Faltavam dois dias para o festival da Deusa, a alcateia se concentrava em deixar tudo preparado para que nada desse errado e todos pareciam estar felizes a cada dia que se aproximava.
Aria continuava em seu castigo, resmungando o quanto era injusto não poder sair justo na semana em que a vida dela iria mudar e ela se negava a falar comigo dentro da cabana. Aparentemente eu era a causa de sua infelicidade e raiva, meu pai ficou decepcionado com seu comportamento, assim como minha mãe que vivia por perto, perguntando se eu estava bem.
Já havia passado por dias piores, claro que ouvir aquilo de Aria doeu e fiquei magoada com a forma que ela passou a me tratar. Jamais imaginei que minha irmã poderia ser tão mesquinha e egoísta, a forma que ela pensava da nossa vida na aldeia e das pessoas que viviam em cargos mais baixos, afinal nossa mãe era uma ômega que cuidava da casa e gostava de fazer artesanato para vender na feira, nosso pai era um alfa que caçava e também trabalhava como ferreiro.
Sempre tive orgulho dos meus pais, afinal, sempre nos criaram com tanto amor e respeito. Ver Aria agir dessa forma era decepcionante.
— Lia, queria, vou até a feira comprar alguns temperos que não temos na horta. — Ouço minha mãe falar comigo, me fazendo despertar dos meus pensamentos.
— Claro mãe, acho que vou andar na floresta um pouco, perto da clareia tem algumas flores muito bonitas. — Falei me levantando e indo pegar uma pequena cesta.
— Não quer ir até a feira comigo, meu amor? — Minha mãe pergunta.
— Melhor eu ficar afastada da feira, mãe. —Falei. — Vou colher as flores para o festival e para fazer o enfeite do cabelo de Aria.
— Querida, você não precisa fazer as coisas do festival pela sua irmã. — Minha mãe diz.
— Eu sei mãe, mas o festival é da Deusa, nós fazemos isso por ela e é por isso que eu estou fazendo isso.
— Você está certa, meu bem. — Minha mãe faz um carinho em meu rosto. — Só não fica até muito tarde na floresta, está bem?
— E a senhora se cuida também, sim? — Dou um beijo em sua bochecha. — Prometo não me esconder muito na floresta.
Assim que terminei de falar, saímos da cabana e cada uma seguiu seu caminho.
Eu sempre gostei de passar a maior parte do meu tempo dentro da floresta e depois que minha apresentação foi um fracasso, a floresta virou meu lugar favorito. Era silencioso, calmo e me dava a sensação de paz, ali não havia o risco de escutar insultos de alguém, era somente eu, a natureza e alguns animais que apareciam em meu campo de visão.
Gostava de andar pela floresta com meus pés descalços, era como se eu estivesse conectada com as coisas em minha volta, até podia sentir minha loba tranquila dentro de mim. Era um pouco triste que eu só poderia me comunicar com ela totalmente, só depois que encontrar meu alfa e enfim poder deixar minha loba assumir um pouco o controle.
Quando almas predestinadas se reencontram, o lobo ômega pode se comunicar com a pessoa que o carrega, também é possível a transformação total em lobo, porém isso era só depois de passar o primeiro cio com o alfa. Eu só conseguia ouvir alguns resmungos em minha mente e sentir alguns sentimentos dela dentro de mim, era estranho não saber o que minha loba queria e nos últimos dias ela andava inquieta, resmungando mais que o normal. Isso me deixava alerta.
Fui caminhando sem pressa, conseguia ouvir o barulho da cachoeira ali perto e não demorou muito para começar a ver as flores que queria, perto da cachoeira havia uma clareira cheia de flores, de todas as cores e uma mais bela que a outra. Decidi pegar algumas margaridas para poder enfeitar meu cabelo e para o arco do cabelo de Aria, margaridas brancas, algumas florzinhas azuis, amarelas e peguei algumas rosas. Faço isso com cuidado e sem pressa, afinal não havia nada para fazer na cabana hoje e não me agradava ter que caminhar pela aldeia.
Sem vontade de voltar para a cabana, me deito na grama, bem no meio da clareira, deixando o sol tocar meu rosto e meu corpo descansar com a natureza. Fecho meus olhos e tento sentir minha loba, já que ela andava estranha, mas como todas as vezes não consigo identificar o que ela queria.
