Arthur não sabia mais o que fazer.
A cada beco apertado que ele entrava aparecia mais e mais infectados.
Luiz e Erick falharam em segurar a imensa horda, o que já era óbvio, e só restava aos demais correr.
O pior de tudo era que Arthur liderava aqueles homens, e para onde ele fosse, os combatentes o seguiriam, aumentando a responsabilidade sob suas costas.
— EM FRENTE! EM FRENTE! — gritava o líder, saindo de um beco e entrando em outro.
Enquanto os homens eram guiados, a horda de infectados os seguia de perto ganhando cada vez mais adeptos.
Arthur já tinha perdido o senso de direção, e tentava somente achar algum lugar seguro.
O local onde estavam era lodoso, comprido, estreito e com paredes em ambos os lados. Era um beco parecido com o que Luiz e Erick ficaram.
Quando finalmente alcançaram a saída, chegaram em uma rua larga, cheia de veículos abandonados e com grandes hotéis perto da beira do mar.
— EMPUNHEM SEUS ESCUDOS! NÃO HÁ MAIS O QUE SE FAZER! — falou Everton, segurando firme a foice que portava.
Arthur olhou aos arredores e não encontrou nada de útil.
Alguns infectados desgarrados da horda começaram a lutar com os sobreviventes, sendo massacrados com facilidade pelos combatentes.
Até que algo os surpreendeu.
— EI! TODOS VOCÊS! ENTREM LOGO! — ordenou um estranho, abrindo o portão da garagem de um dos hotéis abandonados e acenando para os homens desesperadamente.
Arthur não teve dúvidas: apontou para o referido local e partiu em disparada para lá.
Se fosse uma emboscada, fodeu.
Todos os homens o seguiram e entraram também.
O rapaz que os convidara rapidamente se prontificou a fechar e trancar o imenso portão, saindo de perto para evitar atrair atenção indesejada.
— Meu Deus... eu não... sei como agradecer... — começou a falar Arthur, espalhando-se junto com seus combatentes pelo estacionamento e tão exausto que apoiara as mãos nos joelhos.
Foi então que a ficha finalmente caiu.
O estacionamento não era grande, tinha pouca iluminação e vagas para no máximo quinze carros. Por ser quase subterrâneo (pois a entrada era declivada), os infectados mal procurariam ali, tornando-se relativamente seguro.
O piso era todo em concreto, com pinturas que demarcavam os locais para se estacionar e, no fim de tudo, um elevador e uma escadaria.
Na frente da escadaria, e pelas costas dos combatentes, estavam cinco pessoas portando armas.
E apontando para a multidão.
— É sério isso? Saímos da panela para a frigideira? — perguntou Arthur, jogando o machado, o escudo e o fuzil que portava pendurado pelo coldre no chão.
Alguns homens relutaram em fazer isso, porém ao ver o líder rendido, decidiram fazer o mesmo.
— Somos quase trinta, vocês estão em uma bela desvantagem, não acha?
O homem que abriu o portão sorriu de nervoso e acenou para uma mulher que estava no meio dos cinco que apontavam as armas para os combatentes.
— Ela é quem manda, se quiser falar algo, que fale com ela.
Arthur fixou os olhos na bela mulher e franziu as sobrancelhas.
— Você? Uma mulher franzina e magra é líder daqui? — zombou ele, cuspindo no chão logo em seguida.
A mulher era Amara Nakamura.
E o grupo de Arthur tinha encontrado os sobreviventes restantes do grupo de Luiz Felipe.
Isso sim era uma baita coincidência.
— Meu nome é Amara. Amara Nakamura. Eu sou a líder daqui sim, e é melhor você ter mais cuidado com o jeito que fala, pois pelo que vejo quem está com armas nas mãos não são vocês. São muitos? Beleza. Temos muitas balas. Quer testar? — falou ela, com uma voz serena e ao mesmo tempo sombria.
Arthur engoliu em seco.
