Capítulo 11 : Fragmentos de um Passado Sombrio

930 Palavras
Camille O crepúsculo já caía sobre a Rocinha, e o ar estava carregado com a umidade do dia que terminava. Eu estava sentada no pequeno quarto que chamei de “lar” desde que cheguei ali. As paredes de concreto nu, os móveis desgastados, e a janela minúscula que m*l deixava a luz entrar. Nada daquilo importava, porque aquela era apenas uma fachada. Assim como eu. Cada canto daquele espaço, assim como cada parte de mim, estava envolvido por sombras. E em meio a essas sombras, o meu passado continuava a espreitar, sempre à espera de um momento para emergir. Eu nunca fui do tipo que gosta de relembrar. A dor do passado é um peso que carrego, mas nunca permito que ele me defina. Porém, hoje, enquanto o som da comunidade ecoava lá fora, algo dentro de mim se agitou. Fragmentos daquela noite, a noite que mudou tudo, começaram a ressurgir. E, por mais que eu tentasse afastá-los, eles se recusavam a desaparecer. Eu fechei os olhos por um momento, e foi como se eu estivesse de volta lá — naquele beco sujo, cercada por rostos desconhecidos e com o cheiro metálico de sangue no ar. O sangue dele. O sangue do meu irmão mais novo. Lucca era jovem, sonhador e completamente ingênuo. Eu sempre tentei protegê-lo do mundo, mas havia limites para o que eu podia fazer. No fundo, eu sabia que ele não estava preparado para o que vinha pela frente. Quando ele decidiu se envolver com as pessoas erradas, tentei alertá-lo, tentei afastá-lo daquele caminho. Mas não fui rápida o suficiente. Ele acreditava que podia lidar com o peso do tráfico, com a escuridão que Draco e seus irmãos traziam para onde quer que fossem. Na cabeça dele, era uma forma de nos tirar da miséria, de nos dar uma vida melhor. Mas Lucca não entendia. Ele não sabia que a ambição o cegaria, que a lealdade naquela vida não valia nada quando o poder e o dinheiro estavam em jogo. Aquela noite... Ah, aquela maldita noite. Eu cheguei tarde demais. Quando entrei no beco, já era tarde demais. Draco estava lá, imponente como sempre, cercado por seus homens. E Lucca, meu querido e ingênuo irmão, estava caído no chão, o olhar vazio, sem vida. O choque me atingiu primeiro, uma onda paralisante que fez meu corpo congelar. Não houve tempo para luto, para chorar ou gritar. Tudo o que senti foi uma raiva fria, ardendo nas profundezas do meu ser. Draco não me viu naquela noite. Ele saiu logo depois, sem olhar para trás. Para ele, Lucca era apenas mais um. Um garoto que cruzou a linha, que fez a escolha errada. Para Draco, ele era insignificante. Mas para mim, ele era tudo. Desde então, o ódio que cresceu dentro de mim era uma chama que não apagava. A cada passo que dei para chegar até aqui, a cada aliança que fiz, a cada mentira que contei, tudo foi calculado. Eu me infiltrei, me aproximei, e agora estava jogando o jogo de Draco. Mas ele não sabia o quanto esse jogo significava para mim. Ele não fazia ideia do que estava em jogo. Eu respirei fundo, tentando afastar as memórias mais uma vez, mas era inútil. Lucca estava sempre presente, em cada canto da minha mente. Sua voz, sua risada, e a lembrança de como ele me olhava, confiando que eu sempre estaria lá para protegê-lo. E eu falhei. Foi minha falha que o levou a confiar nas pessoas erradas, a acreditar que poderia lidar com Draco e seus irmãos. Agora, aqui estou eu, dentro da fortaleza que ele tentou invadir. Mas minha missão é diferente. Não busco o que Lucca buscava. Não quero dinheiro, nem poder. O que eu quero é muito mais simples, e muito mais complicado: quero justiça. Quero que Draco pague pelo que fez. E o mais c***l de tudo é que ele não tem ideia de quem eu sou. Ele não sabe que a mulher que ele tenta controlar é a irmã do garoto que ele matou sem pensar duas vezes. O mais irônico de tudo isso é que Draco parece fascinado por mim. Em seus olhos, vejo o desejo, a curiosidade, a vontade de desvendar quem sou. Ele acredita que é o predador nesse jogo, mas m*l sabe que eu sou a verdadeira ameaça. Estou aqui, ao lado dele, observando cada movimento, analisando cada fraqueza. Ele acha que controla tudo, mas o controle é apenas uma ilusão. Draco vai cair. Eu vou garantir isso. Aproximar-me de seus irmãos foi parte do plano. Damon e Dante são diferentes de Draco. Damon é frio, calculista, sempre desconfiado. Ele sente que algo não está certo, e essa sensação vai corroê-lo. Dante, por outro lado, é movido pelo desejo, pela impulsividade. Ele é o mais fácil de manipular, e é nisso que estou apostando. Cada um deles será uma peça no meu tabuleiro. Cada movimento me aproxima mais do meu objetivo. Mas hoje, enquanto o silêncio pesa no ar, percebo que a vingança, por mais doce que pareça, tem seu próprio preço. Eu me pergunto se, quando tudo isso terminar, ainda restará algo de mim. Lucca está morto, e Draco, em breve, estará arruinado. Mas e eu? O que sobrará de mim quando esse jogo acabar? Não há espaço para essas dúvidas. Não agora. Tudo o que importa é a missão, a promessa que fiz a mim mesma na noite em que segurei o corpo frio do meu irmão. Draco vai pagar. E quando isso acontecer, talvez, só talvez, eu finalmente encontre paz.
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