Dois dias depois
Lavínia narrando
Eu atiro em oito de dez garrafas de vidro e olho para minha mãe, esperando algum comentário.
— Troquem as garrafas, faça direito dessa vez, Lavínia. Não te criei para ser fraca e errar coisas simples.
— Desculpa, mãe.
— Cecília, não pegue tão pesado com minha sobrinha — meu tio Lorenzo fala, aparecendo do nada. Corro para abraçá-lo.
— Como você está, minha mini arqueira?
— Estou bem, mas por que veio aqui? Faz tanto tempo que não vinha — pergunto, e ele ri, bagunçando meu cabelo.
— Eu também estava morrendo de saudades. Apenas vim falar com sua mãe. Podemos, Cecília? — ele pergunta, e ela me encara séria.
— Faça de novo e acerte todas desta vez, sem erros. Você é uma Cordopatri. — Ela me entrega mais balas e sai com ele.
Miro com cuidado para acertar todas as garrafas e não decepcionar mais minha mãe. Ela pega pesado às vezes, mas depois sempre diz que é para me deixar forte.
Minha mãe Alice também é exigente, mas me cobra bem menos. Ela cuida mais das questões burocráticas e sociais da máfia, enquanto minha outra mãe se dedica à parte física, que ela tanto ama.
Respiro aliviada ao ver que todas as garrafas estouraram e sorrio para minha mãe que volta. Ela apenas assente com a cabeça ao ver que acertei.
— Lavínia, vá para o refeitório — ela ordena, e eu assinto, indo rápido. A conversa com meu tio parece que não foi tão boa.
**[***]**
Sento-me ao lado de Brad no refeitório e levanto a cabeça da mesa.
— E aí, pequena Cordopatri, toma — o cozinheiro da máfia coloca um pedaço de torta na minha frente, e sorrio, pegando o garfo. Eles podem ser mafiosos e soldados perigosos, mas são boas pessoas.
— Senta, come comigo — digo, e ele tira um garfo do pano. Dou risada.
— Sou preparado para tudo — enquanto dividimos, Brad chega suando, puxa a bandeja e rouba meu garfo para comer.
— Eu odeio dia de fuga na floresta — ele fala irritado.
— Sem mimimi, foi divertido — minha mãe Alice diz, entrando e tirando a máscara horrenda, soltando a serra elétrica no banco.
— Você correu atrás dele assim?
— Sim, o cara disso faltou e eu achei super divertido fazer — Brad n**a com a cabeça, desaprovando.
— Meu tio veio aqui hoje, acho que é algo sério.
— Ele falou com sua mãe? — ela pergunta, e eu assinto, vendo ela correr para fora, provavelmente para saber o que houve.
— Crianças, eu tenho que ir. Tenho que fazer o jantar dos seguranças. Até mais — o cozinheiro diz, e assentimos.
Conheço praticamente todos os funcionários daqui. Vivo aqui desde sempre, e muitos eram meus amigos e me ajudaram. No início, as crianças não gostavam de mim; na verdade, tinham medo por eu ser filha da dona e minha mãe poder fazer algo.
Mas o tempo passou, e as coisas mudaram.
— Filha, vamos para casa — minha mãe Alice volta, e assinto, abraçando o Brad.
— Até amanhã na escola — digo.
— Até, maluca.
Minha mãe me abraça e vamos conversando até o carro, onde dona Cecília está com cara de furiosa.
— Cazzo, ci vuole tempo (p***a, que demora) — ela liga o carro enquanto entramos, e minha mãe a beija, tentando acalmá-la. Olho para fora da janela.
— Vamos jantar no seu tio, filha. Ele parece ter algo importante para falar que sua mãe não quer dizer — dona Alice diz, e Cecília revira os olhos.
— Não vai ter nenhuma surpresa no jantar. Ele apenas veio nos chamar.
— E por que você estava brava? — pergunto e me arrependo pelo olhar dela no retrovisor.