— Vamos manter a calma... — afirmou ele, dessa vez sem zombar.
Amara gostou do que ouviu.
— Agora sim. Já que temos respeito podemos conversar. Eu vou fazer algumas perguntas e quero que responda todas com sinceridade. Daí mesmo, não precisa se aproximar. Ok? — disse ela, olhando de soslaio para Pedro, que tinha aberto o portão para o grande grupo entrar.
O líder dos combatentes passou alguns segundos em silêncio, fez um sinal de desaprovação com a cabeça, mas rapidamente se pôs a aceitar o que Amara propôs.
— Odeio tudo isso, mas vamos lá. O que você quer saber?
Amara sorriu ainda com a pistola nas mãos e voltou a ficar séria.
— Bem... de onde vocês são e o que estão fazendo nessas ruas? Não sabem que tudo está repleto de infectados? O que porra vocês tem na cabeça? Se acham os gladiadores dos tempos antigos? Pelo que vi tem armas pesadas com vocês, mas usaram somente machados, facas e escudos! Por qual razão? — perguntou Amara, sem acreditar naquilo.
Everton trocou rápidos olhares com Arthur, mas foi o suficiente para entender que não deveria fazer nenhuma asneira.
— Vou responder tudo o que você quiser. Vamos lá... Nós somos daqui mesmo, de Tamandaré. Encontramos uma das caravanas militares que o governo mandou antes de sucumbir. Lá tinha um estoque repleto desses escudos, de roupas de contenção e também de armas, porém nós não gastamos munição à toa, guardamos a maioria no nosso acampamento para quando for necessário. Além do mais, atirar só faz chamar atenção, e não queremos isso. Agora tenho que afirmar uma coisa: aqui é bastante seguro, até mais do que onde moramos! Vocês têm um belo hotel em mãos! — respondeu ele, mantendo a calma e tentando ser amigável.
Amara olhou confusa para Luíza.
As duas já estavam bastantes surpresas com o tamanho daquele grupo, e ao descobrir que eles estavam em maior número ainda, surpreenderam-se.
— São quantos ao total? Quero detalhes.
Arthur não gostou dessa pergunta e cerrou os punhos.
— Não vou dizer nada do meu povo sem saber suas verdadeiras intenções. Pode me torturar, me bater, me matar. Tô nem aí.
Alguns segundos de tensão se passaram e quase que as coisas saíam do controle.
Até que Amara acalmou tudo.
— Ok! Entendo, vocês tem famílias como nós também. Então vou tentar ser maleável e começar a cultivar confiança entre a gente... aqui somos um grupo de doze pessoas. Bem pequeno comparado ao seu, porém éramos muito mais. Sofremos um forte ataque de outro grupo bem equipado e perdemos quase tudo. Antes morávamos em Palmares, ou pelo menos a maioria de nós, e viemos de um acampamento em um condomínio fortificado de lá. Eu não era a líder deles. Nosso líder está sumido até hoje. Talvez tenha morrido ou simplesmente fugido, não sei. Só sei que o que passamos até chegar aqui foi horrível, e não queremos perder o que nos restou, pois já basta de sofrimento! — confessou Amara, preocupada.
— Eu não quero nada de ninguém. Não sou um ditador nem um louco, só prezo pelo bem de todos, e também do meu. Você pode me considerar um… sei lá… homem de bem, digamos assim. A nossa comunidade funciona dessa forma: as pessoas vivem em paz, mas cada um tem uma função. Eu e Everton resolvemos quase todos os problemas, com uma ajudinha aqui e ali deles e sempre procurando por mais mantimentos. Já os demais plantam, fortificam, limpam etc. Agora tenho um pedido pra fazer... — comentou ele, estando mais descansado.
— Fale.
— Quero conversar com você a sós. De líder pra líder. Nossas comunidades têm muito a ganhar se nos unirmos, pois a união faz a força! E aparentemente vocês não são vagabundos ou ladrões.
