Capítulo 1 - Primeira Fase: Uma Herança de Sangue

1059 Palavras
Papai, papai, que barulho é esse papai? -Fica calma filha e fica abaixada…(tiros, tiros) Papai, eu tô com medo… -Só fica calma meu bebê, vai ficar tudo bem...vai ficar tudo bem…(mais tiros)... Amor, você está acelerando muito… -Se não for assim, não teremos nenhuma chance… Amor, curva mais a frente… Mais tiros, muitos tiros, luzes, carros em alta velocidade, frenagem brusca, capotagem… Acordo toda suada, assustada, olho pro relógio na pequena mesinha de cabeceira ao lado da cama, são exatamente 4:00hs da manhã, respiro fundo, meu corpo inteiro está tremendo, tento me acalmar. Levanto da cama e vou até o meu minúsculo banheiro, me olho no espelho por alguns minutos e depois jogo água no rosto, fico ali em pé me olhando, tentando me lembrar, forço, mas nada, minha cabeça começa a latejar, desisto, tiro o meu micro pijama de algodão velho e vou pro chuveiro, ligo a água fria e deixo cair sobre o meu corpo que ainda treme por conta do sonho, enquanto estou tomando o banho me perco em pensamentos, desligo o chuveiro e pego a toalha que está pendurada ao lado, me enxugo, coloco apenas uma calcinha e volto pra cama, preciso tentar dormir um pouco mais, até o despertador tocar e encarar mais um dia de trabalho na lanchonete do seu Ari. Seu Ari é um senhor bondoso que me estendeu a mão no momento em que mais precisei, nunca poderei agradecer a ele o suficiente por tudo o que ele fez por mim. De uns três anos pra cá tenho tido esse pesadelo quase todas as noites, às vezes tenho a impressão que este pesadelo na verdade são lembranças… lembranças de um passado ao qual eu desconheço. Acordo com o despertador tocando, são exatamente 7:00hs da manhã, levanto rapidinho e corro pro banheiro, tomo um banho rápido, faço um café rapidinho na cafeteira enquanto coloco uma calça jeans, uma camiseta preta e meu tênis que já está bem surrado, como um pão com manteiga e meu café, escovo os dentes correndo e saio, fecho a porta do apartamento e vou trabalhar, estou tão cansada, desde que eu sai do orfanato trabalho nesta lanchonete, na verdade eu dei muita sorte porque consegui este trabalho que me ajuda a sobreviver nesta vida tão difícil, nada é fácil pra uma pessoa que não tem ninguém no mundo, dependo apenas de mim pra ter o que comer, o que vestir, e um teto onde poder colocar a cabeça todas as noites, esse apartamento seu Ari me alugou por um baixo valor, já era mobiliado quando entrei e mantenho tudo dentro da mais perfeita ordem. Assim que chego na lanchonete ele já está abrindo, corro até ele e o ajudo, é um senhor já com uma certa idade, ele me trata na verdade como um pai, ao menos é o que eu acho. -Bom dia seu Ari, chegou mais cedo hoje? Ari- Bom dia minha menina, teve mais uma noite r**m? Você está de novo com olheiras minha filha, tem que dormir mais cedo… Ayla- Eu dormi cedo seu Ari, mas tive mais um pesadelo, ele se repete constantemente… Ari- Deve ser coisa da sua cabeça menina, vocês jovens tem que parar de ver esses filmes doidos que assistem, depois ficam assim… Ayla- Pode ser seu Ari, pode ser… Vou até a área dos funcionários e guardo a minha bolsa, coloco o meu avental, uma touca na cabeça e volto pro balcão de atendimento, limpos as mesas rapidamente e me preparo pra começar o dia. o movimento aqui é muito bom, e graças a isso consigo ganhar algumas gorjetas que vou juntando pra comprar uma coisinha ou outra. -Logo o dia começou a se agitar, as mesas ficando cada vez mais cheias, um pede um café aqui, outro um suco ali, um pão na chapa, outro um sanduíche, e nesse vai e vem as horas passam rápido, mas tem uma coisa martelando em minha cabeça que não sai, o sonho que se repete quase todas as noites e sempre me deixa trêmula e suada, porque tem se repetido tanto? Logo chegou a hora do almoço a lanchonete começou encher novamente, é uma rotina constante e sempre os mesmos clientes, os mesmos pedidos, atendo-os sempre com um sorriso no rosto e conheço a todos pelo nome, acabamos fazendo “amizade” com os clientes… Atendo e sirvo todas as mesas, na verdade sou a única garçonete daqui, mas faço tudo com muito carinho, gosto de trabalhar aqui, os clientes são legais e seu Ari é sempre um amor comigo. Depois do longo dia de trabalho está terminando, empilho todas as mesas e cadeiras e limpo tudo, deixando tudo pronto pro dia seguinte, já são quase 20hs, vou até a parte de trás tiro o meu avental e pego a minha bolsa, volto pro balcão e junto com seu Ari saímos, ajudo-o a fechar tudo e sigo pro meu mini apartamento. Apesar do cansaço da vida adulta, ainda me sinto melhor do que o período que passei no orfanato, ao menos aqui fora ninguém me olha torto, me coloca de castigo por nada ou me bate constantemente… Subo as escadas e assim que entro em casa me jogo no sofá de dois lugares que tem na sala, fecho os olhos e respiro fundo, pensando em como a minha vida é. Já sou uma adulta e não devo me lamentar, mas porque eu tinha que passar por essas coisas desde criança… Porque meus pais não me quiseram? Acho que essas perguntas são frequentes na cabeça de quem é abandonada na porta de um orfanato...um ser sem defesa alguma. -Paro de pensar nessas coisas, me levanto do sofá e vou logo tirando as minhas roupas, preciso urgentemente de um banho pra retirar todo o cansaço acumulado durante o dia. Entro no chuveiro e fico ali por uns 15 minutos e depois saio enrolada na toalha, vou até a cozinha e abro o armário e me assusto ao ver que não tem quase nada, vejo um macarrão instantâneo jogado num canto e decido que esse será o meu jantar, coloco no fogo, ponho a cafeteira para funcionar e vou rapidinho vestir um pijama pra ficar mais confortável. -Depois de tudo pronto, janto, lavo a louça e vou me deitar. Essa tem sido a minha vida simples e única que eu tenho...
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