MAYA - DIAS ATUAIS

1245 Palavras
Mais um dia que começa. A luz entra por um buraco na janela do nosso quarto – no caso, nem podemos chamar isso de quarto. Eu e a Iris ficamos em um cómodo, que tem um forte cheiro de mofo, as paredes são húmidas e escuras, uma janela apenas que não fecha direito e tem várias partes quebradas. Num canto, tem duas cadeiras, onde deixamos uma pilha de roupas limpas e uma para as roupas sujas – apesar de temos apenas 2 peças de cada item. No chão, tem um colchão velho, rasgado e sem lençol, dormimos abraçadas para evitar o frio da madrugada. Eu e a íris fomos vendidas pela minha mãe, quando tínhamos apenas 10 ou 11 anos. Na verdade, eu fui vendida, a Íris apenas foi levada junto quando tentou salvar-me. Desde então, fomos feitas de empregadas, no início, a gente só fazia os trabalhos domésticos – como: lavar a louça e as roupas, faxina da casa e outros deveres. E no final do dia, sempre éramos trancadas naquele cômodo frio. Mas tudo piorou quando eu fiz 15 anos. Foi quando começaram os abusos. Sim, fomos vendidas para um homem que tinha um negócio de pro$tituioç4o de menores. A gente era mantida na casa e as meninas que sofriam os abusos, ficavam amarradas e trancadas em alguns quartos, na parte debaixo da casa – invisível aos olhos da rua. Quando alguma menina recusava, eles castigavam-nos. E os castigos eram de formas diferentes. Às vezes, éramos queimadas por cigarro, outras vezes, apanhamos de fio. Os tapas e socos, eram normais durante o dia. Nossa única força, era nossa irmandade. Com o tempo, achamos melhor aceitas os abu$o$ e ficarmos vivas . Fomos até o cano do lado de fora da casa para fazer nossa higiene. - Maya, até quando vamos viver assim? -Íris lutava para entrar debaixo da água gelada. - Eu tenho um plano Iris, vou te contar, mas você precisa saber... Caso de errado, talvez a gente não fique viva. – Eu falava, era minha vez de entrar debaixo da água fria. Terminamos nossa higiene, colocamos as nossas roupas – que mais eram pedaços velhos e rasgados de tecidos. Fomos preparar o café da manhã. Durante o café da manhã, a gente torcia para que sobrasse alguns restos, pois só assim, a gente comia. -Garotas, limpem a mesa! Vocês podem dividir apenas um pão e meia xícara de café. Se eu souber que vocês comeram algo a mais... Já sabem a punição. – O Senhor dizia. Não sabíamos o nome de ninguém, a nossa ordem era apenas responder como “Senhor”. Enquanto arrumávamos a mesa, comecei a contar o meu plano para Íris. -Íris, o plano é o seguinte. Hoje, teremos aquela festa aqui e nós vamos trabalhar na cozinha. Algumas entregas serão feitas pelo portão dos fundos. No vamos nos esconder e tentar fugir por ali. - Maya, isso é loucura. Não conhecemos nada da cidade, nunca saímos desses muros. Não sabemos se podemos confiar em alguém. - Confia em mim! Eu vi uma conversa ao telefone, será uma entrega grande de comida. Só fique perto de mim! Arrumamos tudo para a grande festa que teria na casa. O Senhor já havia falado para mim e a íris aguardar nos fundos e receber os fornecedores, que iriam fazer os jantares. Era por volta das 20h quando eles chegaram. Eu abri o portão e comecei a observar, os seguranças estavam distraídos, correndo para lá e pra cá. Os fornecedores, descarregavam as coisas do caminhão pequeno que tinha estacionado na garagem, eu vi ali a nossa oportunidade. - íris, vamos correr. É agora. Aconteça o que acontecer, não solte a minha mão! - Corremos. A gente saiu