Amara trocou olhares com Luíza e os demais de seu grupo.
Nenhum deles fez alguma objeção.
Ela deveria decidir por si mesma.
— Tudo bem. Só eu e você, agora com um detalhe: todos os seus homens ficarão sentados aqui, sem se mover bruscamente e sob o cano das armas do meu pessoal, e além disso, você vai subir comigo com as mãos amarradas, enquanto que eu estarei armada. Concorda? — disse ela, fria.
Arthur respirou fundo e acenou com a cabeça positivamente.
— Matheus, você vem comigo e amarra as mãos dele. Vamos os três para um dos quartos do primeiro andar. Daí teremos uma conversa somente eu e você! — completou Amara, apontando para o homem musculoso.
O líder dos combatentes concordou, para a preocupação de Everton, e começou a caminhar na direção de Amara.
Matheus, que era n***o, de cabelos curtos e magro, pegou uma pequena corda que tinha consigo e amarrou ambas as mãos de Arthur, colocando-as para trás do seu corpo.
Depois disso os três começaram a subir a escadaria.
Aquela conversa seria decisiva para o bem-estar de todos ali.
...
Luciano finalmente abriu os olhos.
Ele tinha tido um terrível pesadelo com a morte de sua amada, Larissa.
Isso pela trigésima vez.
O marinheiro não suportava a ideia de estar separado da mulher de sua vida.
Ele conseguiu escapar com vida da Colina dos Perdidos, e alguns dias depois começou a procurar os amigos, completamente perdido e sem saber por onde começar.
Isso foi difícil pra ele.
Tudo o que passaram juntos, tudo o que viveram... jogado no lixo, por causa do Coronel e seu grupo.
E Luciano ficou só.
O tempo passou e ele não conseguiu encontrar mais ninguém.
Luiz, Carla, Isaac, Lucas, Sabrina, Amara... todos esses simplesmente evaporaram.
Depois de se recuperar de uma forte febre com a ajuda de antibióticos, o marinheiro decidiu erguer a cabeça e agir.
Ele não poderia se entregar ao luto daquela forma.
O pior de tudo era a sensação de não saber o destino que as pessoas que ele tanto amavam tinham tido.
Com isso, o homem se afastou bastante da ex-Colina dos Perdidos e tentou recomeçar sua vida no apocalipse.
Sozinho e devastado.
Longe de tudo e de todos.
Morando em um galpão abandonado por mais de seis meses.
“De novo não...” pensou Luciano, tossindo uma vez e passando as mãos nos olhos.
Ele finalmente tinha despertado.
O marinheiro estava vestido com uma calça jeans azul, botas militares, camisa verde-musgo e uma toca preta.
O frio ali era intenso.
Palmares ultimamente estava com o tempo todo desregulado, às vezes fazia um sol intenso, às vezes chovia como se não houvesse amanhã.
Esse dia em particular estava cinzento e a qualquer momento cairia um temporal.
“Porra... só tenho sete latas de atum, dois pacotes de macarrão, um de feijão, outro de arroz e quatro litros de guaraná quente... que merda!”
E isso era tudo que ele tinha pra comer na semana, ou talvez no mês.
Se não fosse atrás de mais suprimentos passaria fome.
Porém ele era um militar, sabia racionar bem seus mantimentos.
“Vou cair em campo para melhorar minha situação, talvez ache um mercado abandonado... algo do tipo.”
O galpão onde Luciano estava morando era em uma rua na parte alta da cidade de Palmares.
A enchente não tinha atingido ali, e por isso o rapaz não teve sérios problemas com limpeza.
O local só tinha uma entrada, que era a da frente, com um portão duplo bem alto e seguro, feito de ferro. Para facilitar, nele ainda tinha uma grande tranca, que ao entrar era só fechá-la por dentro e estava tudo certo.
Além disso, o marinheiro arranjou um veículo Pálio da Fiat, seminovo, deixando-o estacionado na frente do galpão para emergências.