— Queria tanto entender… — Suspirei cansada. — Espero um dia poder escutar você.
Fico tão concentrada em meus pensamentos que não percebo que acabei cochilando e ao abrir meus olhos novamente, percebo que o sol está quase se pondo.
— Ah! Droga!
Me levanto já limpando um pouco da grama que ficou em meu vestido, peguei a cesta que estava ao meu lado e começo a caminhar apressada para voltar para casa. Minha mãe ficaria um pouco irritada por meu atraso, mas não duraria muito tempo, afinal eu conhecia bem a minha mãe.
Não demoro muito para chegar na cabana e logo entrei deixando o cesto na entrada, minha respiração estava um pouco acelerada pela corrida até ali, então respiro fundo e controlo minha respiração para poder caminhar até a cozinha, onde meus pais e Aria estavam.
— Achei que você tinha falado que não ia demorar muito, mocinha. — Minha mãe diz quando me vê entrando na cozinha e sentando na cadeira vazia da mesa.
— Acabei perdendo um pouco a noção do tempo. — Falei me servindo um pouco da sopa de ervilhas e um pedaço de carneiro assado.
— Pelas gramas no seu cabelo, aposto que acabou dormindo na clareira. — Meu pai diz segurando o riso.
—Lia! Já disse que é perigoso ficar cochilando lá! — Minha mãe diz me olhando com cara de brava.
— Mãe, você sabe que eu fico prestando atenção e tomo cuidado. — Explico.
— E se um alfa m*l encarado tenta atacar você? — Minha mãe pergunta.
— Pelo menos ela iria arranjar um alfa, né. — A voz de Aria se faz presente na mesa.
— Aria! — Meu pai diz em tom de advertência.
—Tudo bem pai! — Digo. — Só vamos ter um jantar tranquilo, ta bom?
Meu pai e minha mãe concordam. Aria vinha se mostrando cada dia mais arrogante a cada dia, mas tentava ignorar e não dar atenção para o que ela falava, isso fazia com que ela ficasse ainda mais furiosa com toda a situação.
— Conseguiu pegar as flores que queria? — Minha mãe pergunta, tentando aliviar o clima tenso que ficou.
— Consegui, amanhã pode fazer a tiara para o cabelo de Aria. — Falei depois de engolir um pouco da comida. — Achei flores bem bonitas.
— Achei que eu deveria colher as flores para o meu arco. — Aria diz.
— Achei que como você detesta qualquer tarefa que exija esforço e a faça sujar, pensei que seria melhor eu fazer isso. — Falei sem paciência. — E também você ainda não saiu do castigo.
— E o festival é em dois dias. — Meu pai diz antes que Aria tente retrucar. — Sua mãe precisa fazer a tiara a tempo.
— Ótimo então, vou ficar descansando até o festival. — Aria diz dando os ombros.
— Muito pelo contrário, amanhã vai ajudar a sua mãe nas tarefas de casa. — Meu pai diz e antes mesmo que Aria reclame, ele volta a falar. — Como eu falei, falta dois dias para o festival e você não sabe como cuidar de uma casa, então até a apresentação, você vai aprender e sem reclamar! Estamos entendidos?
— Sim, senhor! Vou me deitar, perdi a fome! — Ela diz se levantando.
— Lia.. — Ouço meu pai me chamar assim que Aria entra em seu quarto. — Não ajude sua irmã nas tarefas, amanhã você não precisa ajudar em nada. — Meu olhar vai até o rosto de minha mãe e então volto a encarar meu pai. — Mesmo que Aria esteja agindo assim, ela precisa aprender como as coisas funcionam, entendeu?
— Entendi pai, vou arrumar algo pra me ocupar amanhã.
Ele acena com a cabeça e é tão voltamos a nossa refeição, trocamos poucas palavras de como foi o dia de cada um e sobre alguns assuntos aleatórios. Após o jantar, ajudei minha mãe a arrumar tudo e então me preparo para dormir, enchi minha banheira com uma água morna para me lavar e tirar um pouco da sujeira do dia, usei a barra de sabão que minha mãe sempre fazia em casa mesmo, e após terminar, vesti minha roupa de dormir, uma camisola soltinha e confortável, que ia até abaixo dos joelhos. Então me deitei para dormir depois de apagar as velas das luminárias do quarto.