Talvez eu fosse pequena demais para entender tudo o que estava acontecendo, mas não era pequena demais para sentir.
Depois que meu pai morreu, nossa casa nunca mais foi a mesma.
Antes, quando eu chegava da escola, ele sempre estava esperando por mim.
— Minha princesa chegou!
Era assim que ele me chamava.
Eu reclamava, dizia que já era grande e que ele precisava parar de me chamar daquele jeito.
Mas, depois que ele morreu, eu daria tudo para ouvir aquela voz novamente.
Tudo.
A cadeira onde ele costumava sentar continuava no mesmo lugar.
A caneca dele ainda ficava no armário.
Até uma camisa que ele usava muito continuava pendurada atrás da porta.
Às vezes eu entrava no quarto, abraçava a camisa e fechava os olhos, tentando imaginar que ele ainda estava ali.
— Eu sinto sua falta, pai.
Era a única coisa que eu conseguia dizer.
Mas tinha outra coisa que estava me incomodando.
Minha madrasta, Sônia.
Depois que meu pai morreu, ela começou a agir de um jeito estranho.
Passava muito tempo escondida no telefone.
Quando eu entrava na sala, ela parava de conversar.
Quando eu perguntava alguma coisa, dizia que não era assunto meu.
Eu comecei a desconfiar.
Até que, naquele dia, descobri a verdade.
⸻
Eu tinha voltado mais cedo da escola.
Entrei em casa devagar porque estava com fome.
Foi quando ouvi uma voz vindo do quarto.
Eu conhecia aquela voz.
Era Marcos.
Um homem que morava perto da nossa casa.
Parei no corredor.
A porta estava entreaberta.
Eu me aproximei sem fazer barulho.
Quando olhei, vi minha madrasta sentada no colo dele.
Eles estavam muito próximos.
Marcos segurava a mão dela.
Meu coração começou a bater forte.
— Você não devia estar aqui — minha madrasta falou.
— Eu queria ver você — ele respondeu.
— E se Alessandra aparecer?
Eu prendi a respiração.
Marcos riu.
— Ela é só uma criança.
Minha madrasta ficou em silêncio por alguns segundos.
Depois disse:
— Mesmo sendo criança, ela está começando a perceber as coisas.
Eu senti meus olhos encherem de lágrimas.
Mas o que ouvi depois doeu ainda mais.
— Então manda ela embora — Marcos falou.
Eu não consegui continuar olhando.
Saí dali em silêncio.
Entrei no meu quarto e fechei a porta.
Eu queria chorar.
Queria gritar.
Queria perguntar por que ela estava fazendo aquilo.
Meu pai tinha acabado de morrer.
Como ela podia estar com outro homem?
Será que ela já estava com ele quando meu pai era vivo?
Essa pergunta ficou presa na minha cabeça.
Peguei minha mochila.
Comecei a colocar algumas roupas dentro.
Uma blusa.
Uma calça.
Outra blusa.
Peguei a fotografia do meu pai que ficava dentro da gaveta.
Olhei para ela por alguns segundos.
Era uma foto nossa.
Ele estava sorrindo.
Eu também.
Passei o dedo pelo rosto dele.
— Eu queria que você estivesse aqui.
Coloquei a fotografia dentro da mochila.
Peguei algumas moedas que eu tinha guardado.
Não era muito.
Mas eu não queria ficar naquela casa.
Não queria olhar para Sônia.
Não queria ouvir mais mentiras.
Antes de sair, olhei para o meu quarto.
Eu sabia que talvez nunca mais voltasse.
⸻
Desci o morro sozinha.
A mochila estava pesada nas minhas costas.
Mas o peso maior estava dentro de mim.
Passei pelo campinho onde eu costumava brincar com Joana.
Lembrei de quando nós duas corríamos por ali.
Lembrei de quando meu pai aparecia para me buscar.
Ele sempre dizia:
— Vamos, princesa. Está ficando tarde.
Eu sorri mesmo chorando.
— Eu sinto sua falta, pai.
Continuei andando.
Cheguei ao ponto de ônibus.
Eu não sabia exatamente para onde iria.
Só sabia que queria ir para longe.
Muito longe.
Quando o ônibus que seguia para a capital parou, o motorista abriu a porta.
— Vai subir?
Olhei para ele.
— Vou.
Ele olhou para os lados.
— Está sozinha?
Eu fiquei com medo.
Então menti.
— Minha família está me esperando na capital.
Ele apenas fez um sinal para eu entrar.
Sentei perto da janela.
Quando o ônibus começou a andar, olhei para o morro pela última vez.
Minha casa foi ficando pequena.
Depois menor.
Até desaparecer.
Eu encostei a cabeça no vidro.
— Adeus.
Eu não sabia se estava dizendo adeus à casa.
Ao morro.
À minha infância.
Ou à menina que eu tinha sido antes daquele dia.
⸻
Horas depois, cheguei à capital.
Quando desci do ônibus, fiquei assustada.
Era tudo enorme.
Prédios altos.
Carros passando o tempo todo.
Pessoas andando depressa.
Eu não conhecia ninguém.
Não sabia para onde ir.
Olhei para a fotografia do meu pai.
— E agora, pai?
Fiquei esperando uma resposta.
Mas só ouvi o barulho da cidade.
Comecei a caminhar.
Eu tinha dez anos.
Uma mochila nas costas.
Algumas moedas no bolso.
E uma fotografia do meu pai nas mãos.
Foi tudo o que levei comigo.
⸻
Quando começou a escurecer, eu estava cansada.
Sentei em um banco de uma praça.
Minha barriga doía de fome.
Eu estava com medo, mas não queria voltar.
Não podia voltar.
Uma mulher se aproximou.
— Oi, querida. Você está sozinha?
Levantei os olhos.
— Estou esperando uma pessoa.
— Quem?
Olhei para a fotografia que segurava.
— Meu pai.
A mulher ficou em silêncio.
Depois perguntou:
— Onde está sua mãe?
Baixei os olhos.
— Eu não tenho mãe.
— E seu pai?
Apertei a fotografia contra o peito.
— Ele morreu.
Ela ficou ainda mais séria.
— E você veio sozinha para a capital?
Eu apenas balancei a cabeça.
Ela se sentou ao meu lado.
— Qual é o seu nome?
— Alessandra.
— Eu sou Helena.
Eu não sabia se podia confiar nela.
Depois de tudo o que tinha acontecido, eu não confiava mais facilmente nas pessoas.
Helena percebeu meu medo.
— Você não precisa confiar em mim agora.
Fiquei olhando para ela.
— Mas você não pode passar a noite aqui sozinha.
Eu não respondi.
Naquele momento, percebi que talvez eu realmente estivesse sozinha.
Pela primeira vez desde que saí de casa, tive medo de verdade.
Segurei a fotografia do meu pai com força.
— Pai, eu queria você aqui.
⸻
Naquela noite, consegui um lugar seguro para dormir.
Deitada, fiquei olhando para o teto.
Eu não sabia o que aconteceria no dia seguinte.
Não sabia onde iria morar.
Não sabia se voltaria a estudar.
Não sabia se algum dia veria Joana novamente.
Mas tinha uma certeza.
Eu não voltaria para aquela casa.
Fechei os olhos e segurei a fotografia do meu pai contra o peito.