Justiça só existe a de Deus, porque a dos homens é totalmente equivocada e injusta, principalmente em se tratando de mulheres. Somos massacradas, sofremos violência física, violência emocional, verbal e ainda assim temos que aprender a nascer de novo, a cada dia deixando para trás o que nos machucou, nos torturou, nos diminuiu. Somos vítimas sim, de uma sociedade machista, achista e injusta.
Chegamos num ponto crucial, ou eu aceitava a tortura psicológica e emocional, ou lutava com o que restara de mim para renascer. Eu optei por renascer, um dia de cada vez, uma batalha silenciosa para me levantar, para ser quem eu sou e não mais uma mulher anulada, escrava. Sim um ser humano que não tinha nada, uma vida esquecida, distante, sem sonhos, sem metas, sem decisões, sem alegria, sem motivos… eu iria lutar pelos meus maiores bens, o que Deus havia me confiado: os meus filhos. Eu iria sim, de alguma forma, renascer das cinzas quantas vezes fosse preciso para cuidar, amar, transmitir os valores necessários para meus filhos serem pessoas de bem nessa sociedade capitalista, que exclui, oprime, desvaloriza. Em um ambiente onde o 'tudo' é considerado normal, aceitável e intocável. Um lugar onde os valores quase desapareceram e aqueles que os seguem são rotulados como caretas, ultrapassados ou velhos.
Passando por tantas dificuldades, em uma manhã de domingo fui até igreja, permaneci lá um longo tempo depois que a missa havia terminado, todos haviam saído. Então, me joguei aos pés de Cristo e chorei... chorei minhas dores, minhas angústias, minhas preocupações, minhas feridas que sangravam e teimavam em não cicatrizar, a minha falta de fé, a minha ira, raiva e ódio… quando senti uma mão tocar em meu ombro. Me virei para ver quem era, a pessoa me acolheu com um abraço longo, afetuoso, era tudo que eu precisava no momento, um anjo mandado por Deus para acalmar meu coração, minha querida amiga da congregação de Notre-Dame, a irmã Lenita. Depois de um tempo, quando eu já estava mais calma ela me perguntou o que estava acontecendo, porque me encontrara tão desesperada. Aí fui falando de tudo o que eu estava passando naquele momento da vida. Ela ouviu e disse, para mim, não desistir, pois Deus dá as batalhas mais difíceis para seus melhores soldados e eu era um deles. Deus havia me escolhido, que Ele sabia de tudo e então ela me pediu se na segunda-feira de manhã poderia ir até a casa paroquial conversar com o padre José, eu disse que sim.
Ela me disse que iria agendar um horário com ele para mim depois e me avisaria. A irmã me conduziu até a porta da igreja, me deu mais um abraço e disse que tudo iria se ajeitar, que era só confiar em Deus. Voltei para casa mais leve, animada.
Hoje quando escrevo essas linhas, posso afirmar que anjos existem e foi Deus que mandou a irmã Lenita, naquele momento difícil para me mostrar que Ele estava me ouvindo, e em momento algum tinha me abandonado. Eu precisava ter fé, confiar, acreditar. Não é todos que recebem uma segunda chance na vida, eu sou uma dessas pessoas, incrivelmente imperfeita, com defeitos, mas uma guerreira que estava escondida!
E não há batalhas que você não possa enfrentar se Deus está contigo e você com Ele.
Na manhã seguinte na hora marcada, às oito horas e trinta minutos eu estava na casa paroquial para conversar com o padre José. Ele me recebeu com um cumprimento cordial, sentamos numa sala reservada e ele me perguntou porque eu estava ali. Com a voz embargada comecei a falar sobre tudo o que havia passado nos últimos meses e comecei a chorar. Depois me acalmei, ele me deu uma benção e pediu para voltar na próxima semana para continuarmos nossa conversa, agradeci e fui para casa. Durante toda aquela semana fiquei pensando em tudo o que o padre tinha me dito, que DEUS É AMOR e não estava me punindo em nenhum momento, mas sim me fortalecendo, para viver algo extraordinário que Ele tem preparado para mim, mas por estar tão envolta em tristezas eu não conseguia enxergar.
Ela me olha incrédula com toda a situação.
— Meu pai era um empresário de joias – ela fala – isso tudo não faz sentido.
— E você acha que seu pai criou fortuna como? – eu pergunto para ela e ela me encara
— Você está mentindo.
— Não estou – ele fala – conheço seu pai melhor do que qualquer outra pessoa, estive ao lado dele pela minha vida toda desde que me conheço por gente. Seu pai vivia dentro desse morro fazendo negócios com o meu pai.
— Meu pai nunca pisou no morro.
— Meu pai era o braço direito do seu – ele fala – meu pai ajudou o seu pai m***r o seu avô – ela me encara – Sabe Serena seu pai sempre disse que você era a menina dos olhos dele e que sabia que se um dia você descobrisse a verdade, você o jamais o perdoaria.
Ela me olha e depois encara tudo isso.
— Meu pai nasceu no morro?
— Sim – ele fala – foi embora quando sua mãe descobriu que estava grávida de você ele queria te dar uma vida diferente, longe do morro, do crime e de tudo que cercava ambas das famílias.
— E porque você o conhecia?
— Quando seu pai matou seu avô e pegou tudo isso – ele fala – seu pai ficou muito rico e precisava investir esse dinheiro para te dar um futuro, logo começamos a negociar, a gente era responsável pelo contra bando, pelos furtos e o seu pai pelo financeiro. Foi assim que o morro cresceu e a gente se tornou o que é, em conjunto com o seu pai.
— Meu pai financiava o crime? – ela pergunta
— Sim – eu respondo
— E porque Antonio tem ódio de mim? pOrque Maisa, Carla?
— Antonio não é meu irmão biológico, os pais dele morreram durante uma invasão, porque o seu avô foi tentar m***r seu pai – ele fala – muita gente inocente morreu, principalmente os pais dele. – eu engulo seco – seu pai arrecem tinha vindo embora com sua mãe, ela tinah fugido e seu avô queria a cabeça dos dois. Antonio foi criado pelos meus pais, mas ele sempre soube a verdade e se revoltou muito, quando ele descobriu após a morte dos seus pais que existia um tesouro, trilhões de reais, ele procurou Carla e logo descobriu que Maisa fazia faculdade com você, e ai começaram a bolar um plano, onde ele se envolveria com você, porque todo mundo sabia que você era a chave para descobrir tudo.
— Como eu seria a chave se eu não sabia de nada? Eu nunca soube de nada disso, nem mesmo – eu a interrompo
— Seu pai sempre te contou, mas você nunca juntou as peças até agora Serena – eu falo olhando para ela – você sabe que sempre escutou as histórias desde pequena.
— Eu nunca imaginei que as historias que meu pai me contava – ela fala – eram as que ele vivia.
— Agora você sabe – eu respondo – porque todo mundo te quer morta, porque todo mundo queria estar perto de você, porque quando você descobrisse a verdade sobre tudo isso e descobrisse onde estava tudo isso – eu falo – a sua vida seria ceifada.
— Então é por isso que está aqui – ela me encara – para me m***r, porque agora você já tem o que você queria, não é mesmo?