Capítulo 1-2

2034 Palavras
O cômodo ficou em silêncio. — Nem todo mundo volta — Rachel disse calmamente. O seu sorriso constante desapareceu. — Oh, mas eu voltei. — Uri se levantou da mesa, pegou Rachel da sua cadeira e a colocou em seu colo. — Levou muitos anos, mas voltei para você, meu amor. — Três mil, trezentos e oitenta e seis anos, cinco meses, dois dias, doze horas, quarenta e oito minutos, e vinte três segundos — disse Rachel baixinho. Naomi ofegou. Ele desapareceu por tanto tempo? Seu peito se apertou enquanto Uri ternamente afastava uma lágrima da bochecha de Rachel. Se anjos podiam morrer, então Lash podia também, e não havia nenhuma garantia de que ele ressuscitasse. Todo esse tempo, ela pensou que não havia nada que pudesse separá-los. Ela achou que o teria para sempre. — Quando você morreu? — perguntou ela. — 1400 AC. Minha volta não aconteceu até…deixa eu ver, 1967 mais ou menos, quando nasci em um corpo humano. Não muito diferente de quando você nasceu no seu corpo humano. — Só que foi em Chernobyl em vez do Texas. — Rachel cutucou Uri no peito. — Eu finalmente o vi novamente quando ele completou dezenove anos. — Chernobyl nos anos 80. — Lash suspirou — Eu me lembro disso. — É, eu também — disse Rachel. —, nunca estive tão feliz e tão frustrada em toda a minha vida. Acredite em mim Lash, eu entendo totalmente o que você passou quando recebeu Naomi como tarefa. — Uri voltou como humano? — Naomi se virou para ele. — Você não sabia que havia sido um anjo antes? — Não. Demorou muito para Rachel me convencer. Diferente de você, eu não era o... huuum, devo dizer, mais moral dos humanos. — Uri piscou para ela. — Claro, Rachel mudou tudo isso para mim, e nós finalmente ficamos juntos novamente. — Mas três mil anos? Eu nunca poderia… — Ela olhou para Lash e respirou calmamente. — Eu não posso nem imaginar. — Ei — Lash se inclinou e beijou a sua bochecha. —, está tudo bem. Eu estou aqui — disse ele como se pudesse ler os seus pensamentos e medos sobre uma vida sem ele. Como Rachel conseguiu? Todos esses anos sem Uri, assistindo-o morrer daquela maneira, sem saber se ele sequer retornaria. — Por que você não me contou? — O assunto não surgiu. — Ele pegou a cartela de bingo da mão dela e segurou suas mãos na dele. — Você não tem com o que se preocupar, a situação do Uri é muito rara. Sem ofensa, Uri. — Não me ofendeu, meu amigo — disse Uri. — Naomi, Lash não é o mais rebelde dos anjos por aqui, por mais que ele goste de fingir que é. — Ele sorriu, mostrando as covinhas. — Existem coisas piores a se fazer do que algumas birras e bagunçar as tarefas. Lash fez cara f**a — Eu não chamaria de birras. — O que você fez? — Naomi não conseguia imaginar Uri fazendo algo tão r**m que sua punição fosse morrer no Inferno. Ele não parecia o tipo. — Eu não sabia que anjos podiam ser punidos assim. — Não foram os arcanjos que o puniram. — Rachel olhou para baixo para a cartela de bingo de Uri, franziu a testa, e atravessou a mesa para pegar outra cartela. — Eles nunca fariam isso. — Oh, eu consigo imaginar Gabrielle dando uma ordem como essa — disse Lash. — Lash — Naomi alertou, Gabrielle ainda era um assunto sensível para ele. Rachel contou para ela como Gabrielle e Lash não se davam bem. Então, quando Gabrielle foi designada como sua supervisora, ela achou que Gabrielle seria uma pessoa difícil de se trabalhar. Ao invés disso, ela fora bastante paciente com Naomi e ainda deu tempo extra para completar alguns dos seus treinamentos. Ela percebeu que Gabrielle era toda profissional e nunca interagia com nenhum dos anjos a nível pessoal. Naomi conseguia entender isso. Deveria ser difícil para ela ser a segunda no comando e próxima a Michael. Ela ainda não o tinha conhecido, mas todo mundo falava sobre ele com grande respeito, inclusive Lash. O único momento que Gabrielle parecia deixar a guarda baixar era quando estava com Raphael. Se ela não soubesse melhor, poderia jurar que Gabrielle estava apaixonada por ele. — O