Por sorte as chaves estavam no console do veículo e as portas abertas.
Luciano também tinha armas no galpão, contando com um fuzil de assalto com pouca munição (encontrado no meio da batalha) e duas pistolas Glock, com trinta balas à disposição.
— Dia de encontrar suprimentos... que Deus me abençoe... — cochichou ele, fazendo o sinal da cruz e se levantando do colchonete onde estava dormindo.
O marinheiro caminhou até a parte dos fundos do largo galpão, pegou seu copo e o encheu com água de um botijão de vinte litros.
Luciano bebeu uma parte e depois lavou o rosto com o resto.
Ele pegou a Glock, colocou na parte traseira da calça, depois foi pegar um facão bem amolado.
Abriu a tranca do galpão, puxou a mochila para si e saiu.
“E vamos lá...” pensou ele, preocupado.
A qualquer momento iria chover bastante, porém não adiantava mais adiar o inevitável.
Luciano precisava de mais suprimentos.
Ele saiu e começou a andar pelas vazias ruas de Palmares.
Vazias até o momento, pois se fizesse barulho suficiente, atrairia atenção indesejada.
E era assim que o marinheiro estava vivendo.
Uma vida tenebrosa e solitária.
Mas desistir não era uma opção.
Se estava vivo, era porque Deus tinha planos para ele.
Só restava esperar.
...
Amara abriu a porta de um dos quartos vazios do primeiro andar e entrou, seguida por Matheus e Arthur.
A sala estava vazia, contendo somente quatro cadeiras velhas.
A médica colocou uma cadeira de frente para outra e sentou em uma delas.
— Matheus, fique na porta, por favor. E do lado de fora. Preciso conversar com esse homem. Está tudo bem, eu estou armada. — falou Amara Nakamura, ainda com a arma em punho, porém apontada para baixo.
— Você tem certeza? Olha o tamanho desse cara... se ele...
— Matheus. Faça o que estou pedindo. Qualquer movimento brusco e eu atiro nas bolas dele! — ameaçou ela, interrompendo a fala do rapaz.
Arthur colocou uma expressão de assustado no rosto.
— Porque logo nas bolas? Atire na minha cara! Eu não ligo, mas nas bolas? Puta que pariu!
Amara queria ter rido, mas se conteve.
— Bom... vamos lá.
Matheus saiu e fechou a porta, deixando os dois a sós.
— Eu vou fazer um breve resumo da minha vida, explicar o que aconteceu comigo e com os demais daqui, depois é sua vez. Ok? Sem mentiras.
Arthur acenou com a cabeça.
— Como disse… meu nome é Amara Nakamura. Eu sou enfermeira e muito boa no que faço. Já cheguei a salvar várias vidas, até mesmo o parto do único bebê que temos aqui fui eu que auxiliei. Agora vamos ao que interessa mesmo: meu antigo grupo era imenso, composto por mais de trinta pessoas, com muitas armas e nós morávamos em um condomínio maravilhoso, murado, cheio de suprimentos, com cavalos, veículos e tudo mais o que você possa imaginar. Estávamos lá desde o começo da pandemia... até que outro grupo fortemente armado nos atacou. Na verdade, esse pessoal nos deu um aviso alguns dias antes. Mandou que fôssemos embora de lá, pois eles tinham interesse no lugar. Mas nós estávamos muito confiantes. Aquilo era nosso. Não iríamos entregar de mão beijada, então decidimos entrar em combate com vários deles em uma fazenda ali perto e também em um colégio estadual antigo. O resultado? Matamos vários e nos achamos pra c*****o. Quando digo vários, falo em mais de vinte ou trinta pessoas. E no final fomos destruídos por um só.
Ao terminar de falar isso, Amara percebeu que Arthur estava completamente ligado nas palavras dela, e franziu as sobrancelhas ao ouvir que um único homem os destruiu.
