Aguentar ouvir as palavras de Allura sem gargalhar foi muito mais difícil que matar aquele homem que eu mesmo enviei. Já ouvi muitas coisas falsas sobre mim, lendas, mas nada foi tão i****a quanto me comparar a um anjo da guarda. Sim, é claro que eu queria que esse fosse o pensamento dela, mas não esperava que ela iria audivelmente me colocar como seu anjo.
Pobre Allura...
Apesar de tudo, não tenho nenhum sentimento de culpa por estar fazendo isso com ela. Primeiro que ela merece, naquelas veias correm um sangue podre de uma família que acredito ter participado em uma tentativa de destruir a minha inteira – e conseguiu destruir parte dela. Depois daí eu vim perdendo tudo, meu pai, minha mãe, qualquer pessoa que restou.
Ela é a última Costello e eu sou o último Black. Não é possível ter os dois sangues sobrevivendo nesse mundo, e claro, que ela não tem o que é preciso para me destruir – então sou eu que preciso fazer esse serviço e não hesitarei. Geralmente eu gosto de coisas difíceis para falar a verdade, de arquitetar, fazer jogadas para chegar em um objetivo. Pensei que Allura seria mais desconfiada com estranhos, mas ela se tornou um outro polo, uma inocente carente de atenção – em especial a masculina.
Volto para a Black satisfeito, tudo está indo bem com a minha vingança. Apesar disso, ainda não descobri quem realmente segurou a faca naquele dia. Todas as noites eu tento me lembrar, passei anos sem nem dormir direito tentando fazer minhas memórias voltarem. Mas não, há a p***a de um bloqueio que não consigo remover e nem a terapia que eu fazia quando era criança me ajudou – claro que eu não continuei essa merda.
— Onde está Gian e os homens que enviei para o pagamento? — Questiono ao primeiro que encontro.
Gian é o meu consigliere e único que não tem medo de ser assassinado por mim. Ele é filho de um antigo soldado da Black e treinou comigo quando crianças, por isso eu o escolhi para ser meu braço direito depois que me tornei o Don.
— Sim, Sr. Chiellini está no subsolo. — A resposta me agrada por um lado, mas por outro me enfurece.
Se Gian está no subsolo é porque precisou trazer para cá o caloteiro para convence-lo de pagar. Eu gosto de fazer as coisas do jeito difícil, mas preferia o meu pagamento. Aceno para ele e desço até o nosso porão preparado para receber as pessoas que precisam de um afinco a mais para fazer o que devem, ou precisam apenas pagar com o sangue.
— O que está aprontando aqui, Sr. Chiellini? Ainda é seguro entrar? — Quando o elevador se abre, eu adentro já o questionando.
Minha resposta é o grito do nosso convidado, que depois de alguns passos consigo vê-lo preso na cruz de Santo André e totalmente sem roupa. Em sua frente está Gian, sem camisa, um jeans justo e os cabelos pretos estão suados e grudam no rosto de tão molhados.
— Bem vindo, Don. Aqui está o seu presente, infelizmente não é a sua grana. — Sorri para mim mostrando o corpo já cheio de marcas em sua frente.
— Poderia ter sido do modo fácil, não é? Agora vai depender dos seus homens de merda conseguirem o dinheiro para me pagar, ou não sairá daqui. — Informo.
— Será uma longa estadia. — Gian não está nada triste com essa situação, é claro. Já caminhando para mim mas olhando em direção ao pedaço de carne pendurado em sua frente. — Com licença, eu já volto para continuarmos.
— Tenho certeza que ele irá sentir sua falta enquanto isso. — Brinco, nós dois caminhando de volta em direção ao elevador, eu não tenho intenção de participar dessa brincadeira porque está bem abaixo de mim. É apenas uma boa diversão para Gian também então nem me meto. — Acha que consegue? Não podemos deixar que pensem que aceitamos esse tipo de impertinência.
— Você me insulta, Don. — Retruca, me tirando uma risada. — Enfim, como foi com a futura primeira dama?
— Não a chame assim, sabe que não é isso que eu pretendo para ela. — Contesto.
— Na verdade, é exatamente isso. — Não ao meu ver.
Eu tenho uma visão a longo tempo sobre o que farei com Allura e não é algo que será rápido. Meu pai sofreu por anos a morte de um filho, o meu trauma, ele morreu sem ter a chance de completar sua vingança. É claro que eu não farei nada que seja simples assim, ela precisa conhecer o que significa sofrer de verdade antes de finalmente ter a minha permissão para morrer.
— Gian, não tente a sua sorte. — As vezes a i********e é uma droga. Ele acha que tem o direito a falar qualquer merda.
— Tudo bem, eu não estou tentando abusar. Mas estou curioso. — Muda mais as palavras, falando como gente, talvez com medo de tomar um lugar ao lado do homem que está torturando.
Mas eu não estou no meu dia para isso, ele não precisa se preocupar. Quando eu resolvo torturar alguém, a pessoa não fica viva para contar história e quando eu decido por permitir sua vida, ela nunca mais é a mesma e é exatamente isso que eu quero – uma alma perturbada.
— Melhor do que eu esperava, a garota se tornou a i****a romântica que eu pretendia que fosse e para completar, é inocente como uma pomba. — Sorrio maquiavélico, relembrando a cena. — Bastou umas palavras, uns sorrisos e ela está visivelmente encantada por mim. Acredita que ela disse que eu sou o anjo da guarda dela?
— As vezes eu tenho até pena dessa pobre garo...
— Não ouse terminar essa frase! — Em um único movimento eu o agarrei o pelo pescoço e lancei Gian contra a parede. O barulho de suas costas contra as pedras é alto e ele geme com o contato, afinal, está sem camisa. — O sangue dessa mulher tem parte com o assassinato do meu irmão. Ela não merece a sua compaixão, a compaixão de ninguém! Meu irmão merecia que sentissem pena dele, ele tinha apenas dois anos. Mesmo assim, foi morto com uma faca, sem rastos! Então nem abra a p***a da boca para dizer que tem pena dessa maldita Costello, nem de brincadeira!
— Dimi... — Aperto seu pescoço e ele leva as mãos até a minha na tentativa de me fazer solta-lo, já buscando ar. — Dimitri!
— Eu vou subir, tenho negócios importantes a tratar. — Eu o deixo respirar como se nada tivesse acontecido, ajeitando meu Vanquish no lugar. — Allura é uma mocinha bonita que a vida jogou nos meus braços como meu destino.
— Não esquecerei isso. — Passa a mão no seu pescoço. — Na verdade, se possível, depois que acabar com ela eu gostaria de aproveitar um pouco do produto também. Ela é realmente bonita.
— Bonita, mas sem graça para homens como nós, Gian. — Enquanto ela for minha propriedade, nenhum outro homem pode toca-la, mas depois que eu acabar com ela e antes de mata-la, talvez ela receba o mesmo destino da mãe. — Mas pensarei no seu caso.
Sim, os comentários sobre o que fizeram a Alina Costello antes de sua morte são conhecidos na Black – seria quase poético se o mesmo acontecesse a Allura antes dela morrer. Eu ficaria assistindo, como um prêmio depois de ter aguardado anos para ver o sofrimento dessa maldita com sangue de traidor.
•••
Preciso que Allura sinta a minha falta, ache que eu nunca mais irei aparecer. Então, eu pedi que Joe a enviasse uma vez por semana para buscar algo ou fazer algum serviço para ele – não me importa o motivo. Depois de três semanas com ela caminhando pela mini floresta sem encontrar ninguém, hoje é finalmente o dia dela reencontrar seu anjo da aguarda.
Aguardo no carro acima dos limites do terreno. É como uma ribanceira onde fica as árvores e o verde até a área do caminho de terra que fica mais embaixo e é onde Allura caminha. Recebi a mensagem da hora que ela saiu através de Joe e depois de calcular, desço e aguardo escondido nas árvores.