quê? — Lash olhou inocentemente para ela. — É verdade. Se fosse eu, ela faria isso em um piscar de olhos. — Gabrielle pode ser um pouco... dura, às vezes, mas ela faz pelo bem. — Os grandes olhos castanhos de Rachel brilharam com lágrimas enquanto olhava para longe parecendo se lembrar de algo. — Ela arriscou sua vida vindo atrás de mim, e ela não tinha que me dizer como chegar ao Lago de Fogo. — Uh, huh — Lash olhou para ela ceticamente por um momento, depois voltou sua atenção para Uri. — Então o que você fez? — Você não sabe? — Naomi perguntou, surpresa. Ela achou que, já que Rachel e Lash eram tão bons amigos, eles já teriam falado sobre isso. — Lash sabe que fui morto e depois trazido de volta. Eu só não contei a ninguém o porquê — Uri disse, parecendo perturbado. Ele olhou nervosamente para Rachel antes de continuar. — Sabe, eu era uma pessoa muito diferente naquela época. Em 1400 AC, fui à Cidade de Ai com Raphael e Luci... — Oh, eles não querem saber sobre as coisas chatas. — Rachel pulou do seu colo. Ela vasculhou a pilha de cartelas de bingo no centro da mesa e olhou atentamente para cada um, evitando contato visual enquanto falava. — Uri foi mantido em c*******o por Lúcifer e Saleos. E devido a circunstâncias especiais, os arcanjos decidiram deixá-lo — ela se sentou e engoliu —, morrer. — Isso é c***l. — Naomi não podia imaginar o que ele poderia ter feito de tão r**m para que ele e Rachel merecessem sofrer assim. Ela olhou para Rachel com cuidado, e se contorceu sob seu escrutínio. Havia algo que ela não estava dizendo. Além de Lash, Rachel se tornara uma de suas melhores amigas, como uma irmã, compartilhando tudo com ela ‒ até agora. — A Cidade de Ai — disse Lash. — Isso me soa familiar. Onde eu já ouvi antes? Naomi foi pega de surpresa pela risada forçada e alta de Rachel. — Olhe para esta carta, Naomi. La Muerte — ela leu e entregou a carta com uma foto de um esqueleto segurando uma foice. — Não parece nada com Jeremy. Está faltando suas novas botas de crocodilo. Não é verdade, Uri? Uri franziu a testa, confuso, então como se pegasse a deixa de Rachel, disse — Sim, suas botas. Bem bonitas. Naomi viu Lash enrijecer e parar enquanto embaralhava as cartas ao ouvir o nome de Jeremy. Ele tinha desaparecido no dia depois que ela se reencontrara com Lash. Ela tinha ouvido falar sobre a briga que Lash teve com ele e se sentiu m*l por isso. Ela perguntou a Raphael sobre Jeremy, esperando que pudesse fazer algo para ajudar a reunir os dois melhores amigos. Raphael simplesmente balançou a cabeça tristemente e disse que Gabrielle o havia enviado em uma tarefa prolongada e que não sabia quando ele voltaria. — Então, Jeremy voltou. — Lash recomeçou a embaralhar as cartas, sua voz tensa. Rachel olhou para Lash e depois para Naomi, seus olhos cheios de pena. Ela então se virou para Lash com o que parecia ser um sorriso forçado. — Eu o vi esta manhã. Talvez você, Jeremy e Uri possam começar seus jogos de pôquer novamente. A mandíbula de Lash ficou tensa. Ele olhou para as cartas enquanto seus polegares passavam por elas. Ele bateu o baralho contra a mesa e voltou a embaralhar novamente sem uma palavra. A sala ficou desconfortável quando ele evitou responder à pergunta. — É uma ótima ideia — disse Naomi, forçando uma voz alegre. Ela olhou para Rachel e Uri, notou os olhares cúmplices que estavam dando um ao outro e suspirou. Mais segredos. O que acontece com este lugar e todos os esses segredos? Ela não estava acostumada a ter pessoas escondendo as coisas dela, especialmente depois que Lash finalmente revelou que era um serafim e Raphael havia dito que ela era o sétimo arcanjo. Lash tinha até contado a ela sobre sua conversa com Raphael e como Rebecca, o anjo da guarda de sua avó, era sua mãe e Raphael seu pai. E quando ele disse a ela que Jeremy era seu irmão mais velho, ela achou que eles tinham acabado com os segredos... aparentemente não. Quão frustrante! Não é de admirar que Lash estivera m*l-humorado