Ecos da Meia-Noite

1230 Palavras
A noite caiu sobre Londres, e o vento uivava pelas janelas antigas da mansão Brin. Lá fora, a chuva tamborilava no telhado como se quisesse entrar. Dentro da casa, o silêncio era tão espesso que Veluma podia ouvir o próprio coração bater. Era sua primeira noite ali, e a sensação de estar em um lugar que não dormia a deixava inquieta. As sombras das velas projetavam figuras estranhas nas paredes, e o rangido do assoalho parecia seguir cada passo que ela dava. — É apenas o vento — murmurou, tentando convencer a si mesma. O quarto que lhe haviam designado era simples, mas confortável. Ainda assim, o frio parecia escapar das paredes e envolver seu corpo. Ela se encolheu sob as cobertas, mas o sono não veio. Pensamentos demais a perseguiam. Quem era realmente Fernando Brin? O olhar dele, quando falou da esposa morta, ainda a assombrava. E aquela dor que ele carregava... havia algo ali que não era apenas luto. Era culpa. O som de passos vindos do corredor a fez prender a respiração. Leves, mas firmes. A porta se abriu lentamente, e um facho de luz atravessou o quarto. — Senhorita Delarriva — disse uma voz grave. Era ele. Fernando. Veluma se sentou na cama, surpresa. O robe escuro que ele vestia deixava o rosto parcialmente na sombra, mas seus olhos — sombrios e atentos — brilhavam à luz da lamparina. — Perdoe-me por perturbá-la a esta hora, — disse ele, entrando um passo. — Precisei verificar se as acomodações estavam de acordo. Ela franziu o cenho, confusa. — Às... à meia-noite, senhor? Um canto de sua boca se curvou num quase sorriso, o primeiro que ela via. — O sono não costuma me visitar cedo. E, pelo visto, tampouco a senhorita. Veluma corou, puxando a manta um pouco mais para cima. — A casa... faz barulhos estranhos. Fernando pousou a lamparina sobre a cômoda e olhou em volta, como se também sentisse a presença invisível que pairava ali. — Esta casa tem mais memórias do que paredes, senhorita Delarriva. O vento aqui fala... e, às vezes, grita. Ele se aproximou um pouco, e o aroma amadeirado de sua pele misturou-se ao cheiro de cera e chuva. — Se algo a assustar, venha até o salão principal. — Sua voz agora era quase um sussurro. — Mas não entre na ala oeste. Jamais. Veluma o fitou, intrigada. — Por quê? Fernando desviou o olhar, tenso. — Porque há portas que, quando abertas, não se fecham mais. Antes que ela pudesse responder, ele saiu do quarto, deixando para trás apenas o som distante de seus passos e o tremor do pavio da lamparina. Veluma ficou acordada por horas, encarando o teto. A cada estalo, a cada rajada de vento, sentia como se a mansão respirasse — viva, antiga, observando-a. Na manhã seguinte, ela jurou a si mesma que não se deixaria intimidar. Havia aceitado aquele trabalho por necessidade, mas algo dentro dela começava a desejar entender aquele lugar... e o homem que o comandava. Enquanto limpava os vitrais do corredor principal, ouviu a voz de Efraim sussurrando para a governanta: — O senhor Brin foi à ala oeste novamente... sozinho. — Ele nunca superou o que aconteceu lá — respondeu a mulher em tom baixo. — E que Deus a proteja, menina, se algum dia ele a levar consigo. Veluma fingiu não ouvir, mas o arrepio que correu por sua espinha dizia o contrário. E pela primeira vez, ela sentiu que algo — ou alguém — a chamava daquela parte proibida da casa. Veluma tentou ignorar as palavras de Efraim, mas a curiosidade era um fogo difícil de conter. A ala oeste parecia chamá-la de um modo inexplicável, como se uma voz antiga sussurrasse seu nome pelos corredores. No fim da tarde, enquanto a chuva cessava e o céu de Londres se tingia de cinza, ela decidiu levar flores frescas para o salão principal. Passou diante de um grande espelho antigo e, por um instante, teve a sensação de ver alguém atrás dela — uma figura feminina, de vestido branco, parada à distância. Virou-se de súbito. Nada. Apenas o eco de seus passos e o farfalhar leve das cortinas. — Está tudo bem, senhorita Delarriva? — perguntou Efraim, que surgira de repente. Veluma disfarçou o susto. — Está, sim… Acho que apenas me assustei com meu próprio reflexo. O mordomo sorriu de leve, embora seus olhos demonstrassem algo diferente — pena, talvez. — Esta casa gosta de brincar com os nervos dos vivos. Quando ele se afastou, ela respirou fundo e voltou ao trabalho. A sensação de ser observada, porém, não desapareceu. Mais tarde, enquanto servia o chá na sala de jantar, Fernando entrou. A postura ereta, o olhar distante, e a expressão que misturava controle e tormento. — Boa noite, senhor — disse ela, com um tom respeitoso. — Boa noite, senhorita Delarriva. — Ele fez um gesto para que servisse o chá. — Como está se adaptando? — A casa é… diferente — respondeu, hesitante. — É bonita, mas carrega algo que não sei explicar. Fernando pousou a xícara lentamente e a encarou. — E o que acha que há aqui dentro? Ela segurou o olhar dele, sentindo um arrepio percorrer-lhe a espinha. — Histórias — murmurou. — E corações que não sabem descansar. Por um segundo, Fernando pareceu perder o ar. O nome Eliza atravessou-lhe a mente como uma lâmina fria. — Cuidado com o que tenta compreender, senhorita Delarriva. — Sua voz agora soava firme, mas havia dor em cada palavra. — Algumas verdades só trazem sofrimento. Ele se levantou, prestes a sair, mas parou junto à porta. — Amanhã cedo, quero que leve flores ao jardim dos fundos. Evite a ala oeste. Não é um pedido. É uma ordem. Veluma apenas assentiu, mas no fundo sabia que não conseguiria obedecer. Havia algo naquelas palavras — e no olhar dele — que soava mais como um convite do que uma proibição. Naquela noite, o vento voltou a soprar forte. Veluma não conseguiu dormir. Pegou uma vela, cobriu-se com o xale e desceu as escadas em silêncio. Cada passo ecoava como um aviso. Ainda assim, seguiu adiante. Quando chegou ao corredor que levava à ala oeste, percebeu que a porta estava entreaberta. Uma corrente de ar frio escapava por ela, trazendo um leve perfume de flores murchas. Com o coração acelerado, Veluma empurrou a porta devagar. O estalo da dobradiça ressoou pela casa — e, por um instante, ela jurou ouvir o som de uma mulher chorando. A chama da vela tremulou. E, no meio da penumbra, uma voz masculina rompeu o silêncio: — Eu avisei para não entrar aqui. Veluma se virou, assustada. Fernando estava parado à porta, o olhar mais sombrio do que nunca. Por um instante, nenhum dos dois falou. A tensão era tão espessa que podia ser sentida no ar. — O que esconde nesta ala, senhor Brin? — perguntou ela, tentando controlar o tremor na voz. Ele se aproximou lentamente, a sombra de seu corpo misturando-se à dela. — O passado. — respondeu, firme. — E o passado, senhorita Delarriva, não gosta de ser acordado. Mas quando a vela vacilou novamente, ela viu algo por trás dele — um retrato coberto por um lençol antigo. O contorno era o de uma mulher… e os olhos pintados pareciam segui-la, mesmo na escuridão.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR