A luminosidade suave da tela refletia no rosto de Clarice, e Oliver estava tão concentrado nela e não no filme que quase perdeu o instante em que ela respirou fundo, como quem cria coragem para mergulhar.
Ela ajeitou o cobertor sobre as pernas, mordendo de leve o lábio inferior.
Quando falou, sua voz saiu baixa, quase um sussurro.
— Oliver…?
Ele virou o rosto imediatamente, atento como sempre ficava quando ela chamava seu nome um detalhe que Clarice ainda não percebia.
— Hm? — Ele respondeu, com aquela calma quase hipnótica.
Clarice não olhou para ele.
Ficou encarando a tela, onde os personagens choravam e se reconciliavam, como se aquilo lhe desse apoio para continuar.
— Eu… — ela hesitou, a voz falhando de leve — eu queria pedir desculpa.
Oliver franziu o cenho muito sutilmente.
— Desculpa? Pelo quê?
Clarice engoliu seco, apertando os dedos no cobertor.
— Pelo… pelo beijo. — disse enfim. — Aquele dia, quando eu fui embora do hospital. Eu te abracei e… eu te beijei sem pensar. Foi impulsivo. Eu estava nervosa, muito aliviada e… eu não queria ter ultrapassado nenhum limite seu como profissional.
Oliver ficou imóvel.
Como se o corpo inteiro congelasse por dentro.
A lembrança veio instantânea o cheiro dela ao abraçá-lo, o toque suave e quente da boca dela em sua pele, o jeito como ela fugiu envergonhada sem dar tempo para ele sequer respirar.
Ele tinha pensado naquilo todos os dias desde então.
Apertou os dedos no apoio da poltrona para não reagir demais.
— Clarice. — ele disse finalmente, baixo, firme, mas sem dureza. — Você não fez nada de errado.
Ela virou o rosto rapidamente para ele, surpresa, envergonhada, quase desconfortável.
— Eu… invadi seu espaço — insistiu. — Você estava trabalhando, fez tanto por mim, e eu acabei...
— Clarice. — Ele repetiu, um pouco mais suave. — Não foi uma invasão. Foi… — ele respirou fundo, medindo as palavras — …foi algo gentil. Foi apenas sua forma de demonstrar gratidão.
Clarice piscou algumas vezes, sem saber o que dizer.
Ele, por outro lado, lutava para parecer apenas um médico sendo gentil e não um homem que revivia aquele beijo continuamente.
— Eu não quero que você se sinta culpada por isso. — completou ele. — Nem por um segundo.
Clarice desviou o olhar, o rosto corado pela luz do filme.
— É que… eu não costumo fazer esse tipo de coisa. Beijar alguém… assim. Ainda mais alguém que m*l conheço.
— Você não precisa se justificar. — disse Oliver, com aquela voz baixa e segura que parecia acalmar tudo ao redor. — Eu entendi o que você sentiu naquele momento.
— Entendeu…? — ela repetiu, quase confusa.
Ele manteve os olhos nela, mas não disse o que realmente queria.
Não disse que entendeu porque ele sentiu também e ainda sentia.
Não disse que aquele beijo se repetia na memória dele todas as noites naquela semana.
Ele apenas respondeu:
— Entendi. E não guardo nenhuma má impressão sua..nenhuma.
Clarice suspirou em alívio, relaxando pela primeira vez desde que o assunto surgiu.
— Fico feliz então. — ela murmurou. — Eu me senti tão… boba depois.
— Você não é boba. — a palavra escapou antes que ele pudesse evitar.—
Ele ajeitou o tom imediatamente. — Você estava vulnerável. E ainda assim foi sincera. Isso é raro.
Clarice sentiu o coração tropeçar no peito.
Desviou o olhar de novo, sem saber reagir, e focou no filme que ela nem mais estava vendo.
Oliver voltou os olhos para a tela também mas só para esconder o quanto estava lutando para não encurtar a distância entre eles.
Porque naquele instante, ele sentiu com clareza dolorosa:
O impulso que ela teve naquele dia…
Ele teria agora.
A sala de cinema estava silenciosa, exceto pelo som do filme que nenhum dos dois realmente acompanhava mais.
PENSAMENTO DE OLIVER
Aquela timidez dela. A forma como desviou o olhar. O rubor nas bochechas quando falou do beijo.
Ele sentiu o coração bater mais forte, com um ritmo que há anos não experimentava.
Clarice era um tipo de delicadeza que ele nunca planejou sentir de perto muito menos desejar.
Eu poderia beijá-la agora.
O pensamento veio quente, súbito, insistente.
Ela estava tão perto, tão vulnerável, tão linda naquela luz suave…
Se ele inclinasse só um pouco o corpo, se levantasse a mão para tocar o rosto dela, ela não recuaria. Ele sabia disso. Sentia isso.
Mas também sabia de outra coisa.
Ela acabou de sair de um relacionamento abusivo.
Acabou de fugir de um homem que a controlava.
Ela precisa recuperar o próprio espaço.
Controlar as próprias decisões.
E ele…
Ele não queria ser mais um homem roubando o controle dela.
Mesmo que fosse por desejo, mesmo que fosse por cuidado.
Se ela quiser… ela vai me beijar de novo.
Vai tomar a iniciativa. Quando for segura. Quando for dela.
Oliver apoiou o braço no encosto da poltrona para se manter no lugar, respirando fundo para conter a vontade.
Eu espero.
Eu espero o tempo que ela precisar.
Mas eu não toco nela sem que ela peça.
E isso, para ele, tornou o sentimento ainda mais real.
PENSAMENTO DE CLARICE
Clarice manteve os olhos na tela, mas seu corpo inteiro parecia quente demais e o motivo estava sentado a poucos centímetros.
Ele disse que não ficou desconfortável com o beijo.
Que achou gentil.
O peito dela apertou de um jeito estranho, novo.
Ela nunca tinha ouvido Henry falar com ela daquele jeito.
Nunca tinha sido tratada com aquela suavidade cuidadosa, não uma suavidade teatral, manipuladora, mas sincera.
Por que eu me sinto assim perto dele?
Por que parece tão mais seguro do que qualquer lugar em que já estive?
O cheiro dele, a voz calma, o jeito que seus olhos sempre pareciam analisar se ela estava bem…
Tudo nela reagia a Oliver Frankwood.
Mas ao mesmo tempo, havia medo.
Eu posso estar confundindo tudo.
Ele é meu médico. Ele está me ajudando.
Eu não deveria… querer isso.
Clarice engoliu seco.
A pele dela formigou só de imaginar.
Ela virou levemente o rosto, olhando de relance para Oliver, que também parecia tentar se concentrar no filme sem grande sucesso.
Ele não se aproximou.
Ele não tentou nada.
Ele só… está aqui. Me deixando respirar.
Isso, para Clarice, era mais sedutor que qualquer avanço.
Eu… eu talvez beijaria ele de novo.
Mas só quando eu tiver certeza do que estou sentindo.
Ela respirou fundo, tentando estabilizar o próprio coração acelerado.
E, sem perceber, sorriu um sorriso pequeno, tímido, mas verdadeiro.
Não para o filme.
Para ele.
E Oliver viu.