Como imaginei, Aria estava em seu quarto, concentrada em arrumar os seus lindos cabelos castanhos em uma trança e um leve pigmento vermelho na sua boca. Minha irmã era uma jovem muito bonita e vaidosa, talvez um pouco mimada, mas acho que isso fazia parte de ser a caçula da casa.
Sou tirada dos meus pensamentos com minha mãe saindo de onde era a cozinha com um cesto em mãos, sabendo o que ela faria a seguir, fui ao meu quarto e comecei a juntar as peles, as colocando em um cesto, com o cesto cheio em mãos vou até a parte central da cabana e aguardo por minha mãe.
— Aria, junte as suas peles no seu cesto e venha para a parte de trás da cabana. — Minha mãe a chama e deixou o seu cesto ao lado do meu.
— Ah mamãe! Terei que lavar as peles? — Aria pergunta em um tom de indignação. — Eu queria caminhar pela aldeia, ir até o local da feira.
— Querida, você sabe que sempre no início da primavera devemos limpar e organizar tudo que não pode ser feito durante o inverno. — Minha mãe como sempre era paciente.
— E também não tem coisas na feira ainda, os comerciantes estão fazendo as suas limpezas também. — Digo ao ver minha irmã sair emburrada de seu quarto.
— Mas minha apresentação para a Deusa é na próxima semana, queria observar os meus possíveis pretendentes. — Ela diz sorrindo sonhadora.
— Aria, pela lua, conhecemos todos nessa aldeia. — Falei enquanto pego o meu cesto e vou em direção à porta. — Está arrumando desculpas para não lavar suas próprias peles.
— Mamãe sempre as lavou para mim, por que agora eu que tenho que lavar?
— Já és uma mocinha Aria, como você mesma falou, vai ser apresentada para a Deusa. — Minha mãe diz calma. — Precisa saber cuidar de um lar, essa será sua função no seu casamento.
— Exato, os únicos ômegas que não precisam se preocupar tanto com isso são os da cabana principal. — Paro em frente a nossa pequena fonte, colocando a primeira pele na água e pegando o sabão na mão de minha mãe.
— Mas isso não quer dizer que o nosso ômega líder não tenha as suas responsabilidades. — Minha mãe começa esfregar as peles assim como eu. — Afinal, ele é o exemplo para os ômegas da alcateia, temos que cuidar do lar e dos filhotes.
— Mãe, como Lia vai ter filhotes? — Após a fala de minha irmã, ficamos em silêncio. — E porque diferente dos ômegas, a Lia tem um arco e flecha?
— Aria…—Comecei a falar ao perceber que minha mãe não sabia exatamente responder as suas perguntas. — Tenho um arco e flecha, pois sei caçar e também aprendi a me virar sozinha nos últimos tempos. — Respirei. — E não preciso de filhotes, sei que preciso de um alfa para tal, mas nós sabemos que não tenho um e por isso já aceitei que serei uma ômega sem filhotes.
— Mas caçar é coisa de alfa. — Ela diz.
— Sim, o único alfa que traz caça para que eu possa comer é o nosso pai. — Falei. — Mas vai chegar um momento que nossos pais irão se juntar a Deusa e para que eu não morra de fome, preciso saber sobreviver.
— Terei que aprender também? — Ela pergunta.
— Como? — Minha mãe fica com certo espanto. — Do que está falando?
— Ora mamãe, você não escuta os moradores da nossa vila? — Aria questiona.
— Aria, você não vai ser defeituosa como eu. — Falo de forma séria.
— Nenhuma das duas nasceu defeituosa. — É a primeira vez em tempos que vejo a minha mãe perder a calma. — Aria, ouça bem, não sabemos o porquê de sua irmã não ter um alfa aqui, infelizmente algumas vezes não temos as respostas que queremos. — Ela respira fundo. — A Deusa prepara o destino de cada um, às vezes, alguns são mais complicados que outros e devemos confiar nos planos que Ela prepara para nós.
— Então ela planejou que a Lia vivesse solitária? — Sua voz começa a ficar um pouco agitada.
— Se esse é o destino que ela escreveu para mim, então tudo bem. — Digo sentindo o meu lobo em minha mente resmungar. — Só que porque fui escolhida para essa vida, não quer dizer que você também vá.
— Isso mesmo. — Minha mãe respira fundo e balança a cabeça. — Agora vamos focar na nossa limpeza.
Após minha mãe terminar de falar, baixamos as nossas cabeças e continuamos o nosso trabalho em completo silêncio.
Não me magoava as perguntas de Aria, mas naquele momento desejei que tudo fosse diferente, que a dois anos atrás a Deusa me presenteasse com um alfa e que eu não ficasse conhecida como defeituosa ou renegada. Se tivesse sido diferente, Aria não precisaria viver em ansiedade, a nossa família não iria escutar coisas humilhantes pela aldeia e meus pais não iriam viver agindo como se tudo estivesse bem, como se tudo isso fosse algo normal.
Ao terminar de lavar todas as peles, deixamos estendidas em uma corda que cada ponta era presa em troncos de madeira, o sol da primavera estava forte e não demoraria para ficarem secas. Enquanto minha mãe ia até nosso galinheiro para poder abrir e verificar nossas galinhas, fui em direção a nossa pequena horta para ver o crescimento de novos brotos e plantar mais algumas sementes, mas não deixei de notar que Aria deu seu jeito de fugir das atividades e sumir em direção ao centro da vila.
— Porque toda vez que venho aqui, você está suja de terra?
Sorri ao escutar a voz de Talia, minha única e melhor amiga, ao me virar para ela a primeira coisa que vejo é o pequeno volume em seu ventre, uma mão segurava uma cesta e a outra repousava em sua barriga. Essa era a segunda vez que Talia estava grávida, sua primeira filhote se chamava Stela, era uma garotinha esperta que foi gerada no primeiro cio de Talia com Dako.
— Bom, acho que você não consegue mais se abaixar na horta, com essa barriguinha ai. — Brinquei me levantando. — Onde está o cão de guarda?
— Dako foi ao encontro do futuro líder. — Talia diz.