Esse foi o sono mais agradável que já tive. Espreguiço-me na cama com uma aparência bem feliz. Há tempos que não me sentia assim. Vai saber o que aconteceu.
São 08:00 horas da manhã. Vou fazer o café. Moro sozinho desde os dezessete anos, a um quarteirão de distância dos meus pais. Eles são donos de um supermercado e eu nem trabalho muito, mas ganho o salário de um gerente.
Como hoje é domingo, não me preocupo com o dia. Ligo a televisão e vou assistir meu canal preferido, ainda que infantil, a Cartoon Network.
Estou me distraindo quando o celular toca. Um número não registrado. Eu não atendo, provavelmente é engano. Acontece muito comigo. O mesmo número liga novamente. Decido atender para ser educado e dizer as mesmas frases se sempre: Não; Ligou errado; Não sou eu; Não me ligue mais.
— Alô? — Atendo.
"Oi! Quem fala?" Pergunta a voz, que para mim, soa familiar, mas não estou lembrado de quem é.
— Eu que pergunto: Quem fala?
"Calma, não precisa se estressar." A voz ri. "Só queria ter certeza de que é você."
— E tenho a certeza de que você ligou errado. Então, passar bem, e não ligue mais para mim.
"Não, não, não! Por favor, não desligue Giovanni."
Ouvir o meu nome vir daquele desconhecido é intrigante para mim.
— Você sabe meu nome? Quem é que está falando?
"Me desculpe não ter dito antes, sou o Neto. Nos conhecemos ontem no casamento de Julianne."
Minha ficha cai. Fico boquiaberto. Se ele estivesse na minha frente, veria o quanto fiquei envergonhado.
— Ai, meu Deus. Neto? Me desculpe, não imaginei que fosse você.
Ele ri.
"Eu que te peço desculpas, você não tinha como saber de quem se tratava."
— Como conseguiu o meu número?
"Pedi a Julianne."
— Por quê? — Ele fez um longo silêncio. Talvez estivesse pensando na resposta. Eu já estava ficando sem graça. Quase me martirizei por causa da pergunta. — Alô?
"Sinceramente, não sei responder." Finalmente ele diz alguma coisa. Meu coração quase para de bater.
— Deixa lá. Não precisa responder.
"Não, tudo bem. Posso dizer que queria sua amizade?"
Ele está enrolando. Sei o que ele quer e eu também quero. Reviro os meus olhos.
— Claro que pode. Na verdade, depender de mim você terá. O que quiser... Hesito, mas já é tarde.
"Agora a conversa ficou interessante." Disse ele entre risos. Fico muito sem graça.
— Desculpa, eu quis dizer...
"Não precisa se desculpar, nem se justificar, fique tranquilo, comigo você pode falar o que quiser."
Quero dizer "te amo", mas está muito cedo, então falo sobre tudo. Passamos horas conversando. Ele me contou sobre a sua vida, mora sozinho, como eu, tem um emprego, como eu, entre outras coisas que eram muito semelhantes com a minha. Éramos compatíveis, nós nos entendíamos, falávamos a mesma língua. Eu não sei dele, mas a minha paixão só aumentava. Até agora estou dizendo: Ainda bem que não foi pessoalmente, senão eu daria tanto mole que eu não sei se acabaria bem.
Não teve jeito, ele marca um dia para nós nos encontrarmos. Se conhecer pessoalmente. Julgo que estávamos seguindo a mesma linha de raciocínio, mesmo sendo tão diferentes em outros aspectos.
***
À tarde, vou para a casa dos meus pais. Todo domingo eles me chamam para ir almoçar com eles. Gostam que eu more sozinho por pensarem que eu só criaria mais responsabilidades. Eles têm razão.
Uma mensagem foi notificada do w******p quando estávamos à mesa.
— Não atenda. — Disse a minha mãe. — Estamos almoçando.
Desliguei o celular.
O almoço foi agradável. Meu irmão mais velho e o mais novo estavam conosco. Conversamos muito. Meus pais acreditam que conversar durante a refeição ajuda a mantermos a afetividade fraterna, paterna e materna.
Assim que o almoço acabou, meus irmãos saíram e fiquei a sós com os meus pais, depois estes foram tirar um cochilo, e fiquei sozinho na sala, deitado no sofá.
Liguei o celular.
A notificação de mensagens multiplicou. Quando entrei no aplicativo, vi que minha amiga Julianne fora quem havia mandado mensagens. A maioria foi pedindo para eu atender o celular ou respondê-la, mas a única que chamou a minha atenção foi a que perguntava o motivo do Neto querer tanto o meu número.
Gelei.
[Não sei.] Respondo.
[Ele me insistiu, fiquei intrigada. Por um acaso você está devendo alguma coisa?] Ela responde imediatamente.
[Claro que não, eu o conheci ontem.]
[Sei disso, amigo, é que achei muito estranho da parte dele. Ele te disse alguma coisa?]
Ele me disse muitas coisas, mas não sei se poderia compartilhar.
[Não! Eu o conheci ontem. Na verdade, como fui o primeiro a chegar no seu casamento, e ele o segundo, ficamos amigos por mero acaso.] Decido arriscar numa pergunta. [Por que todas estas perguntas?]
A minha amiga digitou, depois parou, depois tornou a digitar. Ela demorou um pouco. Será que está escrevendo um texto, ou não sabia o que responder?
[Ele rompeu o relacionamento com a noiva.]
Arregalo os meus olhos. Será que ele deu mais bandeira que eu para o motivo do seu término? Está óbvio tanto para mim quanto para ele que rolava um clima entre nós, mas se eu soubesse que ele era comprometido, jamais flertaria.
[Sinto muito, mas o que tenho a ver com isso?] Faço uma pergunta evasiva, e espero a pior resposta.
[Queria saber se ele te disse alguma coisa. Estamos questionando todas as pessoas que ele teve contato ontem. Foi um choque para a família dele.]
Fico sem chão. Eu não posso acreditar que ele fez isso por minha causa. Nem sei o que poderia acontecer se os parentes dele desconfiassem disso.
[Por que não perguntam para ele?]
[Ele só responde que não estava mais afim dela.]
[Então está resolvido.]
[O que está intrigando a família é que corria tudo bem até o dia do casamento.]
Decido encerrar a conversa, porque imagino que as pistas podem chegar até mim. De novo.
[Enfim, eu não posso ajudar. Com licença! Tenho que sair.]
Não creio que o Neto desistiu do noivado por minha causa. Como posso lidar com isto? Nunca tive um relacionamento sério. Só penso no pior, agora.