CAPÍTULO 8

1946 Palavras
|ELIZA FITZ| Saio de casa às cinco da manhã, assino a minha contratação por volta das seis, e às sete horas da manhã, chego à Residência Ford. A casa não é tão assustadora como imaginei. Da forma em que foram descritas as tarefas, achei que ela fosse uma fortaleza de muitos cômodos para uma só pessoa dar conta. Do contrário que pensei, não é um mausoléu cercado. É uma casa muito bonita, grande e com um gramado de dar inveja. Fico parada de frente para a casa sem saber quais são os próximos passos. Não sei se deveria bater e esperar o senhor Ford vir abrir para me receber, por ser meu primeiro dia, mas também fico dividida, retirando da minha bolsa, a lista de exigências, onde tudo se resume a não incomodar. Pego a chave que me entregaram quando assinei o contrato antes de vir para cá e caminho até lá. Obviamente, o senhor Ford já deve saber que hoje é meu primeiro dia aqui. Subo os pequenos degraus que levam à porta e insiro a chave na fechadura. Agora, mais do que nunca, preciso me policiar. Uma, porque não quero que ele reclame de mim para Madelyn e outra, que não quero trocar nenhuma palavra com ele. A primeira coisa que faço é ir em busca de um cômodo reservado e, no andar térreo da casa, encontro o lavabo. Visto o uniforme por cima da minha própria roupa, sem ver muita necessidade de tirar, já que estou apenas de legging e camiseta branca. Por mais que eu tenha preenchido o formulário com o meu tamanho de roupa, parece que eles me deram o que tinha disponível. Um conjunto cinza-escuro, com calça, camiseta e um colete de tecido grosso com bolsos, muito maiores que a minha estatura. Ambos com detalhes em rosa bebê. Além de não ser o meu tamanho ideal, estou abaixo do meu peso, então o uniforme fica um pouco desengonçado em meu corpo. Tento pensar pelo lado bom: não tenho muitas roupas para vir trabalhar todos os dias, então ao menos, poderei repetir essa sem que me questionem. Troco meus sapatos pelos de borracha que eles também forneceram e me preparo para começar meu primeiro dia. Resolvo começar explorando o andar térreo. Composto pelo Hall de entrada, sala de estar, um espaço destinado à mesa de jantar e a cozinha ampla, com uma ilha no centro. Seguindo nessa sequência, há um corredor com duas portas. A primeira porta, é o lavabo onde vesti o uniforme e a segunda, um quartinho de limpeza com tudo o que irei precisar. Tem baldes, vassouras, aspirador, cortador de grama, VAP, escada, flanelas, panos, produtos de limpeza dos mais simples até para limpezas mais pesadas. Vou até o fim do corredor e exploro a área de serviço integrada à área de lazer. Empurro a porta de vidro e aprecio o espaço. É bem espaçoso. Contém uma churrasqueira, um balcão de mármore com pia embutida, uma mesa redonda com quatro cadeiras, guarda-sol, quatro espreguiçadeiras e uma piscina que há muito tempo não é limpa. Reparo que nos pontos onde há grama, também não é aparado há bastante tempo. É uma casa bonita, mas precisa de manutenção. Parece ter ficado sem moradores por um longo período. Por dentro, não está tão suja quanto eu imaginei. Beatrice, a secretária que cuidou da minha contratação, comentou, enquanto me dava as últimas instruções, que as últimas contratações não duraram mais do que dois ou três dias. Ainda não sei por onde começar, então resolvo subir as escadas para explorar o andar de cima silenciosamente. Como ainda é cedo, não quero correr o risco de acordar o senhor Ford, então tomo o máximo de cuidado até ao pisar nos degraus, evitando segurar no corrimão de madeira branca, receosa de que ele faça algum barulho e algum alarme soe pela casa inteira dizendo que estou sendo demitida já no primeiro dia. Esse pensamento me faz soltar um riso. Mal cheguei e já estou ficando paranoica. A verdade é que, estou curiosa para saber porque ele colocou essas exigências, se nem chegou em seus quarenta anos ainda para ser tão carrancudo. Fecho meus olhos e balanço a cabeça, afastando essas teorias. O motivo não é da minha conta. Não vim aqui para isso. Eu só quero fazer meu trabalho e ganhar o dinheiro que estou precisando. Meu plano era nunca mais encontrá-lo depois do nosso primeiro encontro, mas se ele precisa de um fantasma na casa, farei essa tarefa impecavelmente. Chego no andar de cima e deparo-me com um corredor e algumas portas. A primeira está aberta sendo impedida de se fechar por um peso de porta. É um pequeno escritório com móveis todos planejados. A próxima porta, ao lado, também está aberta, é um cômodo vazio sem nenhum móvel. Ando até a porta do outro lado do corredor um pouco mais a frente e giro a maçaneta com cuidado. Não está trancada, é um quarto que julgo ser o de hóspedes. Entro lá para dar uma olhada e a informação do quarto de hóspedes se confirma, não tem sinal algum de uso, nem itens de higiene pessoal. Não deixo de reparar na banheira, da suíte, Aelin sempre quis tomar banho em uma. A próxima porta, do outro lado do corredor, é um banheiro social. Seguindo do mesmo lado do corredor, encontro outro quarto, também deve ser para hóspedes, pois não tem sinal de uso. No fim do corredor, do outro lado, a última porta, mas hesito antes de caminhar até lá. Deve ser o quarto dele. Fico ali alguns minutos processando o silêncio da casa. Não é possível que ele esteja aqui. Aliás, ele pode estar dormindo. Suspiro, tirando essa ideia da cabeça. Acho melhor seguir o que me