— Ele aproveitou o convite para me contar algumas coisas que andam falando por aí. Aparentemente, pensam em um atentado contra a Camorra, mas já estou impedindo.
Não respondo, apenas entendo o porquê, e elas ficam em silêncio também, deixando como único som do carro o rádio ligado e o barulho do vento que entra pelo teto solar.
**[***]**
Bato a porta do carro e caminho para a entrada da casa deles. Minha tia Mia abre a porta e abraça todos, sorrindo. Ela é linda, não dá para negar.
— Você está a cada dia mais linda — ela diz, me abraçando e fechando a porta. — Os meninos estão lá em cima, pode subir para falar com eles.
— Melhor eu ficar aqui — digo, tentando não passar nada, mas ela fica confusa. Antes que fale algo, ando até o sofá, ouvindo a conversa que já rolava.
— Nossos pais estão agora no Brasil e voltarão no baile Camorra daqui a alguns meses. Viajaram por alguns estados do Brasil antes de voltar.
— Eu achei que eles estivessem na Ásia — minha mãe Alice diz, com uma taça de vinho.
— Foi mês passado — tia Mia diz, nos entregando o celular com fotos dos meus avós.
Ok, é confuso, e vou tentar explicar a história da família para vocês entenderem melhor.
Tudo começou quando minha mãe Alice e a tia Mia, que eram melhores amigas e brasileiras, vieram viajar para a Itália. Elas encontraram meu tio e minha mãe que as sequestraram e, resumindo, as transformaram em suas mulheres. Minha mãe Alice ficou doida e com síndrome de Estocolmo, mas com muita terapia o relacionamento delas ficou quase normal.
Aí vem a parte confusa: os pais da tia Mia e da mãe Alice vieram do Brasil atrás delas e assumiram que eram um casal. Nesse tempo, começaram um lance com minha avó Amélia, mãe do meu tio Lorenzo e da mãe Cecília, e viraram um trisal. Os filhos dos três se relacionaram, e eu, para piorar tudo, era apaixonada pelos meus primos.
Mas hoje em dia estou curada disso e não gosto mais deles.
— Oi, filha — meu tio diz. Olho para a escada e vejo a Morgana descendo radiante.
Ela abraça todos e, quando chega em mim, fico sem jeito, mas tento retribuir.
— Meninas, vão lá fora fofocar sobre a escola. O jantar vai demorar mais um pouquinho. — Eles realmente acham que somos amigos na escola, mas Matteo e eu somos quase inimigos, e Morgana apenas vejo de longe.
— Então eu... — fico sem graça de falar que prefiro ficar.
— Vamos lá — ela diz com a voz doce, pegando minha mão e me deixando ansiosa. Sai me puxando, e apenas a sigo.
Nos sentamos em um banco no jardim e ela fica olhando o céu escuro, tranquila.
— Então... — tento puxar assunto, mas nada vem à minha cabeça.
— Estou feliz de estarmos na mesma escola.
— m*l nos vemos lá — olho para a lua também.
— Mas isso é simples. Eu só não tive coragem de falar com você. Não queria ser maltratada e não sabia se me odiava.
— Eu não odeio ninguém — digo e sinto ela me olhar, mas não retribuo o olhar.
— Não? Nem o Matteo? Ele me contou o que disse e...
— Eu não o odeio — digo simplesmente, e ela coloca a cabeça no meu ombro. Tento parecer normal.
— Podemos ser amigas, então, o que acha? — ela pega minha mão, brincando com meus dedos.
— Tudo bem, acho legal — tento disfarçar a animação, mas não consigo segurar o sorriso.
Olho para frente para focar em outra coisa e estranho ao ver Matteo nos olhando. Ele me olha furioso e sai pisando duro. Em outros tempos, eu até ligaria ou me preocuparia.
Mas agora não ligo para essas picuinhas. Como Brad diz, isso é desnecessário e coisa de quem não tem o que fazer.