Alexa Smith
O despertador toca enlouquecido e, por um segundo, penso seriamente em jogá-lo na parede. Respiro fundo, desligo aquele barulho infernal e me arrasto até o banheiro.
Depois de um banho demorado pra despertar, me visto e sigo direto pra cozinha preparar meu café. Mas antes que possa dar o primeiro gole, o celular toca.
Olho o visor. Vini. Logo cedo?
Ligação ON
— Bom dia, Vini. — atendo, tomando um gole de café.
— Bom dia, princesa. Tudo bem?
— O que aconteceu pra você ligar essa hora? — pergunto, desconfiada.
— Nada demais. Só queria lembrar que amanhã é o churrasco de noivado com a Bia. E quero você lá. Sem desculpas.
— Ai, Vini... você sabe que não sou fã de festas.
— Não é uma festa. É um churrasco. Só amigos próximos. E, aliás, sua presença é obrigatória.
— Tá, tá... eu vou. Mas não prometo ficar até tarde.
— O importante é que você esteja. É um dos dias mais importantes da minha vida.
— Estarei lá. Beijos, irmãozão.
— Te amo, princesa.
— Também te amo, Vini.
Ligação OFF
Termino o café e vou para o escritório. O dia promete ser longo. E foi.
Reviso casos, me preparo para uma audiência tensa de divórcio — cliente cansada de apanhar do marido e decidida a virar a página.
A audiência dura mais do que eu previa, mas vale cada segundo: vencemos. E ela sai com a cabeça erguida e um acordo justo no bolso. Nada paga a sensação de justiça sendo feita.
Na volta, passo pela praia. Gosto de olhar o mar quando venço uma causa. É como se ele limpasse a alma.
Sem perceber, o sol já se foi e a noite começa a cair. Hora de ir pra casa. Mas, no caminho até o carro, uma voz familiar me paralisa.
— Oi, morena.
Viro devagar.
— Não… — sussurro. — Só pode ser castigo.
— Que sorte a minha te encontrar aqui. — diz ele, Daniel Ferraz, o motoqueiro babaca, agora sem camisa, de calção, com o abdômen trincado à mostra e uma tatuagem no ombro que me distrai muito mais do que deveria.
— Eu já não posso dizer o mesmo, senhor Daniel.
— Continua com essa boquinha afiada, doutora Alexa?
— E você continua se achando, né?
Me viro, indo em direção ao carro. Mas ele me segue… rápido. Me encosta, ficando perigosamente perto. O calor do corpo dele me atinge como uma faísca.
— O que você acha que está fazendo? — disparo, tentando soar firme.
— Só sentindo seu cheiro, morena…
— Me deixa passar ou vai se arrepender.
— Vai fazer o quê? — provoca, ainda mais perto.
Sem pensar duas vezes, acerto um chute bem dado entre as pernas dele.
Ele se dobra com dor, e eu me aproximo, olho no fundo dos seus olhos e sorrio com sarcasmo.
— Isso, querido. Foi só um aviso. — dou uma piscadela e entro no carro.
No caminho pra casa, meu corpo ainda treme.
E se eu não tivesse dado o chute?
Será que ele teria me beijado?
Só de imaginar, sinto um arrepio. E isso me irrita. Me odeio por estar pensando nisso. Não, Alexa. Não começa. Você não é mulher de romance. Amor é pra quem esqueceu como é se machucar.
Chego em casa. Subo direto pro banho. Frio. Preciso me controlar.
Me visto, como algo leve e passo um tempo resolvendo pendências profissionais. Quando olho o relógio, já são duas da manhã. Guardo tudo e vou dormir.
Amanhã é o noivado do meu irmão. Preciso sobreviver a mais essa “não festa”.
No Dia Seguinte…
Acordo tarde. Já são 9h. Mas dormi bem. Faço minha rotina matinal, e ao pegar o celular, vejo uma mensagem do Vini.
WhatsApp – Vinícius Smith:
“Bom dia, princesa. Só pra lembrar: quero você aqui às 15h. E sim, é uma ordem. Amo-te milhões. ❤”
Rio sozinha. Ele é o meu mundo.
