a cintura da saia, mostrando um pouco de pele. Eu combino com um par de sapatos brancos e como joias, um belo colar de pérolas. Aplico perfume, pego a alça da minha bolsa e a coloco atravessada. Guardo meu celular e saio do meu quarto determinada a não voltar até o jantar pelo menos. Justo quando estou descendo as escadas, o vejo cruzando em sua cadeira de rodas enquanto um de seus homens o empurra. Ao me notar, ele levanta a mão para que o homem pare e com esses olhos intensos e escuros, ele me examina da cabeça aos pés. Engulo em seco, sinto meu coração dando cambalhotas diante do exame de seu olhar, mas continuo descendo cada degrau sem abaixar minha cabeça. — Para onde você vai? Eu não me lembro de ter te dado permissão para sair. — Eu não me lembro de ter te pedido permissão, Ares. Vou à casa da minha mãe, costumo visitá-la sempre nessa hora —  minto. — Você também vai arrancar isso de mim? Ele pressiona a sua mandíbula, posso ver como ele aperta as mãos nos apoios dos braços da cadeira, até mesmo se ele pudesse andar, tenho certeza de que ele me daria um tapa por minha maneira de falar com ele. Estou arriscando, mas não me importo. — A única coisa que eu desejaria arrancar de você seria esse possível bebê — ele sorri maliciosamente. — Do resto, você pode fazer o que quiser, Abigail. Mas não se esqueça disso; se passar pela sua cabeça estar com outro homem enquanto você é minha esposa, vai se arrepender. Pelo seu jeito de se vestir, duvido que seja apenas uma visita à casa da mamãe. Tenha em mente que meus homens irão lhe vigiar e seguirão você nas sombras. Ouse se encontrar sozinha com alguém que não seja eu, e eu destruo você e sua família. “Ele está insinuando que eu vou me encontrar com outro homem?" Eu o encaro com desdém, ignorando-o e sua súbita ameaça conjugal. Ares está louco, e agora eu vejo pessoalmente que tudo o que dizem sobre ele ser r**m é totalmente verdadeiro. "Ele é um homem impiedoso e cruel."
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