— O quê? Como um único homem conseguiu destruir vocês, se mataram um batalhão deles? — perguntou o líder, interessado na história.
Amara pigarreou e pediu forças a Deus para continuar falando daquele assunto tão pesado.
— Ele se autodenominava “Coronel”. Esse homem era o líder do grupo fortemente armado, e o que era ruim ficou ainda pior, pois alguns dias depois dele ter ido nos avisar que atacaria, junto com três caminhões cheios de gente, ele realmente atacou. Mandou um cara sozinho. A estratégia daquele filho da puta foi implacável. Nós não esperávamos por nada daquilo. O Coronel mandou um desgraçado na calada da noite com um caminhão imenso e com o som ligado nas alturas, derrubou nosso portão e atraiu uma horda gigante para o interior do condomínio. Enquanto as pessoas combatiam os infectados, ele e seu pessoal somente assistia de longe. Daí não sei mais o que aconteceu, pois eu, outras mulheres, Pedro e algumas crianças fugimos em um ônibus que deixamos preparado. Mas nem todos saíram com vida, pois ao passar pela entrada do condomínio, nosso veículo foi metralhado e alguns de nós morreram baleados. Enfim... cá entre nós... creio que ninguém sobreviveu. Eu deixei uma carta no local que ficamos temporariamente, no corpo de bombeiros de Palmares, sonhando com que alguém do nosso antigo grupo encontrasse, pois o combinado foi nos encontrarmos lá caso tudo fosse aos ares. Deixei bem claro que iríamos para Tamandaré, mas como já era esperado... ninguém nos encontrou... — respondeu Amara, cabisbaixa.
Arthur sentiu pena da pobre mulher.
Ele podia ver nos olhos dela algum tipo de arrependimento e uma tristeza incalculável.
Aquele foi o único momento da conversa que ela fraquejou.
— Além disso, eu não sei o paradeiro do meu namorado, Isaac. Não quero crer de forma alguma que ele morreu... mas tem grande chance. Também não sei o que aconteceu com minha amiga, Carla, a esposa de Luiz Felipe, nosso antigo líder, ele...
Então foi aí que Arthur tomou um susto, que não passou despercebido pela moça.
Amara travou imediatamente ao ver que o rapaz arregalou os olhos na hora que ela citou o nome de Luiz.
— Pera... você falou Luiz Felipe? — ao ouvir isso, as duas mãos de Amara começaram a tremer.
Definitivamente Arthur sabia de alguma coisa.
— Você o conhece? Como? Quando o viu? Onde ele está? Ele está no meio daqueles homens? Ou no seu acampamento? — Amara estava visivelmente alterada. Também não era pra menos. Era a primeira vez em meses que tinha a suposta notícia de alguém do seu antigo grupo.
— Primeiramente, calma! Sim, eu acho que conheci sim. E não faz tempo. Luiz Felipe é um homem alto, com cabelos pretos e barba da mesma cor, pele branca misturada com preto e várias veias feito as dos infectados, e que anda com um capuz sombrio? — perguntou Arthur, atraindo ainda mais a atenção de Amara.
Ele tinha acertado algumas coisas, menos a parte da cor da pele, do capuz e das veias feito as dos infectados.
Tinha grandes chances de ser ele.
— Eu não… eu não sei ao certo se falamos da mesma pessoa. Mas se tem a mínima chance de ser ele, eu gostaria de conferir! Assim... quase tudo bate com a descrição dele. Só não sei o por quê do capuz e das veias, mas o resto você acertou! Onde esse rapaz está? — indagou a enfermeira, guardando a pistola na parte de trás da sua calça.
— Calma! Podemos estar falando de outra pessoa com o mesmo nome! Esse rapaz me salvou de um daqueles infectados gigantes, e não creio que seja o seu antigo líder, principalmente pela aparência de monstro que ele tem! — explicou ele, assustado.
Amara percebeu que estava se excedendo e tentou se controlar
— Conte cada detalhe do seu encontro com ele!