Depois do café, arrumo a casa e deixo tudo em ordem. Quando o relógio marca 14h, subo, tomo banho e escolho algo simples: short jeans, regata branca, batom claro e rímel. Rosto leve, alma cansada.
Me olho no espelho. — Nada m*l.
Pego a bolsa e vou.
Chegando na casa do Vini, já vejo muitos carros estacionados.
— Ah, ótimo. Ele disse “poucas pessoas”...
Toco a campainha e ele atende com aquele sorriso de sempre.
— Oi, princesa!
— Amor... isso é sua ideia de "só amigos"?
— Ei, deixa de drama e vem aproveitar. — me dá um beijo no rosto e me leva até a área da piscina.
A Bia está lá, radiante. Conversando com os pais.
— Oi, miga! — digo, a abraçando.
— Até que enfim, Lexa! Gata como sempre!
— Finalmente o Vini criou coragem, né? — brinco. Rimos juntas.
O clima é leve, animado, e apesar da quantidade de gente, estou tentando me adaptar. Por ele. Por ela.
Converso um pouco, mas fico de olho no Vini, que parece esperar alguém.
— Ei… por que não tá com a Bia?
— Estou esperando um amigo trazer uns documentos.
— Sei. Vai trabalhar até no noivado?
— É só uma entrega, princesa.
A campainha toca.
Vini vai atender. E quando ele abre a porta…
Eu congelei.
— Você?
— Você?! — dizemos juntos.
Meu irmão nos olha confuso.
— Pera… vocês se conhecem?
— Infelizmente — digo, seca. — Ele é o i****a que quase derrubei da moto.
— E ela é a morena abusada que te falei. — completa Daniel.
— Você falou de mim pro meu irmão?! — arqueio a sobrancelha.
— Como eu ia imaginar que o Vini era seu irmão?
— Vinil, aqui estão os documentos. Tá tudo certo. — Diz e entrega ao meu irmão.
— Valeu, irmão. Fica à vontade. Volto já.
E nos deixa. Sozinhos.
Daniel me encara. Um passo. Outro.
Me encosta contra a parede.
— Aquele chute ontem… foi f**a. Meu amiguinho ainda tá se recuperando. — diz, com voz baixa, sensual. E então… pega minha mão e a guia até onde o “amiguinho” acordou de novo.
— Você quer levar outro chute? — ameaço, mesmo sentindo meu corpo estremecer.
— O que eu quero... é isso aqui. Desde o dia da batida. — ele diz, antes que eu possa reagir.
E me beija.
Não é beijo. É uma guerra. Uma explosão.
Beijo de homem. Beijo que me desmonta.
Mas minha mente grita: ele é igual ao seu ex.
Empurro ele. Tento sair.
— Onde você pensa que vai? — ele pergunta, me segurando.
— Você beija m*l! E quem você pensa que é?
— Fala sério. Você adorou.
— NÃO! — minto descaradamente.
— Seu corpo diz o contrário.
— i****a.
Tento puxar o braço. Em vão.
Ele me encosta de novo e sussurra:
— Vamos tirar essa dúvida, então.
E me beija outra vez.
Mais forte. Mais intenso. As mãos dele percorrem minha cintura, me puxam pra mais perto. Ele me prende. Me marca. Me devora com os lábios.
Eu... me odeio por gostar.
Mas me solto. Dessa vez, consigo. Saio quase correndo até a piscina.
— Alexa, tá tudo bem? — pergunta Bia, preocupada.
— Sim, sim… só... calor. Vou pegar uma bebida.
Vou até a mesa, pego um suco. Quando viro, dou de cara com o Cris.
— Oi, Alexa. Quanto tempo!
— Oi, Cris! Quanto tempo mesmo.
— Você sumiu da cafeteria…
— A correria no escritório não tem dado trégua.
— Mas podia arranjar um tempinho pra tomar um café comigo.
— Prometo que vou.
E percebo. Daniel nos observa. De longe. E não gosta.
Isso vai dar problema…
E uma parte de mim… quer que dê.