Hoje estou em um Vanquish carmesim. É uma cor bonita, a cor que muitos dizem que é do amor mas eu considero pecado. Claro que eu tenho que usar bem a minha imagem para atrair ainda mais a garota ingênua, eu sei o que eu causo nas mulheres, com o olhar, o corpo – e com algumas coisas a mais. Mas com Allura em especial, visto que ela não sabe lidar com essas sensações ainda, então eu preciso desperta-las com intensidade.
Meu cálculo funcionou bem, preciso aguardar cerca de cinco minutos apenas antes de ver a mocinha de franjinha aparecer na minha zona de visão. Hoje Allura está usando um vestidinho rosa, no mesmo estilo do outro, cintura bem justa e saia longa – diferente do outro esse não alcança o pé, apenas passa do joelho. Posso ver as sapatilhas velhas e gastas enquanto ela caminha de forma distraída.
Hoje seus cabelos estão todos soltos diferentes da primeira vez que eu estive aqui, onde tinha duas presilhas uma de cada lado. As mechas são cheias, volumosas e em um corte muito bonito até seus ombros. Apesar da visível falta de um cuidado maior eu percebi que são macios como a seda pura quando os toquei.
Espero que Allura passe da direção que eu estou e vou descendo silenciosamente de forma que ela não possa me ouvir. Eu sei como fazer quando não quero ser notado e assim eu o faço, para surpreende-la, até que chego no caminho de terra alguns passos atrás dela.
— Allura? — Chamo com alto som. Ela para, talvez pensando que seus ouvidos a enganam até lentamente virar para trás e me encontrar. Sorrio largo para ela, que me encara com aqueles olhos grandes e verdes brilhando. — Finalmente...
— Dimitri! — Sorri empolgada, quase correndo para mim até parar em minha frente.
É realmente divertido de assistir a forma que ela quer olhar para mim e ao mesmo tempo sua timidez não permite. Também é cômico a forma que ela sorri como se eu fosse a melhor coisa que já a aconteceu, sem ter nenhuma ciência dos meus verdadeiros planos.
— Eu achei que nunca mais haveria outra coincidência. — Tomo a liberdade de tocar seu rosto com minhas mãos, segurando-o da forma mais carinhosa que eu já toquei alguém e preciso me esforçar muito para manter a pose. Allura se tenciona no susto mas logo amolece, me encarando com seus olhos românticos. — Venho aqui todos os dias esperando encontrá-la, meu coração já estava inquieto esperando pelo dia que a veria uma outra vez. Seus olhos me acompanharam todos os dias, Allura.
— Eu vim por aqui durante um mês inteiro, torcendo para encontrá-lo. — Confessa. O melhor é saber que no caso dela, suas palavras são verdadeiras.
— Pelo jeito, nossos horários divergiram, para minha infelicidade. — Acaricio sua face com meus polegares e mantenho meus olhos nos dela. Apesar de sua tentativa de desviar seu olhar do meu, é como se ela estivesse hipnotizada. — Mas tudo valeu a pena agora. Está ainda mais linda do que eu me lembrava.
— Por favor, não diga isso. — Ela cora, tentando abaixar o rosto e não consegue por estar preso pelos meus dedos.
Com isso ela involuntariamente sobe as mãos até as minhas e quando me toca, seus olhos trêmulos pairam nos meus novamente. O toque de Allura não é como nenhum que eu já senti antes. Nós trocamos olhares por alguns segundos e dessa vez algo acontece, é como se nosso sangue gritasse em nossas veias que apesar de estamos trocando palavras carinhosas, somos inimigos destinados a destruir-nos até só restar um de nós.
— Venha, vamos sentar um pouco e conversar. — Preciso engolir o meu ódio e seguro uma de suas mãos, caminhando na frente até onde começa a elevação do penhasco. Droga! Essa poeira vai destruir o meu terno se eu sentar nesse barro.
— Eu também acho melhor não. — Sorri, percebendo que eu relutei um pouco.
— Não tem problema, venha. — f**a-se, é uma boa causa.
E o que é um Vanquish a menos?