— Tá bom, tá bom!
Arthur encarou a mulher e estava realmente achando que ela era louca, pois abandonou todo o interrogatório para saber do meio infectado.
— Tudo começou quando eu e meus homens fomos buscar suprimentos no coração de Tamandaré, pois descobrimos que lá tinha um daqueles comboios militares abandonados. Aí fomos atacados por uma horda com vários filhos da puta. Nós lutamos como se não houvesse amanhã, até que no meio da batalha eu fui atacado por um dos gigantes, sabe? Aqueles grandões cinzentos que atacam parecendo um boi brabo! — informou ele, com cautela para não irritar a mulher.
Amara acenou positivamente com a cabeça.
— Pronto. Então... quando eu tava no chão, todo fodido, o grandão lá quis me finalizar, até que alguém jogou a porra de uma corda em volta do pescoço do filho da puta e o derrubou! c*****o, foi sensacional! E depois disso a mesma pessoa matou o grandão com o facão, só dando pancadas na cabeça! No fim da batalha esse rapaz, que estava encapuzado, disse que se chamava Luiz Felipe e também falou algo do seu antigo grupo. Ele disse que tinha perdido tudo e que agora procurava pelos amigos restantes. Agora tem um detalhe que acho que você não vai acreditar... esse Luiz, ele estava doente. Segundo ele mesmo, era imune à infecção. Você precisava ver os olhos dele: um era normal, de cor castanho. Já o outro completamente preto. E quando digo preto, é tipo, até a bola branca preta, tá ligado? Algumas das veias do rapaz estavam saltadas e pretas, iguais às dos infectados. Além disso, de alguma forma os monstros o ignoravam, ele podia ir e vir no meio da horda que estavam nem aí. Simplesmente inacreditável, entende?
A líder do pequeno grupo do hotel não sabia como reagir a tudo que tinha ouvido.
Ela não conseguia acreditar, porém não teria lógica aquele homem desconhecido inventar tanta coisa assim em pouquíssimo tempo.
Então Amara não conseguiu se segurar.
As lágrimas começaram a rolar.
Horas antes ela estava orando para que Deus mandasse algum sinal positivo, e finalmente o sinal chegou.
Tudo indicava que Luiz Felipe estava vivo.
— Meu Deus... deve ser ele! Luiz sobreviveu! Eu sempre soube! Aquele cara era de ferro! O desgraçado sempre saía e voltava inteiro!
Ao ver a comemoração, Arthur rapidamente se entristeceu.
O líder acreditava que ele não teria sobrevivido ao atropelo naquele beco, durante a fuga.
— Caramba... eu não consigo acreditar... Luiz se infectou e… de alguma forma… se isso tudo for verdade… ele pode ser imune! Então essa é a razão do Coronel ser daquela forma!
— O quê? Acho que estou um pouco perdido aqui… o Coronel também é desse jeito?
Amara respirou fundo algumas vezes para se acalmar, enxugou as lágrimas e sorriu aliviada.
— O Coronel era parecido com a descrição que você deu. Ele tinha um rosto muito estranho e várias veias saltadas e pretas como as dos infectados, e talvez seja por quê ele era imune ao Lyssadyceps! Acho que nesse meio tempo Luiz se infectou e continuou nos procurando sozinho. Então isso significa que... que talvez... — e nem foi preciso ela terminar a frase, Arthur entendeu o que queria dizer.
Significava que talvez todos tivessem morrido.
Amara não queria acreditar.
— Onde ele está? Eu preciso falar com Luiz! Eu preciso vê-lo e perguntar por Isaac e os outros imediatamente! Em troca eu deixo seus homens entrarem e se alimentarem aqui! Ou qualquer outra coisa! Eu preciso ver Luiz! — pediu ela, completamente fora de si.
Matheus, ao perceber o barulho dentro da sala, abriu a porta.