orientaram. Ficar longe daquele cômodo e não o incomodar. Dou meia-volta e desço as escadas. Tiro da bolsa a pastinha com as tarefas que pedi para Beatrice imprimir. Assim, consigo me organizar melhor com os horários e definir as prioridades. Uso alguns ímãs e colo as listas de tarefas na lateral da geladeira. Paro de frente para elas e observo por um instante. Tem uma lista de itens, então decido começar com o mais simples. “Às oito e meia da manhã, o café precisa estar pronto.” Abro a geladeira em busca do que preciso, mas a quebra de expectativas é tão grande quando a abro e não encontro nada, que solto um riso iludida. — Primeiro passo: ir ao supermercado — digo para mim mesma, retirando da pasta, o cartão bancário que recebi para comprar o que achar necessário para a casa e saio, demorando mais do que deveria para fechar a porta e trancá-la com a chave, com medo de que qualquer “click” me leve para a cadeia. *** Meus cálculos não são tão precisos quanto eu havia planejado. Demoro mais do que deveria no supermercado e volto para a Residência Ford às 08:30 cheia de sacolas. Torço com todas as minhas forças que o senhor Ford perca a hora e eu consiga me sair bem na primeira tarefa. Deixo as sacolas em cima da ilha da cozinha e sem tempo para guardar tudo, pego apenas o que preciso para preparar ovos mexidos, torradas, suco, frutas, um iogurte natural, corto alguns pedaços de bolo e quando o relógio marca oito e cinquenta, deixo tudo posto em cima da mesa de jantar. Guardo as compras, fazendo o mínimo de barulho possível com as sacolas, na expectativa de que, a qualquer momento, ele descerá pelas escadas. Mas os minutos passam e nada. Não ouço nenhuma movimentação no andar de cima e nenhum sinal de que ele vai aparecer para tomar o café da manhã. Começo a ficar inquieta durante a espera, então resolvo me ocupar indo atrás de outra tarefa. Observo mais uma vez a lista que fixei na geladeira e opto em colocar as roupas para lavar. Caminho até a área de serviço nos fundos da casa. Tem um cesto de roupas lá e eu separo todas antes de colocá-las na lava e seca, porém quando aperto o botão para dar os comandos, percebo que está desligada e para a minha surpresa, está sem o cabo da tomada. Ele tirou. Não está aqui. — Uau — digo para mim mesma com ironia. — Nada de lava e seca. Paro mais uma vez e suspiro. Não haveria problema em lavar as roupas na mão, até porque, é assim que faço com as minhas e as de Aelin, então lembro-me do cartão bancário e que posso usá-lo sempre que precisar. Vou até o aparelho Wi-fi e procuro pela senha, localizada na parte debaixo. Conecto meu celular e pesquiso por lavanderias próximas aqui da vizinhança. Encontro uma a vinte minutos de distância, mas agora só preciso descobrir onde colocar as roupas para levá-las até lá. Não acho nada no quartinho de limpeza, então, para não perder tempo, coloco as peças em um cesto menor. Pego o cartão, a chave e, fazendo o máximo esforço para não fazer barulho, saio novamente. *** É horrível estar com o sentimento de que há algo de errado. Estou me sentindo uma invasora naquela casa. Sei que ele não quer ser incomodado, mas não foi dessa forma que eu havia imaginado meu primeiro dia. Isso me contradiz de diversas formas, mas eu esperava ao menos um tipo de conversa constrangedora entre nós dois antes de começar meu trabalho. É certo que houve um contratempo com Madelyn e ela não conseguiu me recepcionar por ainda estar no hospital, mas pensei que o senhor Ford ao menos, teria o senso de assumir o papel dela. Espero que ele goste ao menos do café que preparei. Resolvo deixar as roupas na lavanderia e pagar um valor um pouco mais alto para entregarem lá na casa quando as peças estiverem prontas e volto para lá na caminhada. São nove e quarenta da manhã quando me aproximo da casa e vejo que a porta está escancarada. Meu coração dispara em segundos. Eu tranquei, tenho certeza disso. Jamais cometeria um erro desse no meu primeiro dia. Aperto o passo e percebo que tem um carro estacionado do outro lado da rua. Ele não estava aqui quando saí. — Ai, caramba — murmuro, olhando para os dois lados da rua antes de entrar na casa. Eu não estava preparada para enfrentar assaltantes justo no meu primeiro dia. Escaneio o andar térreo da porta em busca de alguma movimentação, mas pelo que parece, não tem ninguém, então vou até o quartinho de limpeza e pego uma vassoura empunhando ela como uma arma rumo as escadas que levam até o andar de cima, mas dou meia-volta e pego uma faca do faqueiro que fica em cima da ilha da cozinha. Paro no primeiro degrau para ouvir a movimentação no andar de cima e vou subindo um a um, até parar na ponta da escada e encarar o corredor vazio. Respiro fundo e num movimento brusco, checo o escritório que está com a porta aberta. Não tem ninguém. No cômodo vazio também não. As outras portas, que estão fechadas, nem ouso tentar abrir. Caminho até a última porta do corredor, que antes estava fechada, mas agora está aberta, e ouço o som da ducha ligada no banheiro. Caminho até lá sem fazer barulho e, no mesmo movimento, entro de uma vez, com a vassoura em uma mão e a faca na outra. Não há ninguém. Só escuto o som da água caindo e alguns soluços vindo do banheiro. — Senhor Ford? — pergunto, caminhando devagar até lá, mas a cena que vejo, é a última coisa que imaginava encontrar.
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