A noite caiu sobre Londres, e o vento uivava pelas janelas antigas da mansão Brin. Lá fora, a chuva tamborilava no telhado como se quisesse entrar. Dentro da casa, o silêncio era tão espesso que Veluma podia ouvir o próprio coração bater.
Era sua primeira noite ali, e a sensação de estar em um lugar que não dormia a deixava inquieta. As sombras das velas projetavam figuras estranhas nas paredes, e o rangido do assoalho parecia seguir cada passo que ela dava.
— É apenas o vento — murmurou, tentando convencer a si mesma.
O quarto que lhe haviam designado era simples, mas confortável. Ainda assim, o frio parecia escapar das paredes e envolver seu corpo. Ela se encolheu sob as cobertas, mas o sono não veio. Pensamentos demais a perseguiam.
Quem era realmente Fernando Brin? O olhar dele, quando falou da esposa morta, ainda a assombrava. E aquela dor que ele carregava... havia algo ali que não era apenas luto. Era culpa.
O som de passos vindos do corredor a fez prender a respiração. Leves, mas firmes. A porta se abriu lentamente, e um facho de luz atravessou o quarto.
— Senhorita Delarriva — disse uma voz grave.
Era ele. Fernando.
Veluma se sentou na cama, surpresa. O robe escuro que ele vestia deixava o rosto parcialmente na sombra, mas seus olhos — sombrios e atentos — brilhavam à luz da lamparina.
— Perdoe-me por perturbá-la a esta hora, — disse ele, entrando um passo. — Precisei verificar se as acomodações estavam de acordo.
Ela franziu o cenho, confusa.
— Às... à meia-noite, senhor?
Um canto de sua boca se curvou num quase sorriso, o primeiro que ela via.
— O sono não costuma me visitar cedo. E, pelo visto, tampouco a senhorita.
Veluma corou, puxando a manta um pouco mais para cima.
— A casa... faz barulhos estranhos.
Fernando pousou a lamparina sobre a cômoda e olhou em volta, como se também sentisse a presença invisível que pairava ali.
— Esta casa tem mais memórias do que paredes, senhorita Delarriva. O vento aqui fala... e, às vezes, grita.
Ele se aproximou um pouco, e o aroma amadeirado de sua pele misturou-se ao cheiro de cera e chuva.
— Se algo a assustar, venha até o salão principal. — Sua voz agora era quase um sussurro. — Mas não entre na ala oeste. Jamais.
Veluma o fitou, intrigada.
— Por quê?
Fernando desviou o olhar, tenso.
— Porque há portas que, quando abertas, não se fecham mais.
Antes que ela pudesse responder, ele saiu do quarto, deixando para trás apenas o som distante de seus passos e o tremor do pavio da lamparina.
Veluma ficou acordada por horas, encarando o teto. A cada estalo, a cada rajada de vento, sentia como se a mansão respirasse — viva, antiga, observando-a.
Na manhã seguinte, ela jurou a si mesma que não se deixaria intimidar. Havia aceitado aquele trabalho por necessidade, mas algo dentro dela começava a desejar entender aquele lugar... e o homem que o comandava.
Enquanto limpava os vitrais do corredor principal, ouviu a voz de Efraim sussurrando para a governanta:
— O senhor Brin foi à ala oeste novamente... sozinho.
— Ele nunca superou o que aconteceu lá — respondeu a mulher em tom baixo. — E que Deus a proteja, menina, se algum dia ele a levar consigo.
Veluma fingiu não ouvir, mas o arrepio que correu por sua espinha dizia o contrário.
E pela primeira vez, ela sentiu que algo — ou alguém — a chamava daquela parte proibida da casa.
Veluma tentou ignorar as palavras de Efraim, mas a curiosidade era um fogo difícil de conter. A ala oeste parecia chamá-la de um modo inexplicável, como se uma voz antiga sussurrasse seu nome pelos corredores.
No fim da tarde, enquanto a chuva cessava e o céu de Londres se tingia de cinza, ela decidiu levar flores frescas para o salão principal. Passou diante de um grande espelho antigo e, por um instante, teve a sensação de ver alguém atrás dela — uma figura feminina, de vestido branco, parada à distância.
Virou-se de súbito.
Nada.
Apenas o eco de seus passos e o farfalhar leve das cortinas.
— Está tudo bem, senhorita Delarriva? — perguntou Efraim, que surgira de repente.
Veluma disfarçou o susto.
— Está, sim… Acho que apenas me assustei com meu próprio reflexo.
O mordomo sorriu de leve, embora seus olhos demonstrassem algo diferente — pena, talvez.
— Esta casa gosta de brincar com os nervos dos vivos.
Quando ele se afastou, ela respirou fundo e voltou ao trabalho. A sensação de ser observada, porém, não desapareceu.
Mais tarde, enquanto servia o chá na sala de jantar, Fernando entrou. A postura ereta, o olhar distante, e a expressão que misturava controle e tormento.
— Boa noite, senhor — disse ela, com um tom respeitoso.
— Boa noite, senhorita Delarriva. — Ele fez um gesto para que servisse o chá. — Como está se adaptando?
— A casa é… diferente — respondeu, hesitante. — É bonita, mas carrega algo que não sei explicar.
Fernando pousou a xícara lentamente e a encarou.
— E o que acha que há aqui dentro?
Ela segurou o olhar dele, sentindo um arrepio percorrer-lhe a espinha.
— Histórias — murmurou. — E corações que não sabem descansar.
Por um segundo, Fernando pareceu perder o ar. O nome Eliza atravessou-lhe a mente como uma lâmina fria.
— Cuidado com o que tenta compreender, senhorita Delarriva. — Sua voz agora soava firme, mas havia dor em cada palavra. — Algumas verdades só trazem sofrimento.
Ele se levantou, prestes a sair, mas parou junto à porta.
— Amanhã cedo, quero que leve flores ao jardim dos fundos. Evite a ala oeste. Não é um pedido. É uma ordem.
Veluma apenas assentiu, mas no fundo sabia que não conseguiria obedecer.
Havia algo naquelas palavras — e no olhar dele — que soava mais como um convite do que uma proibição.
Naquela noite, o vento voltou a soprar forte.
Veluma não conseguiu dormir. Pegou uma vela, cobriu-se com o xale e desceu as escadas em silêncio.
Cada passo ecoava como um aviso. Ainda assim, seguiu adiante.
Quando chegou ao corredor que levava à ala oeste, percebeu que a porta estava entreaberta. Uma corrente de ar frio escapava por ela, trazendo um leve perfume de flores murchas.
Com o coração acelerado, Veluma empurrou a porta devagar.
O estalo da dobradiça ressoou pela casa — e, por um instante, ela jurou ouvir o som de uma mulher chorando.
A chama da vela tremulou. E, no meio da penumbra, uma voz masculina rompeu o silêncio:
— Eu avisei para não entrar aqui.
Veluma se virou, assustada. Fernando estava parado à porta, o olhar mais sombrio do que nunca.
Por um instante, nenhum dos dois falou. A tensão era tão espessa que podia ser sentida no ar.
— O que esconde nesta ala, senhor Brin? — perguntou ela, tentando controlar o tremor na voz.
Ele se aproximou lentamente, a sombra de seu corpo misturando-se à dela.
— O passado. — respondeu, firme. — E o passado, senhorita Delarriva, não gosta de ser acordado.
Mas quando a vela vacilou novamente, ela viu algo por trás dele — um retrato coberto por um lençol antigo. O contorno era o de uma mulher… e os olhos pintados pareciam segui-la, mesmo na escuridão.