— Está tudo bem? — e o pobre rapaz foi ignorado.
— Talvez… talvez seja tarde demais. Quando estávamos fugindo pra cá, corremos por vários becos, e em um deles Luiz e Erick, um rapaz da nossa equipe, ficaram para trás, segurando a horda enquanto fugíamos.
Ao terminar de falar isso, Amara surtou.
A enfermeira se levantou e arremessou a cadeira com tudo na parede.
— COMO VOCÊ PÔDE ABANDONÁ-LO? E AGORA? COMO VOU DESCOBRIR O QUE ACONTECEU COM OS OUTROS? E AGORA, PORRA! — urrou ela, desesperada e dando um forte chute na cadeira de plástico quebrada, que estava no chão.
Arthur se surpreendeu com aquilo.
A mulher parecia ser franzina e calma, porém quando ela se estressou, transformou-se em um monstro.
— Calma! Calma! Eu não tenho certeza se ele morreu! Me desamarre que eu te levo até lá! Não hoje, mas amanhã, pois os monstros ainda estão pelas ruas aqui perto! Prometo que lhe levarei até o mesmo beco que ele ficou! — propôs Arthur, assustado.
Amara levou as duas mãos até o rosto e se pôs a chorar, completamente transtornada.
Alguns segundos constrangedores se passaram naquela sala.
Enquanto a pobre moça chorava, Arthur não sabia o que fazer para acalentá-la e Matheus assistia à cena horrorizado.
Amara sentou-se no canto da parede e enterrou a cabeça entre as pernas.
— Amara, calma, por favor! Ainda há esperança! Eu te levo lá, eu prometo que te levo lá! Luiz era imune, lembra? Ele pode ter sobrevivido! Se aquele porra não morreu na batalha que você falou, o que lhe leva a crer que morreu agora? Erga essa cabeça, enxugue as lágrimas e vamos esperar amanhecer! Tá bom? — opinou o homem, gentilmente.
A enfermeira enxugou as lágrimas mais uma vez e se levantou aos poucos.
— Você tem razão... — disse ela entre soluços.
Amara desatou o nó dado na corda e soltou Arthur.
O rapaz agradeceu e foi na direção da saída, esperando a líder abrir a porta e guiá-lo de volta a seus homens.
— Veja só, o acordo é o seguinte: você traz seus homens e os abriga nos quartos vazios. Também pode alimentá-los, para isso vou te apresentar Mariana, a responsável pelos mantimentos. Não temos muita coisa, mas já é melhor que nada. Amanhã cedo vamos eu e você até o tal beco e procuraremos pelo corpo de Luiz Felipe, se não tiver nenhum corpo iremos atrás dele, mas se o encontrarmos morto, daremos um enterro digno aquele homem. Ele é muito importante para mim, um grande amigo e também um grande líder, maior do que você possa imaginar. Depois disso você e os demais seguem seu rumo. Tudo bem? — afirmou ela, com os olhos inchados por culpa do choro.
Arthur estava começando a gostar da personalidade da moça, ele admirava pessoas dedicadas e gentis.
— Sim. Combinado. E espero que a gente ainda converse mais, pois você falou, falou e eu disse porra nenhuma do meu grupo nem de nada. Ok? — aceitou ele, sorrindo tranquilamente.
Amara abriu a porta e apontou para a saída da garagem.
— Desculpe, eu costumo falar muito, e depois do que você me disse, dessa hipótese de Luiz Felipe estar vivo... bem, vamos lá!
Os dois começaram a caminhar na direção da escadaria e Matheus ficou sem entender nada mais uma vez.
Mas o rapaz decidiu segui-los também.
Agora finalmente as coisas estavam começando a se ajustar.
Os sobreviventes começaram a se encontrar e aos poucos eles uniam forças.
Ainda havia muito a se fazer, porém o primeiro passo tinha sido dado.
Mesmo a pior tempestade um dia chegará a passar, e o sol voltará a aparecer.