INT. CABANA ESCONDIDA NA FLORESTA – ALGUMAS HORAS DEPOIS
*A chuva tamborila no telhado de madeira podre.
O vento canta pelas frestas, e cada sombra no canto da sala parece se mover.
Mas aqui dentro... é silêncio.
Lilith está deitada numa cama improvisada, coberta com um manto antigo.
Seus olhos vermelhos estão abertos, fixos no teto.
Mas ela não está vendo o presente.
Está ouvindo o passado.
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FLASH DE IMAGENS:
• Um salão dourado no Egito.
• Uma coroa sendo colocada em sua cabeça.
• Um sussurro: "Você é o elo entre dois mundos..."
• Uma dança com um guerreiro que não tem rosto.
• Um beijo roubado no meio da noite.
• Um pacto selado com sangue.
• Uma porta trancada
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DE VOLTA À CABANA
Lilith se senta.
Suas mãos tremem.
Ela olha para elas...
e por um breve momento, vê as unhas longas, douradas, de uma rainha antiga.
Ela pisca e
Some
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LILITH (baixa, para si mesma):
"Tem algo errado comigo...
Ou talvez...
esteja finalmente certo."
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*Ela se levanta, pés descalços tocando o chão frio.
O espelho velho no canto da cabana a reflete —
mas por um segundo, o reflexo pisca com outra versão dela: com uma túnica egípcia, colares sagrados e olhos de pura luz.
Ela se vira assustada.
O reflexo é o mesmo de antes.*
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Damien entra, silencioso, carregando madeira.
DAMIEN (preocupado, mas controlado):
"Você dormiu?"
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LILITH (fria, não responde direto):
"Sonhei.
Mas nada claro.
Algo... antigo.
Uma rainha."
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DAMIEN (tentando esconder o aperto):
"Você já foi muita coisa...
Mas se quiser, agora você pode ser só você."
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Lilith sorri. Leve. Triste.
LILITH:
"O problema é que...
eu não sei mais quem é 'só eu'."
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Ela toca o ombro ferido. O toque queima.
Um símbolo aparece por um segundo sob a pele – um ankh cruzado com um olho dourado.
Ela grita.
Damien corre até ela.
Mas ela já está de pé, olhos vermelhos acesos.
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LILITH (ofegante, com medo e raiva):
"Eles estão vindo."
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DAMIEN (já pegando a espada):
"Como você sabe?"
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LILITH (olhando pra fora, para o céu que escurece ainda mais):
"Porque o que me quer...
já me teve uma vez."
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Ela não sabe como sabe.
Mas sente.
No fundo, Lilith sabe que o passado está tentando se reescrever...
e ela está no centro do novo ciclo.
*A chuva lá fora virou tempestade.
Mas aqui dentro...
O fogo da lareira dança, lançando sombras douradas pelas paredes rachadas.
Lilith está sentada, de lado, com a blusa rasgada no ombro onde o símbolo apareceu.
Damien ajoelha diante dela, concentrado.
Ele segura um pano limpo e um frasco de ervas — os dois improvisando como podem.
A tensão entre os dois... elétrica.
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DAMIEN (voz baixa, firme):
"Fica parada.
Isso vai arder um pouco..."
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LILITH (irônica, mesmo fraca):
"Depois do que eu vi?
Isso é só cócega."
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Damien sorri de canto, mas não responde.
Ele toca o ombro dela com o pano úmido e ela estremece.
Não de dor... mas do toque dele, suas mãos másculas, passam devagar para não machucá-la.
A pele arrepia.
Ela disfarça olhando pro lado.
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DAMIEN (sem olhar pra ela):
"Esse símbolo...
apareceu do nada.
Nunca vi nada assim."
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LILITH (tentando manter a voz firme):
"Nem eu.
Mas... parece que ele me conhece melhor do que eu me conheço."
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O silêncio entre os dois fica mais denso.
Damien termina de limpar e encosta um pano seco com cuidado.
Os olhos dele se encontram com os dela.
Ela respira fundo.
Ele engole seco.
Os dois parados, como se o mundo tivesse congelado.
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DAMIEN (voz baixa, intensa):
"Não sei o que tá acontecendo...
Não entendo quem você foi...
Mas eu sei o que sinto agora."
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LILITH (lábios entreabertos):
"O que você sente?"
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DAMIEN (quase um sussurro):
"Que se alguém tentar te tirar de mim de novo...
Eu trago o inferno e transformo esse mundo em cinzas."
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Ela arregala os olhos.
O que ele disse... ecoa.
"De novo?"
Mas antes que ela possa pensar muito, ele se aproxima.
Os rostos a centímetros.
O calor entre eles é real.
Intenso.
Quase perigoso.
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Lilith fecha os olhos.
Mas no último segundo, vira o rosto, sussurrando:
LILITH (com dor interna):
"Você não sabe o que eu sou..."
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DAMIEN (segurando o queixo dela, firme e gentil):
"Então me deixa descobrir."
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*Os olhos de Lilith se abrem — vermelhos, intensos, confusos.
Eles continuam se encaram.
DAMIEN (voz baixa, rouca):
"Não sei o que aconteceu entre a gente antes...
Mas tudo em mim grita pra te proteger agora."
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Lilith fecha os olhos.
Ela quer fugir...
Mas está cansada de fugir.
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LILITH:
"Você não tem ideia do que está dizendo.
Eu posso te destruir, Damien."
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Ele chega mais perto, a respiração dele quase tocando a nuca dela.
Mas a voz permanece calma. Firme.*
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DAMIEN:
"Talvez.
Mas eu prefiro ser destruído por você...
do que viver sem saber o que a gente é."
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Lilith vira, enfim.
Os olhos dela brilham em vermelho intenso.
Mas dessa vez, não é ameaça.
É vulnerabilidade.
É verdade.
Ela está tremendo.
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LILITH (com a voz embargada):
"Eu lembro de sentir isso antes.
Não sei quando, nem onde.
Mas quando você me olha assim...
tudo em mim quer gritar que você era meu."
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Damien não responde com palavras.
Ele apenas toca o rosto dela com reverência.
Como quem toca uma lembrança sagrada.
Como quem já viveu aquele momento milhares de vezes em sonhos que não lembra.
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E aí...
o beijo acontece.
Lento.
Profundo.
Intenso como se eles estivessem se reconhecendo.
Como se o tempo todo, o universo estivesse apenas esperando esse reencontro.
Luz e sombra se misturam nos dois.
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(NARRAÇÃO EM OFF –)
"Alguns amores são escritos não no tempo...
Mas entre as eras.
Selados em sangue.
E renascidos... sob a lua certa."