correndo pelo portão, descemos a rua e fomos a seguir. Sem direção, sem rumo e sem ter um lugar certo para ir. Ouvimos alguns tiros de longe, porém não paramos. O local onde ficava a casa, era um pouco afastado, tinha muito mato em volta, poucas ruas de asfalto. Logo, ouvimos uns cachorros latindo e homens gritando. Continuamos a correr, pela mata mesmo. Pisando em galhos e folhas secas, no meio do breu. Ali, é a oportunidade de uma vida melhor, de uma vida ao menos digna. Não íamos voltar. Eu preferia a mort3. Agachamos numa árvore apenas para recuperar o fôlego, não sei por quanto tempo corremos, mas ainda ouvíamos os cachorros e os homens. Mas também, começamos a ouvir o barulho de carros e motos. Era uma avenida. Voltamos a correr em direção aos barulhos e foi quando chegamos a beira da pista. Por um breve segundo, achei que estávamos salvas e então, eu ouvi o grito da Íris. -AAAAAAAAAAAAAAAH! – Íris berrou e caiu no chão. Eu me virei e vi, os seguranças atirando na gente. Eu abaixei-me, mas não tinha tempo para pensar. Precisava decidir rápido, então no impulso, eu segurei a Íris e atravessamos a pista. Ouvimos buzinas, carros freando, gritos. Mas não parei. A nossa vida dependia disso. Chegamos ao canteiro central, os homens ainda estavam atrás de nós. E mais uma vez, eu atravessei correndo. Dessa vez, os carros vinham do sentido contrário, sem tanto movimento. Um carro freou, os faróis claros e brilhantes em cima da gente. Foi quando eu vi dois homens saindo de dentro. Armados. E começaram a atirar! Mas para minha surpresa, não foi na nossa direção e sim na direção dos seguranças atrás de nós. - QUE PORR@ QUE TA ACONTECENDO AQUI? VOCÊS QUEREM MORRER! - O homem saiu do carro, gritando. Ele era alto, forte, pude ver algumas tatuagens e vi a arma na sua mão. - A gente precisa de ajuda! Minha irmã foi ferida. - Eu clamei por ajuda, precisava salvar a Íris. , Outro homem saiu do carro. Ele era forte e alto, como o outro. Porém, ele exalava perigo. Cheio de tatuagens até uma parte do rosto. Ela veio até a Íris e na hora, a sua expressão mudou, suavizou. -Meu Deus! É apenas uma menina... Ela foi baleada nas costas, o tiro saiu pela lateral na barriga. Bora subir com elas pro postinho. – Ele falava ao menos tempo, que tirava íris das minhas mãos e levava pro carro. - Jaé! Entra ai mina, vamo te ajudar! – O outro rapaz falava, uma voz seca e grave. Apesar do seu tamanho, não fiquei com medo dele. O sentimento foi diferente, mas não sei explicar. Entramos no carro, eu entrei no banco na frente, o rapaz entrou no banco do motorista e atrás, a Íris estava nos abraços do outro rapaz, o de aparência perigosa. Ele saiu cantando pneu, não sabia para onde eles iam. Quando eu percebi, chegamos num morro, na frente havia vários meninos armados, eles saíram da frente e subimos. Na mesma hora, o rapaz ao volante pegou tipo um celular e gritou: - ATENDIMENTO PARA O PATRÃO AGORA! EU TO CHEGANDO NO POSTINHO. AGORA! Antes mesmo do carro parar, o rapaz perigoso saiu do banco de trás com a Íris no colo e entrou no hospital. Eu corri logo atrás e entrei junto. Foi quando uma moça a colocou na maca e pediu para a gente esperar, que traria notícias. Eu me sentei nas cadeiras que tinham ali, tudo começou a girar. Aquele cheiro de álcool, produto de limpeza e ar-condicionado, eu comecei a perder os sentidos e foi quando eu ouvi, bem longe... -AJUDA AQUIII! AE MINA, FICA SUAVE. AGUENTA!
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