quando se conheceram, e ela não o culpava nem um pouco. — Explique novamente: por que temos que usar feijões? — Lash perguntou enquanto pegava um punhado. Ele estava obviamente tentando mudar de assunto. Ela suspirou. Talvez fosse melhor continuar jogando bingo mexicano. — Não precisamos usar feijões. Fichas de bingo funcionariam tão bem quanto, mas Welita gostava de usar feijões. — Uma angústia familiar surgiu em seu peito, a mesma que sentia sempre que pensava em sua avó e seu primo, Chuy. Quando Naomi chegou pela primeira vez ao Céu, havia vigiado todos eles durante os intervalos de seu treinamento. Mas, cada vez que fazia, tornava-se mais difícil para ela se afastar da ponte sobre o riacho, a única janela que tinha para o mundo deles. Gabrielle tinha percebido sua incapacidade de se concentrar depois de cada uma de suas visitas e ordenou que ela evitasse a ponte até que seu treinamento estivesse completo. No começo, ela ficou chocada que Gabrielle estivesse basicamente pedindo para ela esquecer sua família. Lash, é claro, ficou indignado e ofereceu-se para envolver Michael, alegando que ela estava trabalhando duro e verificando sua família ajudava a facilitar a transição para o céu. Depois que ela se acalmou, percebeu que Gabrielle estava certa. Sua nova vida e família estavam aqui e a melhor maneira para se ajustar era mergulhar em seu novo papel como arcanjo. — Naomi — Lash gentilmente tocou seu ombro. —, você está bem? — Sim, eu estava pensando em Welita. Tenho saudades dela e de Chuy. — Eu também sinto falta deles... e Bear — disse Lash sobre o Chihuahua da sua avó. — Bola de pelo louca. Naomi se perguntou o que eles estavam fazendo naquele momento. Ela se perguntou se era tarde da noite lá como era no céu. Em que fuso horário estava o céu? Chuy e seu melhor amigo, Lalo, provavelmente estariam sentados ao redor da mesa do jantar agora, tendo acabado de sair do trabalho. Chuy estaria em seu segundo prato e Lalo em seu terceiro. Lalo era como um m****o da família, e ele até chamava a sua avó de "Welita", em vez de seu nome, Anita. Naomi podia realmente ver isso em sua mente, Lalo esgueirando pedaços de frango de Welita para Bear, enquanto Welita estava ocupada limpando a cozinha. Rachel deu um bocejo alto quando se levantou, raspando a cadeira no chão. —Estou acabada. Venha, Uri. Vamos para casa. Por que não jogamos em nossa casa amanhã? — Você não precisa ir — disse Naomi. Rachel foi até ela e lhe deu um abraço. — Eu sei disso. Você e Lash deveriam ter algum tempo só para vocês. Você tem trabalhado tão duro ultimamente. Além disso, Uri diz que tem algo especial para mim esta noite. — Toda noite é especial com você. — Uri a pegou em seus braços e sacudiu suas asas. — Uri! — Rachel gritou. — O que você está fazendo? Eu também tenho asas, sabia? Uri andou em volta da mesa, indo para a sala de estar onde uma parede de janelas dava para o vale. Todas as janelas estavam abertas, deixando entrar uma brisa fresca. — Lash, você foi esperto em se mudar da comunidade e ter a sua própria casa. —Ele andou até a beira da janela central e olhou para baixo. — A vista daqui de cima é magnífica. Mas por que tão longe de todo mundo? Mesmo Naomi amando viver com Lash, tinha ficado um pouco cheio em seu pequeno quarto. Lash havia imediatamente corrigido a situação construindo uma pequena casa no alto de uma montanha que dava para a residência dos anjos. O mais importante é que da sua casa, ela podia ver a ponte, um lembrete de que Welita estava a poucos minutos de distância. Ela adorou. Mas, no fundo de sua mente, ela se perguntou se havia outra razão pela qual ele queria viver longe dos outros ‒ ou talvez de uma pessoa em particular. Lash passou os braços em volta de Naomi e beijou seu pescoço. — Oh, vamos apenas dizer que queríamos um pouco de privacidade. — Sua respiração quente bateu contra seu ouvido quando ele sussurrou — E espaço para atividades extracurriculares.
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