Cobaia

1074 Palavras
CAPÍTULO 02 Aeroporto de Colingan – 21 de abril de 2025, 09:30. No dia seguinte, o saguão de embarque estava movimentado. Ana e Neytan já haviam feito o check-in e aguardavam há alguns minutos. Como era de se esperar, James estava atrasado — não o suficiente para perder o voo, mas o bastante para testar a paciência da equipe. — O agente James ainda não deu sinal de vida? — perguntou Neytan, quebrando o silêncio desconfortável que pairava entre os dois. — Ainda não, mas ele mandou mensagem. Já está entrando no estacionamento — respondeu Ana, tentando soar casual. — Esse agente precisa aprender o significado de profissionalismo — sentenciou Neytan, os olhos fixos em um relatório no tablet. Ana permaneceu calada. Por mais que James fosse seu melhor amigo, no fundo, ela concordava. A SION não era lugar para amadores, e o comportamento de James estava se tornando um risco. — Você não deveria cobrir os atrasos do seu parceiro, agente — continuou Neytan, sem desviar o olhar da tela. — O quê? — Ana congelou. — Pode acabar se prejudicando por erros que não são seus. Ana sentiu o sangue subir ao rosto. Como ele sabia? Ela sempre fora cuidadosa ao apagar os registros de entrada ou inventar desculpas para a Dra. Norma. Neytan fora transferido da Interpol para a SION há pouco tempo e já parecia ler as pessoas como livros abertos. Ele era brilhante, misterioso e, como muitas agentes comentavam nos corredores, perigosamente atraente. — Eu não... como você... — ela gaguejou, mas Neytan a interrompeu com um gesto sutil. — Não se preocupe, não pretendo relatar nada. É apenas um aviso. Tenha mais cuidado. Antes que Ana pudesse processar a advertência, James surgiu correndo, ajeitando a jaqueta e ofegante. — Bom dia! — exclamou ele, tentando recuperar o fôlego. — Finalmente — disse Neytan, levantando-se com uma frieza que fez o sorriso de James murchar. — Desculpem o atraso, o trânsito estava um caos absoluto. — Chegou na hora certa, James. Vamos logo antes que o portão feche — interrompeu Ana, querendo evitar um confronto logo no início da missão. O voo para Nevada foi silencioso. Ao pousarem, um helicóptero militar já os aguardava sob o sol escaldante do deserto para levá-los à zona de exclusão. Quando as rodas tocaram o solo da base militar, foram recepcionados pelo Comandante Victor, um homem cujo rosto carregava o peso de uma derrota recente. — Sejam bem-vindos, agentes. Eu sou o Comandante Victor. Estava aguardando vocês — disse ele, com a voz rouca. Após as apresentações formais, James foi direto ao ponto: — Comandante, o que exatamente aconteceu aqui? O relatório oficial estava... vago. Victor suspirou, olhando para o horizonte árido. — Recebemos ordens para recuperar um "ativo" que havia escapado do laboratório subterrâneo. Mandei meu melhor grupo de batedores. Ninguém voltou. Mandei um segundo grupo de apoio. Silêncio total. Quando eu mesmo liderei a terceira equipe para investigar, o que encontramos foi um banho de sangue. Quase todos estavam mortos. O único sobrevivente foi o Tenente Carl. O comandante fez uma pausa, os olhos nublados pela memória. — No hospital, Carl jurou que não foram atacados por um exército. Ele disse que era uma mulher. Mas não uma humana comum. Ele a descreveu como um borrão, algo tão rápido que as balas pareciam não atingi-la. Ela os abateu um por um, como se estivesse brincando. Os agentes trocaram olhares perplexos. James quebrou o silêncio, tocando o ombro do comandante em um gesto de respeito. — Sentimos muito pelas suas perdas, Comandante. Vamos entrar lá e descobrir o que fez isso. Guiados por um esquadrão de segurança, o trio entrou no complexo. O cheiro de ferro e morte ainda impregnava os corredores. Havia marcas de tiros nas paredes, mas quase todas estavam em alturas erradas, como se os soldados estivessem atirando no vazio. — O que vocês acham que causou isso? — perguntou James, analisando uma poça de sangue seco. — Acha que o Tenente estava falando a verdade sobre ser apenas uma mulher? — indagou Ana, a voz ecoando no corredor frio. — Eu não duvidaria — respondeu Neytan, analisando a trajetória de um impacto na parede. James e Ana se entreolharam, curiosos. — O que quer dizer com isso, Neytan? — perguntou James. — Olhem ao redor. Isso é um laboratório de biogenética no meio do deserto. Vocês acham que o governo gasta bilhões aqui apenas para testar rifles? — Ele tem razão — concordou James. — Vindo de onde vem o financiamento, podemos esperar qualquer coisa. Ana ficou observando Neytan por alguns segundos. Ele sabia de algo. A forma como ele se movia, a reserva constante, as reuniões privadas com a diretoria... Neytan era um enigma. Ele percebeu o olhar dela e sustentou o contato por um momento com seus olhos intensos e profundos. — É melhor continuarmos. Ainda temos muito chão para cobrir aqui dentro — disse ele, virando as costas e seguindo em frente. Eles chegaram a uma ala ainda mais profunda. Através de janelas reforçadas, viram celas e tanques de vidro que claramente serviam para conter seres humanos. — Ali! — apontou Ana para uma sala de monitoramento. — Vamos ver as gravações. Após alguns comandos no teclado, as imagens granuladas surgiram na tela. Antes da chegada dos soldados, uma garota de aparência jovem, vestindo trapos brancos, espreitava pelos corredores. Ela se movia com uma agilidade animal. As câmeras registraram o momento em que ela atacou os cientistas e, logo depois, o m******e do primeiro grupo de militares. — Mas o que é isso? — James sussurrou, incapaz de desviar o olhar. — É só uma garota... — disse Ana, chocada com a violência das imagens. — Não — corrigiu Neytan, sua voz soando como um veredito. — Ela é o experimento. A cobaia que sobreviveu a tudo. — Está dizendo que nossa missão é caçar uma adolescente? — perguntou Ana, a voz carregada de dúvida. Neytan finalmente desviou o olhar da gravação e encarou a parceira com uma seriedade gélida. — Sim — confirmou ele. — E ela é a arma mais letal que este governo já criou. James soltou um suspiro pesado, tentando processar a loucura da situação. — Bom, eu já vi de tudo nessa vida, mas caçar uma garota prodígio altamente perigosa é novidade. — Ele deu um sorriso de lado, embora seus olhos estivessem sérios. — Isso vai ser divertido. Continua...
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